Bonde Curitiba – O extenso relato…

Entre os dias 30 de julho e 01 de agosto ocorreu a 3ª edição do Bonde para Curitiba. Na primeira edição em 2008 lotamos um ônibus. Em 2009 foram dois e em 2010, novamente mais dois ônibus. A idéia do Bonde é participar da Bicicletada de São Paulo, entrar no ônibus que encosta as 23h00 na Praça do Ciclista e seguir até Curitiba, chegando lá por volta das 8h00 da manhã. De lá seguimos para o Pátio da Reitoria onde se concentra a Bicicletada de Curitiba, participando de duas Bicicletadas em menos de 14 horas.

Foto Uirá - DF

Como estava organizando o bonde, não pude participar da Bicicletada de São Paulo, já que tive que ficar na praça correndo atrás dos últimos preparativos, mas meus amigos Uirá e Zerbinato de Brasília e o Guilherme de Santos curtiram ao máximo a Bicicletada Paulistana que segundo alguns participantes, uma das melhores que já aconteceu.

Foto Uirá - DF

Quando a massa voltou a praça, os dois bondes já estavam a postos. Batizamos um como Bonde da Soneca, onde as luzes seriam apagadas e nada de zumzumzum. Já o outro foi carinhosamente batizado de “Bonde do Pancadão”. Luzes acesas o tempo inteiro e inspirados no vídeo (ou áudio) do Cap. Lacerdinha, nesse bonde “Não vai dormir ninguém”.

Foto Gola

A festa rolou solta e toda cerveja foi pouca para essa turma, na parada em Registro as 3h00 para troca de motorista, aproveitamos para passar o chapéu (melhor, o capacete) e comprar mais cerveja (achava que ciclista era tudo “atreta”?).

Chegando em Curitiba, tomamos café no hotel que ficaríamos hospedados e logo depois andamos um quarteirão para chegar no Pátio da Reitoria, local da concentração da Bicicletada Curitibana, De cara encontramos um famoso bicicreteiro Plá, cantor de “bikemusic” que estava lançando naquele dia o CD Biciclopédia. Inclusive nos próximos posts, vou deixar um esquema para a galera poder baixar os MP3 do Pla, já que infelizmente, não encontramos suas musicas nas “melhores casas do ramo” já que tudo é produzido de forma independente.

Foto Shadow - Outro clássico da MPB, "A Bêbada e o Vagabundo"

Falando da massa, mais uma vez estava enorme e pela terceira vez o tempo ajudou demais, um céu azul, impossível de se ver em São Paulo. Clima agradabilíssimo que só conspirou ao nosso favor, fazendo com que a massa tomasse as ruas de uma forma incrível. Adoro a Bicicletada de Curitiba, a galera agita demais, muitas alegorias, crianças, uma festa maravilhosa e com pouquíssimos motoristas estressados, como disse, tudo conspirando ao nosso favor.

Foto Uirá - DF

Era mandala nos cruzamentos, em uma rotatória que sempre passamos (desculpem os Curitibanos, ainda não sei o nome de tudo aí), crianças, test drive na bike do Gallo, e a invasão dos verdinhos de São Paulo no meio da massa. O término da Bicicletada, como sempre foi no lindo Museu do Olho, onde o Plá fez mais uma “session” para nós.

No sábado a noite, a galera de “Curita” agitou um Alleycat, uma corrida onde o ciclista tem que passar por vários pontos da cidade, fazer um “x” numa folha de papel e tomar um gole de alguma coisa que contenha álcool. Participei do Alleycat com minha City Tour de 60 quilos, só faltou eu levar meu caixote.

Concentração para o “Alicate”

Foi muito louco, tomei umas coisas que nem sei direito se era vodka ou zulu e como não conhecia os caminhos ia seguindo uns Curitibas. Estava até que bem, seguindo o cara que chegou em sexto, mas virei uma rua antes da rua do final e me ferrei. Beleza, quando eles vierem pra cá a gente dá o troco e mostra pra eles o que é uma ladeira de verdade… hehe

Na mesma noite fomos até a Pizzaria do pai do Curitiba Fixeiro Ivo, cerca de 50 ciclistas pedalando em ritmo mais forte pelas ruas de Curitiba, lembrou muito esse clipe do 30 Seconds To Mars (se ainda não viu veja, imperdível), até porque o Gallo com sua bike de dois andares fazia parte da massa. No caminho pedalamos pelas famosas “canaletas” os corredores de ônibus de lá, muito utilizada pelos ciclistas apesar de ser proibido.

Como as ciclovias de Curitiba foram planejadas praticamente sem a lógica de transportes, apenas de lazer, ligando parques, com certeza a melhor opção de trajeto casa trabalho dos ciclistas, coincide com o trajeto das canaletas. Como é praticamente inviável andar junto com os carros, muitos se arriscam nas canaletas já que a quantidade de “monstroristas” lá dentro é menor que fora dela. Mas segundo um ciclista de lá infelizmente alguns monstroristas querem “ensinar” aos ciclistas que ali não é o lugar deles com sua arma de 8 toneladas e daí já viu.

Londres e Paris costumam compartilhar as vias de ônibus e sinceramente, acho que com um pouco de boa vontade da prefeitura de Curitiba, somado a um treinamento dos motoristas, esse tipo de compartilhamento é mais que possível. Com um fator positivo a mais, já que diferente de Londres e Paris, onde as pistas de ônibus são estreitas e sem muitas possibilidades de ultrapassagem, em Curitiba ocorre o oposto, elas são largas, tornando bem mais fácil a negociação de uma ultrapassagem.

Depois da deliciosa pizza que custou “8 reais” pra cada um, uma galera voltou para o bar onde terminou o AlleyCat e outra turma (incluindo eu) voltou para o hotel, já que no dia seguinte teríamos a descida da Graciosa.

Foto - Shadow

As 7h30 da manhã de domingo, 50 ciclistas saíram em direção a Morretes, com o objetivo de conhecer a famosa e singular Serra da Graciosa e seus paralelepípedos. O trajeto é bem tranqüilo e bonito, cerca de 80 quilômetros onde misturamos paisagens urbanas e rurais, asfalto, terra, paralelepípedo, morros, trechos planos, tinha de tudo.

Vou dividir em 5 partes, primeiro o trecho urbano até a estrada da Graciosa ainda no trecho urbano (12km), o trecho até a cidade de 4 barras (14km), um trecho de terra (20km) sendo que metade já está asfaltado e outros ainda em obras, a descida da Graciosa (13km) e o retão até Morretes (13km).

Nosso objetivo é que todos chegassem a Morretes até as 15h00, mantendo o cronograma de saída de Curitiba as 17h00. Ah tá… Clique aqui para ver o trajeto exato.

Foto Uirá - DF

Na primeira parte do trajeto seguimos num grupo compacto e com poucos problemas. O céu nublado já mostrava o que iríamos encarar e ao final do primeiro trecho encontramos a “danada” que nos faria companhia por quase toda a viagem. A partir dali o grupo se fragmentou, cada um seguiu no seu ritmo com eu e o Gallo (o da bike de dois andares) fechando o grupo e resolvendo o problema da galera do fundão, funcionando como uma espécie de cata-prego.

Chuva, vento, capas, morros, pneus furados, joelhadas no queixo devido aos selins baixos, muito trabalho para nós do fundão. O Gallo se desdobrava e ainda bem que contamos com a ajuda providencial do pessoal das fixas. Se bem que às vezes eles mais abusavam do que ajudavam, conforme flagrei na foto abaixo.

No terceiro trecho, onde começaria a terra, tivemos uma surpresa pois não havia mais terra e sim um liso asfalto. No ano passado encontramos essa estrada em obras, sendo que o prefeito passou por nós de carro, dizendo que nesse ano ela já estaria totalmente asfaltada (tolinho). Seria uma maravilha se realmente fosse verdade, pois a chuva nos pegou pra valer bem nesse trecho. Quem sabe em 2011?

O grupo que acelerou no começo teve mais sorte e pegou a chuva no finzinho da terra, nem deu pra sujar a bike de lama, mas já a galera do fundão…

No meio da massa se destacava o Wagneta, esse cara aí em cima, com sua Fixa sem freios, não teve medo nem da lama, tão pouco da “assustadora” descida pelos paralelepípedos. Quando a chuva apertou na lama, só ouvia o barulho das pastilhas se dissolvendo na primeira descida mais leve. Comecei avisar “Vai gastando o pouco que vocês tem aqui e não sobrará nada na Graciosa”. Dito e feito, quando começou a descida de verdade ninguém mais tinha freios, o único que não teve problemas foi justamente o Wagneta e justamente o que melhor sabia se virar sem freio.

Começamos a descida a quase 1000 metros de altitude. Agora o problema era o frio, já que durante a descida, ninguém pedala para esquentar o corpo, congelando os despreparados, aqueles que deixaram a capa em casa, mas não esqueceram de trazer a U-lock. Mesmo assim TODOS conseguiram descer sem maiores problemas.

Vim fechando o bonde com o Fernando que havia furado seu pneu pela terceira vez. E bem no final dos paralelepípedos, encontro os 3 fixeiros, o Haase, a Larissa Fiona (explico daqui a pouco) e Wagneta, comendo um suculento pastel. Tive que tirar uma foto deles para mostrar pros fixeiros de Curitiba que esses caras não são nada fracos… Aliás, segundo eles, NINGUÉM, havia descido a Graciosa de Fixa e muito menos debaixo de chuva, portanto mais um desafio vencido pelos fixeiros de Sampa (se alguém já realizou tal proeza, mande aqui que eu publico)

Infelizmente a essa altura meu celular estava pifando e esse foi meu último registro fotográfico da viagem. O dia que alguma empresa inventar um Celular com Android, GPS, Camera Fotográfica e a prova d’água, serei o primeiro a comprar. Faltavam ainda 16 kms até Morretes, onde começamos a ultima parte da viagem. Trecho totalmente plano, que segue beirando um rio maravilhoso. Estávamos em cinco, eu o Gallo e 3 fixas, girando a uma média superior de 30 km/h. Com certeza iríamos vencer o trecho final em menos de meia hora caso não ocorresse mais nenhum problema…

Foto Uirá - DF

Boca santa, faltando menos de 5 km, quando já dava até para avistar a Igreja que fica na entrada da cidade de Morretes, encontramos mais uma vez o Fernando, novamente com um rombo na câmara. Para não perder mais tempo, começou uma operação de guerra. Primeiro tentamos colocar o Fernando no banco debaixo da bike do Gallo com o quadro. Quase que ocorre um desastre.

Foi quando a nossa amiga ogra, a Larissa Fiona, pede o quadro e tenta fazer um esquema para carregar nas costas, junto com sua mala. Não deu certo, então tentei colocar a bike no meu caixote e não deu certo também. Não contente, ela tirou as rodas da bike, colocou o quadro atravessado no seu peito e pedalou os 5 kms restantes daquele jeito. Eu levei as duas rodas no caixote e o Gallo levou o Fernando no banco inferior da sua bike.

Meu celular já havia ido para o espaço e não sei como ninguém tirou uma foto dessa bizarra situação. Pena pois seria uma imagem surreal da nossa chegada triunfal em Morretes, seguindo a risca nosso lema de que ninguém fica pra trás.

Essa é minha 3ª edição do Bonde que participo e consultando a lista de participantes, apenas eu e o Haase fizemos as 3 edições. Ele comentou algo sobre isso e vou na mesma linha. Apesar de cada edição ter sua peculiaridade, de todas essa teve um sabor muito especial. O clima entre os participantes também foi muito astral, muita união, comprometimento (estou parecendo o Dunga), caras novas, novos amigos, uma maravilhosa recepção por parte dos Curitibas e pra fechar esse desafio final na Graciosa, onde fiz com que muitos concordassem com o meu lema de “Quanto pior melhor”.

Ano que vem teremos outro Bonde para Curitiba, adoraria ir de passageiro, mas curto tanto essa coisa da organização, de poder proporcionar uma viagem maravilhosa as pessoas, que dificilmente irei cumprir minha promessa. De qualquer maneira, Curitiba já está consolidado e creio que está na hora de começarmos a expandir nossas fronteiras. Tá pintando aí um Bonde do Cerrado e se tudo der certo, ainda esse ano. Que vocês acham? Vamos começar já a fazer a lista desse bonde? Hehe…

Só digo uma coisa, o Gallo não é a Chantal, mas vai voando…

Mais Relatos, Fotos e Videos:

Outras vias – Parte 1
Outras vias – Parte 2
Uirá – DF
Golla
Shadow

Suas fotos e videos do Bonde não estão aqui? Demorô, compartilhe com a galera, jogue nos comentários que eu incluo aqui.

4 thoughts on “Bonde Curitiba – O extenso relato…

  1. Flavia Ieneck

    Salve, bicicleteiro! Eu estive na bicicletada de Curitiba (moro aqui) a convite do Guilherme, de Santos, meu amigo de longa data. Curti pra caramba o evento e em breve, com um pouco de grana, pretendo me juntar a turma que faz da bike sim seu meio de transporte, alem do lazer (fui com a bike da prima).
    So pra comentar, o cruzamento a que voce se referiu em curitiba, onde foi feita a mandala, eh das marechais: Mal. Deodoro com Mal. Floriano.

    Prazer, e at’e mais!

  2. Pingback: Bonde para Curitiba – Descida da Graciosa « Outras Vias

  3. Valdson

    “aqueles que deixaram a capa em casa, mas não esqueceram de trazer a U-lock”

    Hahahahaha
    Não sei quem fui…

    E teve gente avisando um motorizado com sua máquina enguiçada que o cara da bicicleta alta que vinha logo atrás tinha a ferramenta que ele precisava, o que rendeu ao Gallo, bom coração, uma meia hora de espera debaixo de chuva e frio enquanto o motorizado tentava consertar sua F-1000.

    A viagem foi show, o relato está ótimo! Valeu!

    1. bicicreteiro

      Que seria dos motoristas se não existissem ciclistas de boa vontade? Mas o melhor é fazer caridade com os braços dos outros… hehe. Mas sabia que o Gallo jamais deixaria qualquer pessoa na mão, até mesmo um motorista.

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