Efeito borboleta

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Para quem não conhece esse provérbio, dizem que uma batida de asa de uma borboleta na África pode causar um tufão na China. Mas a mensagem que esse provérbio quer passar é que todo o planeta é um sistema interligado e é extremamente necessário que nós ponderemos sobre os efeitos cascatas de nossas atitudes.

Não posso parar na frente de uma TV e lá vejo enchentes em São Paulo, deslizamentos no Rio, mortes e mais mortes. Mas será que estou vendo aqui algo que está influenciando nessas tragédias que ocorrem no país?

Com certeza, as inúmeras queimadas que aqui ocorreram jogaram muito CO2 na atmosfera, aumentando a temperatura média de toda a região. Aqui já é quente demais, chuveiro elétrico é algo desnecessário e ar condicionado é item indispensável.

As árvores ajudam a controlar o clima local, lembro que durante a derrubada das árvores da Marginal Tietê, alguém apresentou um estudo mostrando que 40% da água das chuvas na Floresta Amazônica nem chegam ao solo, ficam nas folhas das árvores e evaporam ali mesmo. Fácil comprovar, canso de parar sob árvores para encapar minha bike quando começa a chover e dificilmente eu me molho. Na foto abaixo vemos de um lado Floresta ainda intacta e do outro lado ela virando Cerrado.

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As matas mais densas reduzem a temperatura local. Também fácil constatar, como disse em São Paulo, quando saía de um canavial e entrava numa área preservada de floresta, a temperatura caía uns 5 graus. O mesmo ocorre aqui quando passo por uma plantação de soja ou uma fazenda de gado e entro numa região de floresta preservada.

Hoje as chuvas estão mais intensas no Brasil inteiro, a diferença é que aqui esse aumento não trouxe tantos problemas, pelo contrário, chega a ser bom para a agricultura.

A região amazônica é muito parecida com o Pantanal, a diferença é que o Pantanal é bem menor e não tem montanhas como na Amazônia. Outra particularidade são as cheias, tanto aqui como lá, em épocas chuvosas como agora, várias áreas que ficam secas durante o ano inteiro se enchem de água. No pantanal são os lagos e vazantes e na amazônia são os brejos ou banhados.

Não se pode fazer nenhuma obra aqui sem respeitar essa particularidade. Mas porque essa regra não é levada em conta em todas as cidades que possuem rios, como São Paulo por exemplo. A cidade foi construída as margens dos Rios Tietê e Pinheiros que funcionavam como várzeas alagando temporariamente em épocas de chuva, mas lá foram cometidas cagadas (desculpe o termo) uma atrás da outra.

Primeiro um ser inteligente retificou os rios Tietê e Pinheiros pensando no futuro, para eles servirem de grandes avenidas expressas. Obviamente que a sinuosidade do rio ajudava a reter as águas da chuva diminuindo os alagamentos.

Depois dessa obra de retificação, pra piorar, construiram mais e mais vias reduzindo a área permeabilizada no entorno do rio e o resultado são enchentes e mais enchentes.

Deslizamentos são normais, ocorrem em todo lugar que há montanhas, até aqui na Amazônia. Ocorre que aqui a densidade demográfica é pequena e dificilmente iremos encontrar pessoas morando nessas áreas. Veja essa foto que tirei aqui de um morro na Amazônia, a falha na vegetação da encosta é sinal de um deslizamento.

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Lembram-se das tragédias em Santa Catarina? Quando estivemos lá em setembro do ano passado vimos o tamanho da tragédia. Lá ocorreram centenas de deslizamentos, a maioria não matou ninguém. Posso afirmar que em Santa Catarina foi muito pior que no Rio de Janeiro, a diferença é que a população de lá esta anos luz mais preparada que o resto do país.

Mas o que fazer?

De imediato só rezar, pois hoje estamos colhendo tudo que plantamos nas últimas 3 décadas. Depois tentar recuperar a floresta queimada, mas para isso seria necessária uma forte intervenção dos governos em todos os níveis e intervir em TODAS as fazendas que praticaram (e ainda praticam) queimadas.

Não adianta ficarmos plantando árvores na casa do chapéu, elas tem que ser plantadas aqui. Também não adianta fazer lei para beneficiar o fazendeiro “anistiando” quem acabou com a reserva legal ou deixando ele compensar plantando árvores em Parques fora da sua região. A lei atual, se fizermos os barões do agronegócio cumpri-las a risca, não precisa de alteração.

A lei tem que ser para todos, os fazendeiros conhecem a lei e a obrigação deles é cumpri-las, como qualquer cidadão.

De nada adianta a gente ficar comprando gasolina em um posto que “planta árvores” enquanto milhares de hectares são queimados. Temos que diminuir o uso dos carros e lutar para mudar a matriz energética, pois eles não podem mais depender da gasolina. Muito menos do álcool, pois como já mostrei nessa viagem, de combustível ecológico ele não tem nada.

E também, fundamental levar a informação até esse povo da floresta. Quem realmente vive e trabalha aqui, na sua maioria são pessoas de bem e querem apenas fazer o que é certo, ocorre que eles não sabem como fazer e simplesmente vão se virando.

Lixo é queimado, conceito de reciclagem não existe no Brasil e só com intervenção do estado para a coisa se massificar, deixar só nas mãos de ongs é apagar incêndio com xixi.

Tem muita coisa errada, é preciso darmos um “cavalo de pau” e mudar a direção. E sermos persistentes pois as mudanças serão lentas mas é preciso começar pois quando ganharem consistência, os resultados irão aparecer.

Nada será fácil, ainda vamos sofrer por anos graças aos erros do passado, mas se começarmos agir agora, sem se preocupar com o imediatismo, pode ser que daqui a 30 anos consigamos dar um fim nessas tragédias. Mas será que seremos tão inteligentes e altruistas? Não sei.

2 thoughts on “Efeito borboleta

  1. Paulo Fernando G Teixeira

    André, infelizmente é esse o retrato do planeta que estamos deixando p/ as próximas gerções. Outra coisa, desconfio dessas ações de plantarem tantas árvores para compensar as derrubadas. Nem sei se os números divulgados correspondem a verdade. e dessas plantadas quantas vingam. Vide a nossa Marginal. Abraço

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