Hora de desmontar a árvore de 2013

Tá, não tem muito a ver com árvore de natal, mas achei a foto tirada pelo meu filho tão psicodélica que até dá para imaginar algo nessa linha.

Tá, não tem muito a ver com árvore de natal, mas achei a foto tirada pelo meu filho tão psicodélica que até dá para imaginar algo nessa linha. Sobre o que é, nada mais do que uma dessas turbinas natalinas vendidas por camelôs instalada no meu capacete. Foto tirada pelo meu filho da cadeirinha da bicicleta em movimento.

Desde 2010 o Natal ganhou outro significado para mim. Até então ficava apenas naquele discurso vazio de que não passava de uma data comercial promovida pelas grandes corporações, blá, blá, blá. Claro que o Natal é fortemente influenciado pelo capitalismo selvagem, mas o que mais me incomodava é que achava um absurdo as pessoas serem “boas” no Natal e carrascas com os demais no resto do ano, por causa disso era um desses malas insuportáveis que tanto metem o pau no Natal. Mas depois que passei meu primeiro Natal sozinho em plena Chapada dos Guimarães, minha relação com essa data mudou drasticamente. Aliás, minha forma de ver o mundo nunca mais foi a mesma.

Para quem começou a acompanhar meu blog recentemente, passei o Natal de 2010 no meio da minha viagem do Projeto Biomas, viajem essa que resolvi fazer depois de uma dolorosa separação de um relacionamento de 12 anos e na época com um filho de 4 anos. Ali nasceu uma maldição que me perseguia até o Natal desse ano.

Particularmente naquele Natal, o que mais me trouxe sofrimento foi a imensa falta que meu filho me fez e posso encher a boca para dizer que se hoje estou vivo se deve exclusivamente a ele e só sobrevivi pois sabia que um dia conseguiria quebrar essa maldição.

No Natal de 2011 já havia superado a separação, mas não tinha resolvido o problema da distância do meu filho e justamente no Natal daquele ano que se iniciou um forte processo por parte de algumas pessoas para tentar me afastar do meu filho, algo realizado com êxito. Naquele ano o combinado é que eu sairia de casa, passaria na casa do meu filho para entregar seu presente e depois iria para a casa da minha mãe passar o natal com minha família. Mas depois que entreguei o presente do meu filho fiquei tão mal que só tive forças para voltar para casa, desligar o celular e dormir.

O Natal de 2012 sequer consigo lembrar detalhes de como foi, seja lá o que aconteceu, está bloqueado em minha mente. Só me lembro que no mês de dezembro daquele ano consegui, na justiça, vencer uma sórdida manobra jurídica que me afastou do meu filho por praticamente um ano. Já o desse ano poderia ser tanto um desastre como mágico, falarei sobre ele mais adiante, porque antes quero fazer um resumo de 2013.

Eita aninho conturbado esse, mas mesmo assim vocês nunca verão eu dizer que quero esquecer tal ano, pois apesar de ter ocorrido algumas coisas ruins dizer que quero esquecê-lo seria uma ofensa a algumas pessoas maravilhosas, tanto que surgiram em minha vida, como aquelas que já existiam e que foram (e serão) fundamentais para mim até o final dos meus dias.

Do lado profissional, que se confunde com minha causa, o de colocar o maior número que conseguir de bicicletas na rua, foi um ano empolgante. Já começou com o 3º Desafio Bicicletas ao Mar, sem dúvida o evento mais ousado que organizei até hoje, bem mais ousado que a primeira edição da Rota Márcia Prado quando levamos mil ciclistas, por ela, até Santos em 2009.

Tive que rebolar literalmente depois da tragédia que ocorreu na Serra do Mar quando as fortes chuvas de fevereiro, que vitimou uma pessoa, arruinou algumas vilas e interditou a Estrada de Manutenção da Imigrantes por 2 meses. Isso me obrigou a montar uma verdadeira operação de guerra para realizar a descida final do 3º DBM pela Serra de Ubatuba para 120 ciclistas e ainda realizar uma descida extra pela Rota para outros 150 ciclistas assim que ela foi reaberta em maio do mesmo ano.

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Logo depois disso minha vida pessoal passou por outro período de forte turbulência onde mais uma vez a experiência me ajudou. Um amigo que acompanhou de perto minha traumática separação em 2010, assim que soube da novidade me chamou para sair e estranhou ao ver que não estava tão mal como antes, como resposta ouviu – “Já conheço os sintomas e como já sei como irei ficar daqui a um tempo, então porque não tentar antecipar o futuro?”

A vida se seguiu, novas pessoas apareceram em minha vida, novos desafios surgiram e nada como mais um mega-evento para saciar a sede desse megalomaníaco que vos escreve. Em setembro de 2013 realizamos uma Campanha para a Marítima Seguros em celebração do Dia Mundial sem Carro, foram dois passeios de bicicleta, um em São Paulo e outro no Rio, ambos passeios temáticos contando um pouco da história dos trilhos em nossas cidades. Abaixo um vídeo contando um pouco mais sobre o evento, vale a pena conferir.

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Outro desafio importante foi a criação do Ciclocine, um protótipo que tem como objetivo gerar energia através das pedaladas para a apresentação de um Cinema ao ar livre. A experiência foi fantástica apesar dos contratempos que surgiram, hoje contamos com um excelente protótipo que estamos trabalhando numa versão 2.0 e logo estará realizando sessões públicas por aí.

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Pra encerrar o ano, mais um projeto megalomaníaco, a segunda edição da Campanha Bicicletas de Natal. Quando criamos a campanha Campanha em 2012, tínhamos a intenção de atender as comunidades no entorno da Rota Márcia Prado, rota que vem sofrendo tanto pela dificuldade imposta pela Ecovias, bem como devido a uma série de assaltos que vem ocorrendo em seu percurso.

Contrariando a infeliz lógica que toma conta da maioria das pessoas que conheço, de que insegurança você só resolve cobrando soluções da instituição que mais gera insegurança nesse país (a Polícia em geral), resolvi que iria atuar em outra frente. Como sei que bandidos existem na mesma proporção da população, tanto em bairros como o Brooklin como no Capão Redondo, acredito que ao nos aproximarmos dessas comunidades onde ocorrem os assaltos, se estreitarmos o relacionamento com as pessoas do bem que lá vivem, fazendo com que eles também sinta-se parte da Rota, a própria comunidade seria responsável por inibir os assaltos.

Ainda bem que como eu, existe uma minoria de utópicos que também acreditam nesse tipo de alternativa, que apesar de mais difícil, com certeza é a mais efetiva. Com isso formamos um coletivo entre os participantes do Desafio Bicicletas ao Mar (DBM) e lançamos em 2012 a 1º Campanha Bicicletas de Natal.

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Essa Campanha de 2012 acabou sendo responsável pela criação da Ong Os Bicicreteiros, pois ali vimos a possibilidade de transformar uma campanha esporádica em algo mais concreto e permanente. Apesar da alegria que fizemos a tantas crianças e de muitos acharem que a campanha por si só já era suficiente, sempre considerei um equívoco nos concentrarmos apenas em doar as bicicletas por isso fiz o possível para que a Campanha Bicicletas de Natal fosse um pontapé inicial para um projeto permanente onde além de doarmos bicicletas, levássemos também toda uma cultura, informação e principalmente ajuda para que essas bikes não trocassem a poeira das garagens dos prédios pela ferrugem e o abandono em algum canto de uma casa mais simples.

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O ano se passou, mais uma vez repetimos a parceria com a CPTM e lançamos a campanha de 2013, tínhamos a expertise do ano passado e resolvemos ousar. Aliás eu ousei, pois quando disse na primeira reunião que minha meta eram 500 bicicletas, ninguém que eu me lembre me apoiou ou sequer acreditou que seríamos capaz de algo tão grandioso. E essa desconfiança coletiva, associada com um início desanimador (comparado com o ano passado), quando conseguimos apenas 8 doações, nem preciso dizer que acabou abalando a confiança da maioria dos voluntários da campanha.

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Tivemos que mudar o rumo do barco no meio da tempestade e com a maré contra, diferente do ano passado quando recebemos 100 bicicletas num único final de semana e tivemos uns 20 dias para reforma-las, nesse ano resolvemos estender as doações até dia 15 de dezembro, uma semana antes da entrega das bicicletas. Ao invés de desmontar TODAS as bicicletas, apenas nos concentramos em realizar os consertos necessários para torná-las seguras e pedaláveis além de limpá-las.

 

Apesar de todos os contratempos e de quase transformarmos os bastidores da Campanha num verdadeiro UFC, a repercussão dessa campanha foi imensa, graças a uma excelente matéria na Folha de São Paulo no final de novembro, conseguimos chamar atenção de vários outros canais de mídia que só alavancaram o número de doações, tudo isso culminando numa matéria no Mais Você antes da última semana. Até aquela matéria, havíamos recebido 96 bicicletas em 6 finais de semana e após recebemos 251 bicicletas no último final de semana sendo que pelo menos 80% dos doadores vieram por causa do programa.

Conseguimos atender duas comunidades na baixada santista e doamos cerca de 230 bicicletas das mais de 350 que recebemos e mesmo assim foi pouco. E devido ao sucesso dessa campanha, conseguimos prorrogar a cessão do espaço na estação Pinheiros até julho de 2014 e transformar a campanha num Projeto com nome inicial de “Bike Viva”, pois a ideia do projeto é dar vida as bicicletas abandonadas que vemos espalhadas pelas garagens de nossas casas e prédios. Se tudo correr bem, no início de fevereiro de 2014 voltaremos a passarela para trabalharmos nesse projeto.

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Mas e o Natal, será que seria tão melancólico como dos anos anteriores? Que nada, foi nada menos que um dos mais perfeitos da minha vida (faltou muito pouco para ser perfeito). Sugeri ao meu bebê um Natal diferente, nada de ficar em casa abrindo um monte de presentes, dessa vez seria só nós pois era meu primeiro natal com ele depois 4 anos. As 22h00 do dia 24 de dezembro de 2013, coloquei meu filho na cadeirinha da minha bicicleta e lá fomos para a rua ver as decorações natalinas.

Saímos da minha casa na zona sul e realizamos uma primeira parada na Rua Normandia onde fiquei um pouco desanimado com a modesta decoração. Nada de neve artificial, muitas luzes, apenas algumas poucas lojas iluminadas pra minha curta decepção.

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Seguimos rumo ao Ibirapuera e lá chegando me espantei com a quantidade de carros estacionados e de pessoas na calçada observando o show que a fonte do lago apresentava aos seus visitantes.

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Subimos então para a Paulista, fui via Manoel da Nóbrega para testar a resistência desse quase quarentão só para constatar que tá complicado carregar os quase 30 quilos do meu rebento na garupa. Nosso próximo natal, que será em 2015, se ele quiser passar novamente pedalando, dessa vez ele terá que ir na sua bicicleta pois o papai aqui já deu início ao processo de “ladeira abaixo”.

Cruzamos a Paulista e mais uma vez confesso que esperava mais das decorações natalinas, embora a decepção ia embora ao ver que meu amor estava adorando tudo aquilo e não via a hora de pararmos para realizar nossa ceia e qual o melhor lugar da Paulista para realizarmos senão a Praça do Ciclista?

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Veja aqui o álbum com as fotos do Natal com meu Bicicreteiro Mirim

Sinceramente não tenho do que reclamar de 2013, apesar dos momentos conturbados teve um saldo super positivo em todos os sentidos, seja na vida profissional como na pessoal, o que só me traz grandes perspectivas para 2014.

Tenho alguns objetivos bastante claros, vou finalizar o treinamento para os motoristas de ônibus e leva-los para o máximo de cidades que eu conseguir. Quero também me dedicar muito para que a Rota Márcia Prado se torne realmente oficial e que nunca tenhamos que ficar refém da boa vontade da Ecovias ou de quem quer entidade que seja. Tenho planos bem traçados e se tudo correr bem novidades irão surgir ainda nesse semestre.

E o DBM (Desafio Bicicletas ao Mar)? Muitos planos também, o de realizar o maior de todos até então e também o de exportar a fórmula para outras cidades. Tem também o projeto “Bike Viva” que irá se solidificar esse ano e servir como base para outra mega campanha Bicicletas de Natal em 2014, mas dessa vez também atingindo outras cidades brasileiras.

Não posso esquecer da continuidade do Projeto Biomas, no momento estou trabalhando no protótipo de uma super bicicleta, (com cubo interno Rohloff) que será um verdadeiro laboratório móvel onde irei realizar vários experimentos de geração de energia limpa. Assim que terminar o projeto da bicicleta começo a planejar as viagens que pretendo realizar, uma por cada um dos biomas brasileiros.

E de onde vem a força para tantos objetivos? Hoje vem apenas dos meus amores, duas pessoas mais que especiais que surgiram em minha vida e que só me motivam a realizar cada vez mais coisas para que eles tenham muito orgulho de mim. E apesar deles já estarem ao meu lado e me apoiarem em todos os meus desafios, sei que não demorará para eles também serem parte dessas minhas aventuras sobre duas rodas, existe motivação maior do que essa?

amores

Por isso que só consigo desejar um ano repleto de felicidade, mas não posso deixar de contar com a ajuda de vocês, pois se repararem, em nenhum desses meus projetos serei o único beneficiado, portanto não é justo que eu faça tudo sozinho, até porque sei que isso será impossível. Está feito o convite, se vocês como eu, também se movem pela mesma causa, vamos juntos fazer com que todas essas perspectivas façam parte da retrospectiva ao final desse ano, pois temos tudo ao nosso favor para mais uma vez fazermos história, portanto bora fazer o pedal girar.

André Pasqualini

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