São Paulo (hoje) é uma das melhores cidades do Brasil para se pedalar

PedalarSaopaulo

Desde o início de janeiro estava trabalhando no Nordeste brasileiro, mais especificamente em Recife e Maceió, nessas duas cidades eu levei aquele meu treinamento para os motoristas de ônibus evitarem acidentes com ciclistas (falarei sobre os treinamentos no próximo post). Retornei a São Paulo segunda passada e mais uma vez (isso sempre ocorre quando retorno das minhas cicloviagens) percebi que apesar de estarmos muito longe de sermos uma Amsterdã, definitivamente São Paulo é uma das melhores cidades brasileiras (que eu conheço) para se pedalar, principalmente quando nos referimos apenas as capitais.

Digo isso com base na minha experiência, nem sei mais em quantas cidades já pedalei pelo Brasil, um dia até farei uma contagem mais detalhada, mas só durante o Projeto Biomas devo ter passado por umas 200 ao menos. Agora falando só de capitais, já são 10 no meu currículo, Poa, Curitiba, São Paulo (obviamente), Campo Grande, Cuiabá, Palmas, Brasília, Rio de Janeiro, Recife e Maceió. Em todas devo ter pedalado, ao menos uns 100 quilômetros e isso me dá subsídios suficientes para realizar minha avaliação.

Cada cidade tem suas particularidades, algumas tem mais infraestrutura cicloviária, outras muito precárias ou ausentes, mas em nenhuma dessas outras me senti tão seguro como em São Paulo. Já que tanto o relevo como o clima são fatores que em nada me incomodam, minha avaliação se refere apenas em relação a segurança no trânsito ou o risco que eu tenho de ser atropelado por um motorista imbecil e nesse quesito, por mais que ainda tenhamos muito a fazer, São Paulo é disparada a cidade que tem os motoristas mais cuidadosos em relação aos ciclistas de todas que já pedalei.

Mas você paulista deve dizer – “Cacete! Se São Paulo é a melhor, nem me fale qual é a pior!” – Sim, isso é realmente preocupante pois em cada lugar que eu passo acabo fazendo novos amigos ciclistas e fico com medo deles se tornarem uma nova Márcia Prado em minha vida.

Cada cidade brasileira que eu passei tem suas particularidades, mas na maioria delas há um forte desmando por parte do poder público em relação ao controle da velocidade dos carros e qualquer ciclista (nem precisa ser especialista em segurança de trânsito) sabe que quanto maior a velocidade dos carros, maior o número de acidentes, principalmente fatais.

Apesar de nós Paulistas termos dificuldades de sentir essa melhora, basta umas pedaladas em outras capitais ou até mesmo uma análise dos números para sentirmos que aqui está realmente mais seguro de se pedalar. Abaixo uma tabela que tirei do site Mapa da Violência, desse belo estudo separei apenas a tabela que mostra a quantidade de mortes no trânsito para 100 mil habitantes e veja a colocação de São Paulo.

mapa2013_transito

Claro que em São Paulo, em números totais, nos colocam em primeiro lugar, com base nos números de 2011 (1471) temos quase o dobro do segundo colocado, o Rio de Janeiro, mas quando calculamos os acidentes para cada 100 mil habitantes, despencamos para o 25º lugar. Olha que o número de 2012 foi menor ainda, caiu para 1188 e se os números não mudaram nas outras cidades, hoje nosso número seria de 10,06, o que nos tornaria a capital mais segura do Brasil.

Ainda estamos longe dos índices de uma Holanda (3,9), mas abaixo dos números totais dos EUA (11,4) e bem abaixo dos 28,2 de Maceió e principalmente dos 38,2 de Recife, aliás em breve escreverei quais foram as minhas sensações ao pedalar nessas cidades.

E qual a conclusão que consigo tirar de tudo isso? De que apesar de longe do ideal, é bom saber que estamos no caminho certo muito disso se deve porque os ciclistas daqui se mobilizam para evitar desmandos por parte do poder público. De forma prática, podemos comparar as obras da Ciclovia da Marginal Pinheiros com uma obra de reforma de uma ciclovia em Ipojuca, cidade famosa pela sua mundialmente conhecida praia de Porto de Galinhas. Enquanto aqui fizemos um fuzuê quando tentaram interditar a ciclovia, os obrigando até a disponibilizar uma Van para levarem os ciclistas durante as obras, em Ipojuca, para reformar uma ciclovia eles simplesmente destruíram jogando o ciclista para a rodovia durante as obras, isso porque o ciclista de lá não conseguiu se mobilizar para cobrar uma alternativa segura durante as obras.

cicloviaDetonada

Em São Paulo, apesar de termos uma infraestrutura cicloviária ridícula, ao menos o trânsito está menos selvagem a cada dia, muito disso também se deve a sociedade local que está cada vez mais intolerante aos maníacos ao volante. Tomara que isso também sirva para inspirar outras cidades, como ocorreu com nossas faixas exclusivas de ônibus exportadas para essas duas cidades que passei.

Confesso que fiquei com uma saudade enorme de pedalar nessa cidade quando lá em Recife me vi discutindo com alguns “motoristas estagiários de assassinos”, nesse momento lembrei que já havia um bom tempo que eu não tinha uma discussão parecida com um motorista nas minhas pedaladas por São Paulo e como é muito mais gostoso pedalar sem o medo que senti nesses últimos meses.

Como projeto para o futuro, pretendo montar um equipamento para instalarmos nas bicicletas e medir quais as cidades mais seguras para se pedalar, como isso funcionará ainda não sei, mas penso em bolar algo que meça tanto a velocidade com que somos ultrapassados, a distância e até mesmo as buzinadas. Recifenses, vocês não imaginam como é bom atravessar a cidade e não ouvir uma buzinada sequer (de motoqueiro não conta).

O ano de 2014 começou muito bem, já estou preparando diversos posts para publicar aqui no Bicicreteiro, tem um sobre o treinamento dos motoristas de ônibus que a galera irá se surpreender, falarei sobre minhas pedaladas no Nordeste que não se resumiram apenas a tensões, pois ocorreram vários momentos mágicos e lugares únicos, até um post sobre um casamento pra lá de original irei publicar em breve.

É isso, saudades da minha terrinha, agora vou curtir esse momento de namoro até encher o saco e querer cair na estrada novamente, só para poder sentir saudades mais adiante e assim vamos levando a vida.

André Pasqualini

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