A trilha do Telégrafo – Hora de encarar a temível trilha

Extremo da trilha, onde há um poste do telégrafo, colocado em 1860, que dá nome a trilha

Extremo da trilha, onde há um poste do telégrafo, colocado em 1860, que dá nome a trilha

A trilha do Telégrafo tem exatos 5,5 km, começa a aproximadamente 2 km da vila de Batuva, ainda no Paraná e com menos de 300 metros de trilha já está em São Paulo. Podemos dizer que ela tem dois trechos, o primeiro (sentido PR-SP) é uma trilha comum, com subidas, descidas e alguns rios. As subidas são bem difíceis de pedalar, mesmo com bicicleta MTB e praticamente impossível de subir com peso, já as descidas, com um pouco de perícia dá pra descer. Esse primeiro trecho é curto, deve ter 1,3 km.

Detalhe da trilha do Telégrafo

Detalhe da trilha do Telégrafo

Já o segundo trecho é plano, gramado e deveria ser fácil, o problema é que embaixo da grama tem daquelas lamas escuras, que em época de chuvas vira um charco, quase um pântano, esse trecho tem 4,2 km. Em época de seca, como a que passamos, você não perderá muito tempo, levamos 3 horas e ainda fomos bem devagar, fizemos muitas fotos e vídeos, um ciclista experiente não perderia mais que uma hora nesse pedal.

O problema é que ali também passam muitos jipeiros e motoqueiros que DESTROEM a trilha. Se fosse uma época de chuva então você teria que passar a trilha inteira com a bicicleta (e bagagens) nas costas. O Jefferson, que nos deu pouso em Salto Morato, havia percorrido essa trilha um mês antes de nós, de madrugada, depois de uns dias de chuva e levou quase seis horas pra percorrer a trilha, com direito até a encontro com uma onça parda.

O primeiro trecho já está destruído pelos jipeiros, mas não tem atoleiros, agora o segundo trecho… Pra piorar, há várias famílias que vivem ao lado da trilha e ela é o único acesso tanto a Vila Taquari em São Paulo, como a Batuva no Paraná. Os pedestres até tentam criar uma trilha paralela de forma que fique inacessível aos jipeiros, ela até seria uma boa opção para os ciclistas, mas os motoqueiros se enfiam na trilha e acabam com ela também.

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Ou seja, se você jipeiro, que chegou até aqui buscando informações sobre a trilha, saiba que vocês fazem um mal danado aos moradores, sem falar no impacto ambiental que vocês causam aos rios da região. Os moradores de lá NÃO GOSTAM NEM UM POUCO DE JIPEIROS E MOTOQUEIROS! Isso se deve as suas atitudes, pois depois da desgraceira que deixam a trilha, vocês vão embora felizes deixando pra trás ruas intransponíveis e pinguelas destruídas.

Até onde apurei, Jipes são proibidos na trilha e motos só em número controlado, pois há encontros que reúnem mais de 200 motoqueiros numa única passagem, ou seja, eles também destroem a trilha até mais que os Jipes. Portanto se você é uma pessoa consciente, NÃO PERCORRA A TRILHA. Faça de bicicleta, ou até mesmo a pé, mas não destrua ela mais do que já está destruída.

Desabafo realizado, vamos ao post do dia, saímos por volta das 11h00 de Batuva, passamos na única vendinha da vila e compramos uns pães de mel, caso precisássemos de um açúcar no meio da trilha. De Batuva até o final da trilha seriam uns 7 km, depois mais 3 até a vila do Taquari e mais 4 até a estrada onde deveríamos escolher se pedalaríamos até Cananeia (mais 45km) ou Ariri (mais 25). Como já imaginava que nosso ritmo seria lento, Ariri seria nosso “Plano A” naquele dia.

No acesso a trilha, o nível de dificuldade é quase zero

No acesso a trilha, o nível de dificuldade é quase zero

O começo parece uma estrada normal, com algumas subidas até acabar em frente a um sítio, mas o GPS mandava pegar uma trilha do lado direito, trilha mesmo, ficava imaginando como um carro passaria por ali. Eu sempre cobrava da minha mulher evitar ao máximo empurrar, mas ali não teve jeito, também tive que apelar para o “push-bike” nas subidas.

Subindo usando a técnica do "push-bike"

Subindo usando a técnica do “push-bike”

Estávamos no trecho que a trilha é trilha mesmo, sobe, desce, barro vermelho, rios cruzando a trilha e muito verde em volta, pra quem gosta (como eu) é um paraíso. Nas descidas ia sobre a bike, com tanto peso atrás não corria o risco de travar a dianteira e capotar, foi na habilidade mesmo. São duas subidas mais fortes no começo que não tem como pedalar, a partir de então dá pra fazer tudo no pedal. Vale lembrar que nessa região é que deveria passar a BR-101, de certa forma é até bom que ela não saiu do papel, do contrário toda aquela maravilha estaria destruída.

Uma das partes mais gostosas da trilha

Uma das partes mais gostosas da trilha

Tentava encorajar minha mulher a pedalar, realmente é preciso um pouco de técnica, mas ela já sofreu alguns tombos e sei o quanto é difícil retomar a confiança. Sempre digo que o medo é bom, desde que ele não te trave, pois isso sim pode te colocar em risco. No começo há vários rios que são deliciosos para atravessar, mas ela estava com medo de molhar o sapato… Mal sabia o que nos esperava adiante.

Analisando o melhor caminho a seguir

Analisando o melhor caminho a seguir

Num dos córregos a forcei cruzar pedalando, queria tirar uma daquelas fotos clássicas do ciclista jogando água para os lados. Ela foi até o rio, estudou a melhor rota, subiu na bike e se arriscou, mas no meio da travessia tacou a mão no freio e acabou enfiando o pé na água.

Se todo estudo era para não enfiar o pé na água, não adiantou muito...

Se todo estudo era para não enfiar o pé na água, não adiantou muito…

Então disse, agora você vai passar na marra, fiz ela voltar e fui ao lado segurando a bicicleta. Mesmo comigo ao seu lado, no meio da travessia ela tacou novamente a mão no freio. Então fomos novamente e finalmente ela conseguiu cruzar numa boa, pra alegria minha e principalmente dela. Só com a prática para perceber que as vezes, algumas coisas são muito mais simples que parecem.

Passamos os atoleiros feitos pelos Jipeiros que fazem questão de não deixar nem um espacinho intacto para os pedestres e ciclistas passarem, muitas vezes com a bike nas costas, até que finalmente chegamos no trecho plano, onde haveria aquele atoleiro que disse no começo do texto, mas a lama estava bem seca e conseguimos pedalar tranquilamente.

Trecho plano, lindo e muito bom pra pedalar

Trecho plano, lindo e muito bom pra pedalar

O trajeto é bem bonito, com vários rios, pinguelas, estava fácil de achar a melhor trilha pra pedalar. Nossa sorte que quando está seco, muitos Jipeiros e Motoqueiros evitam a trilha. Mesmo assim a destruição causada pelos jipes está por toda parte. Ali tem muita Mata Atlântica preservada, num dos trechos de lama encontramos algumas “batidas” de onça.

Pegada, provavelmente de uma onça parda

Pegada, provavelmente de uma onça parda

Dava pra ver que eram pegadas pequenas, bem menores das que vi no Pantanal, o que deixava claro ser uma pegada de onça parda. Tem três tipos de felinos que poderíamos encontrar, a Jaguatirica ou o Gato do Mato é pequeno, chega a uns 15 quilos no máximo, é um gatão e não traz risco a nós.

A Onça parda, ou Suçuarana, também chamada de “pardinha”, tem um porte médio, pesam em média 40 quilos e são raros os ataques a humanos. Provavelmente foi uma dessas que o Jefferson encontrou na trilha. Já a onça pintada é bastante rara nessa região, essa sim é pra ter medo pois pesa 60 quilos ou mais e mata facilmente um boi. Em Batuva ficamos sabendo de uma onça pintada que havia sido solta com colar na região, essa onça matou pelo menos uns 20 cachorros dos moradores da vila, então o pessoal foi atrás e matou ela. Agora quem foi o inteligente que soltou ela na região e sequer fez contato com os moradores?

Retornando a trilha, fomos caminhando numa boa, chegamos numa pinguela, pra não atravessar o rio, resolvi tentar atravessar pela estreita pinguela, era feita com dois troncos arredondados lado a lado, lá fui eu tentar passar e adivinhem? Perto do final me desequilibro e levo um capote. A tristeza é que estava filmando com a câmera da bike, mas infelizmente perdi o que gravei pois só quando cheguei em casa percebi que essa câmera vagabunda que comprei, quando acaba a memória, grava sobre o conteúdo antigo. Bem que estranhei que ela nunca avisava que o cartão estava cheio…

Há várias pinguelas na trilha feitas pelos moradores da região.

Há várias pinguelas na trilha feitas pelos moradores da região.

Quando estávamos perto do final da trilha, finalmente encontro um poste do telégrafo original, que foi instalado por volta de 1860, há pelo menos 150 anos. Haviam centenas de postes, mas eles foram arrancados, é assim que tratam nossa história. Fico imaginando, se fôssemos um país sério, nosso governo recuperaria todos os postes originais e ao invés do telégrafo, passaria um cabo de fibra ótica levando internet rápida (e história) por todo seu trajeto, desde o Rio de Janeiro, até o Rio Grande do Sul.

Poste original do antigo Telégrafo instalado há mais de 150 anos, um dos poucos ainda intácto

Poste original do antigo Telégrafo instalado há mais de 150 anos, um dos poucos ainda intacto

Mas infelizmente vivemos no Brasil, um país onde milhões de pessoas chamam artistas de vagabundos, como se o trabalho desses fossem mais dignos que qualquer outra forma de trabalho. Pessoas que soltam fogos quando um governo não eleito pelo povo, acaba com um ministério como o da Cultura, que poderia inclusive aprovar um projeto que recuperasse essa linha e restaurasse sua história. O que esperar de um país onde milhões de pessoas aplaudem um governo que trata com desdém nossa cultura? Portanto o fato da trilha do telégrafo estar abandonada é completamente coerente com o país e a população que temos.

Não demorou e logo chegamos ao final da trilha, onde inclusive há outro poste abandonado, aliás, pelo que entendi, foi justamente esse poste solitário (o da foto do início do post) que deu o nome a trilha. Ali há também uma escola e ao lado dela há outro poste escondido no meio da mata, indicando que a linha do telégrafo não seguia o caminho rumo a vila. Para minha surpresa, quando me aproximei do poste vi uma gravação em auto relevo com a palavra “London”. Vejam só, esses postes de tamanha importância, que cruzaram o oceano, hoje estão largados ao tempo, que tristeza.

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Poste original do Telégrafo, com uma gravação em auto-relevo escrito “London”

Pedalamos até a Vila, mas não encontramos nada aberto, nem uma vendinha, quando demos conta a vila já havia acabado. Mais tarde soubemos que nessa vila também há uma pousada, ela fica ao lado de um campo de futebol, a gente só precisava ter procurado alguém. Aliás em vilas pequenas como essa, se precisar de algo, primeiro você só precisa encontrar uma pessoa e dizer o que precisa. Então essa pessoa vai te dizer quem você precisa e como encontrar essa pessoa. Seguimos adiante já sem nada de água, por sorte mais adiante havia um sítio e uma senhora deu água geladinha pra nós.

Eram 15h50 quando chegamos na estrada que nos levaria, ou para Ariri, ou para Cananeia. Seguimos o plano “A” rumo a Ariri, o caminho mais curto. O caminho é tranquilo, tem muito cascalho, algumas colinas no começo, mas depois dos dez primeiros quilômetros é só plano. Teríamos chegado com luz natural caso não tivesse que arrumar um pneu furado, mesmo assim quando a noite caiu já estávamos na área urbana.

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Ao chegar em Ariri há várias pousadas, tem uma grande que cobra muito caro, 180 reais o casal, com paciência encontramos uma pousada mais simples que cobrava 100 reais o casal com café da manhã. Na pousada soubemos que no dia seguinte, as 13h00, sairia de lá o Barco Valongo da Dersa, rumo a Cananeia, decidimos então que esse trajeto seria feito de barco.

O engraçado é que o pessoal de Ariri, que já está acostumado a ver ciclistas que vinham da Trilha do Telégrafo, ficaram impressionados com minha mulher, pois era comum eles verem ciclistas homens, mas nenhum tinha notícia de haver uma garota. Será que ela foi a primeira mulher a atravessar o Telégrafo pedalando? Não sei, se você conhecer outra mulher comente aí, de qualquer forma, tanto pra ela, como para qualquer outra mulher que tenha percorrido a trilha, foi uma façanha que invejaria muitos marmanjos por aí.

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