A trilha do Telégrafo – Cananéia, uma história do Brasil a parte

Praça central de Cananéia

Praça central de Cananéia

Poderíamos pedalar até Cananéia, seriam pelo menos 70 km em estrada de terra, ou pegar o barco da Dersa que sairia as 13h00. O problema do barco é o preço, para moradores custa 6 reais por pessoa, já para turista o preço é de R$48,00. Poderíamos até ter conseguido uma autorização para pagar preço de morador se tivéssemos procurado a Dersa com antecedência e apresentássemos nosso projeto, como não tínhamos previsto usar o barco no começo da viagem, tivemos que desembolsar quase 100 reais.

A viagem é belíssima e tranquila, você vai curtindo uma natureza e fauna riquíssima, consegui até fotografar um raro Guará, que tem sua cor vermelha devido a um caranguejo da região que ele se alimenta.

Um Guará, ave rara na região.

Um Guará, com um vermelho característico graças a dieta de caranguejo.

São cerca de 3 horas o trajeto de barco e chegamos em Cananéia depois das 16h00, tínhamos decidido dormir numa pousada na cidade para no dia seguinte, ir pedalando pela Ilha Comprida até Iguape, só pela praia. Queria ficar em Cananéia um dia pois adoro essa cidade, passear por ela é uma aula de história ao vivo.

Tem duas histórias fantásticas sobre a cidade, a primeira é sobre o “Caminho Peabiru”, uma trilha que ligava as cidades de Cananéia com a cidade de Cuzco no Peru, já imaginaram? O ramal principal do Peabiru tem duas ramificações, uma parte de São Vicente, litoral de São Paulo e outro de Cananeia, ambos se encontram no planalto, perto do Rio Paraná.

Possível trajeto do Peabiru, trilha de pedestres que ligaria as cidades de Cananéia a Cuzco.

Possível trajeto do Peabiru, trilha de pedestres que ligaria as cidades de Cananéia a Cuzco.

Essa trilha foi percorrida por um alemão de nome “Ulrich Schimidel” no século XVI, tinha cerca de 1,4m de largura com seu percurso coberto por uma gramínea que não deixava com que arbustos ou árvores crescessem no caminho, evitando inclusive erosões. Ninguém sabe quem foi responsável pela abertura do caminho, podem ser os Índios Guaranis ou até mesmo os Incas. Tá aí nosso próximo desafio após o projeto Brasil em Ciclos, percorrer o Peabiru de Cananéia até Cuzco, ou ao menos tentar encontrar vestígios da trilha, anotem.

Outra coisa interessante, vocês já devem ter ouvido falar que o Descobrimento do Brasil em 1500 foi armação, que o Brasil foi descoberto muito antes não é? Cananéia só reforça essa ideia, primeiro porque o limite do “Tratado de Tordesilhas” passava pela cidade, tanto é que na Ilha do Cardoso há uma réplica do marco do Tratado, bem onde um dia foi colocado o original.

Cananéia oficialmente foi fundada em 1531 por Martim Afonso de Souza, mas ao aportar na cidade conheceu o “Bacharel” um senhor com nome de Cosme Fernandes que foi expulso de Portugal e deixado na Praia de Itacuruça (Ilha do Cardoso). Ele vivia na cidade a mais de 30 anos na cidade, como uma espécie de “Prefeito” já em harmonia com os índios. Mas há indícios de que ele foi expulso de Portugal antes de 1500, ou seja, isso só reforça a tese de que o Brasil já havia sido descoberto muito antes dessa data.

Vale a pena a visita ao museu de Cananéia, por 3 reais você tem uma maravilhosa aula de história, com direito a ver de perto, um dos maiores tubarões brancos já capturados no mundo, com 5 metros, que está (toscamente) empalhado no museu.

Tubarão pescado por pescadores da cidade em 1992.

Tubarão pescado por pescadores da cidade em 1992.

No dia seguinte, após a visita ao museu, fomos até a praça esperar a balsa que nos levaria até a Ilha Comprida. Aproveitamos para tirar mais fotos da praça central, principalmente da Igreja, a construção mais antiga da cidade que, segundo o pessoal do museu, tem fundações que marcam de 1500.

Igreja de Cananéia, com fundações que datam de 1500. Uma das construções mais antigas do Brasil.

Igreja de Cananéia, com fundações que datam de 1500. Uma das construções mais antigas do Brasil.

Após atravessar a balsa, pedalamos menos de 4 quilômetros até chegar na praia de Ilha Comprida. A ilha tem cerca de 60 quilômetros de comprimento, contra em média 5 quilômetros de largura, pedalar de um extremo ao outro é uma verdadeira e deliciosa aventura para qualquer ciclista. Já havia percorrido essa praia pelo menos umas 30 vezes e nunca tive problemas com a maré, conseguindo pedalar mesmo em maré alta.

Mas naquele dia não nos atentamos a esse detalhe e tomamos na cabeça. O movimento da maré é normal, a cada 12 horas ela tem seus picos de alta, o ideal é começar a pedalar quando ela estiver vazando, o problema é que as vezes ela começa vazar de madrugada, naquelas semanas seus picos eram as 14h00. Chegamos a praia as 12h20, ou seja, próximo do seu ponto mais alto. O problema é quando estamos tanto em Lua Nova, como Lua Cheia, a maré tem seus picos mais altos e para nosso azar, aquele era o dia máximo de Lua Nova.

Maré nos espremendo na parte fofa da areia.

Maré nos espremendo na parte fofa da areia.

Logo no início fomos jogados para a parte mais fofa, continuamos pedalando inclusive entrando dentro da água, mas não pedalamos nem 5 quilômetros e logo a maré nos pegou. Quando chegou ao seu ponto mais alto ficou impossível de pedalar, ainda mais eu com uma bicicleta tão pesada. Chegamos a levar até banho da maré e não sobrou outra alternativa a não ser voltar pro início da praia, próximo a estrada que nos levaria a Cananeia.

Finalmente estreamos nossa barraca

Finalmente estreamos nossa barraca

Ali na praia até há algumas pousadas, mas dessa vez tínhamos que estrear nossa barraca, melhor situação impossível. Encontramos um camping que cobrou 20 reais por cabeça, bem em frente à praia. Ali armamos nossa barraca e esperamos o dia acabar curtindo um maravilhoso pôr do sol.

Ah, e finalmente estreamos nossa barraca, já era tempo!

André Pasqualini

Para ver todas as fotos da viagem, visite nosso álbum no Facebook e não deixem de curtir nossa página.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *