Motoristas, tenham Piedade de mim – Brasil em Ciclos 

A canja do dia anterior me fez bem, ainda estava meio baleado, mas bem melhor. Estou reclamando muito mas sabia que o começo seria bem pesado, as vezes acho que ainda tenho dez anos e quilos a menos. Os preparativos para a viagem me tomaram muito tempo, então deixei para me condicionar na estrada. Mesmo assim sei que o condicionamento ideal só vira depois de Curitiba.

Ainda não estou totalmente preparado, só tenho malas traseiras e elas estão lotadas, tá fazendo muito frio nessa região e não tenho todas as roupas que p preciso, nem espaço para colocar comida, caso tenha que acampar, eu tenho. Mas no Projeto Biomas também foi assim. Saí mesmo com coisas faltando pois, se esperasse pra sair com tudo pronto, estava em casa até hoje.

Portanto não precisa ficar preocupado com minhas reclamações, aqui tem muito da minha rabugisse que veio junto com a idade. No fundo estou preparado para as dificuldades e sinto até um certo prazer em superá-las. Faz parte da batalha psicológica que tenho (e terei) que travar todos os dias.

Saí por volta das 8h30 do Hotel Ibitur em Ibiúna, seriam 30 km até Piedade, mais 40 km até Pilar do Sul e 30 até São Miguel Arcanjo, trajeto que já havia feito de carro e previa muita dificuldade, pra piorar teria que encarar uma estrada bem movimentada e sem acostamento.

Depois de disparar minha rabugisse no vídeo que está aqui nessa página, segui pela estrada. Vocês sabiam que na cidade de São Paulo, 5% dos veículos são responsáveis por mais de 50% de todas as multas e que 70% dos motoristas não tomaram uma multa sequer no último ano?

Sempre dizia (no chute) que 99% dos motoristas te respeitam, mas 1% de sete milhões é muita gente. Agora posso dizer com mais propriedade que a cada 100 carros que passam por mim, 5 me trarão algum risco, mas porque tenho que ficar a mercê dessa minoria, os mesmos que reclamam da tal”Indústria da Multa”, mas que para mim se chama Indústria da Morte?

Outro dia, enquanto pedalava com meu filho (na época com 10 anos) levamos uma fina de um motorista e comecei a esbravejar – “O pior é que se esse fdp me mata, nada acontece com ele, as vezes nem irá responder na justiça.” – Daí meu filho retrucou – “Se um motorista te matar ele não vai preso papai? – e eu disse que não, então ele perguntou:

– Mas se ele roubar um carro, aí vai preso?

– Ah, se roubar um carro vai preso na hora, porque aqui no Brasil uma propriedade tem mais valor que uma vida – respondi.

Difícil não se revoltar com essa nossa realidade, fico imaginando quantos cicloturistas do mundo inteiro teríamos pedalando pelo Brasil se nosso trânsito não fosse tão violento e impune, mas enquanto tivermos até candidatos a grandes cargos dando voz a esses 5% de assassinos potenciais, defendendo esse mito da “Indústria da Multa”, significa que essa situação está longe de terminar e que ainda vou correr muitos riscos de vida durante essa jornada que está só começando.

Falando coisas boas, nem pedalei muito e encontrei esse antiquário com o nome de “Trato Feito”, uma bela surpresa pra animar um pouco minha manhã.

Dentro do antiquário ainda encontrei duas relíquias, uma Caloi da década de 70 e outra bike que deveria ser uma Monark Barra Circular.


Voltando pra estrada, pesquisando no mapa encontrei um caminho alternativo, sabendo que deveria subir uns 40 metros a mais do que se seguisse na estrada normal. Fui pelo atalho, realmente era mais tranquilo, mas tive que encarar uma piramba. Quando cheguei bem no alto da montanha havia uma pequena capela ao lado de uma plantação, marcando o início da descida.

A cidade está cravada num vale, pra sair toca eu subir novamente até a rodovia que liga Sorocaba a Br-116, rodovia que desce Serra do Mar. Ali estava a placa que mostrei no início do post dizendo que subi a quase mil metros altitude. Soube que ali haveria um dos poucos lugares para poder almoçar e encontrei um restaurante dentro do vagão de um trem. O preço não era de um pf de estrada, mas também nenhum absurdo comparado com o que temos em São Paulo, como não sabia se um dia voltarei, resolvi passar por essa experiência. Não me arrependi.

Depois do almoço voltei para a estrada, ainda faltava muito até meu destino, 70 km pode parecer pouco, o problema é que no trajeto não tem retas, ou você está subindo, ou descendo e carregado como eu estava ficava difícil manter uma média boa. O trajeto e muito bonito, mas exige muito do ciclista.

Cheguei em Pilar do Sul as 16h45 e ainda tinha 30 km pela frente. O correto seria dormir por lá, mas como meus primos estavam me esperando, arrisquei e segui mesmo sabendo que pedalaria de noite. Não tenho iluminação pra isso, até tenho uma boa lanterna e um ótimo pisca traseiro, o problema é que ambos tem baterias internas que foram pro espaço. Ao invés de comprar equipamentos novos, como em Curitiba vamos fazer a bike gerar energia, estou levando esses equipamentos pra fazermos um esquema sustentável, mas até lá tenho que evitar pedalar de noite, não tem outra opção.

Cheguei na chácara dos meus primos as 19h00, já sem luz nenhuma, mas até que foi tranquilo. Passei dois dias aqui descansando, aproveitei para lavar as roupas, reorganizar as malas e amanhã cedo volto para a estrada. São cerca de 300 quilômetros que me separam de Curitiba, poderia chegar em 3 dias, mas só sei que nada sei. Ainda estou com as coxas cheias de ácido láctico, quero ir girando bem de boa, pedalando até as 15h, depois já procurando um lugar pra pousar. Não sei quando chegarei em Curitiba, só sei que será pedalando um dia de cada vez.

André Pasqualini

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