Saída estratégica

Estamos aqui para quê? Há três meses achava ter a resposta, mas hoje sei que preciso encontrá-la. Sou muito pragmático. O pragmatismo é fundamental para fazer algo acontecer, e essa minha forma de ser sempre foi útil.

Problemas só ocorreram quando tentei agir com pragmatismo para resolver minhas confusões emocionais. Meses atrás, mais precisamente em abril (dia 20), escrevi um texto colocando para fora um pouco desse meu sentimento que era confuso e claro ao mesmo tempo. Essa confusão sempre me incomodou, e tentei resolvê-la com meu clássico pragmatismo. E o resultado?

Magoei as pessoas que amo, fiz meu filho chorar, perdi a mulher da minha vida, perdi minha família, me afastei dos amigos e principalmente dos meus objetivos, que perderam o sentido. Com certeza, estes últimos três meses foram os piores da minha vida. Hoje consigo entender por que muitas pessoas, diante de uma perda como a minha, ou se matam ou ficam loucos.

Por sorte, não fiz nenhuma besteira, mas preciso de uma saída estratégica e, pela primeira vez na vida, minha prioridade será “eu”. Hoje descobri que sempre precisei de um pilar. Tinha três. Um perdi, acho que para sempre; o outro (meu filho), só consigo mantê-lo no pensamento. Sobrou a bicicleta. Por isso, resolvi fazer uma longa e difícil viagem.

Nesta semana parto pedalando por mais de 5 mil quilômetros, ao longo dos quais pretendo passar por quatro biomas: Pantanal, floresta amazônica, cerrado e mata atlântica (veja o trajeto sugerido). Vou sozinho e pretendo viajar da forma mais sustentável possível, gastando o mínimo, contando só com minhas habilidades e a solidariedade de outras pessoas.

Por isso, despeço-me desta coluna, pois não estou preparado para expressar minhas opiniões neste momento. Quem quiser poderá me acompanhar pelo blog bicicreteiro.org. Não sei quanto tempo irá durar, mas o suficiente para que eu possa compreender melhor minha cabeça. Até porque, sei que há um moleque me esperando para que eu possa ser seu pai novamente e em tempo integral, hoje meu único objetivo.

E aos amigos, conto com suas mensagens de apoio, pois essa energia será meu combustível nas pedaladas. Agradeço ao Destak por este espaço e a todos que me acompanham há mais de um ano. Abraços e um até breve, com uma cabeça melhor e muita história para contar.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”. Clique e veja a coluna no site do Jornal.

Pior do que tá fica, sim!

Um palhaço recebeu 1,3 milhão de votos. Impossível compreender o que levou tantas pessoas a votarem em Tiririca. Um desses eleitores me disse: “Só tem palhaço na Câmara! Um a mais não fará diferença”. Será que ele sabe que não elegeu um, mas cinco? Nosso sistema político é bem confuso e poucos sabem como realmente ele funciona. São Paulo tem 70 vagas na Câmara dos Deputados, mas não são os mais votados que se elegem. Isso porque existe um tal de “coeficiente eleitoral”.

É difícil, mas vou tentar explicar. Esqueça que você deu seu voto a uma pessoa, seu voto vai primeiro para a coligação ou partido (caso a legenda não tenha se coligado com outra, como o PV nesta eleição). Ao final da votação, somam-se todos os votos válidos (descontados brancos e nulos). Então, divide-se esse total pelo número de vagas, no caso 70. O resultado é o coeficiente eleitoral. Para definir quantas vagas um partido terá, divide-se o total de votos recebidos por seus candidatos pelo coeficiente. Assim, votos dados para um candidato são “emprestados” para seus colegas de partido ou coligação. Os votos de Tiririca fizeram sua coligação (PT/PRB/PR/PCdoB/PTdoB) ser a mais votada, com 6,7 milhões.

Com a ajuda de Tiririca, sua coligação conquistou 24 das 70 vagas. Só depois de calculado o tal do “coeficiente” é que as vagas são divididas entre os 24 candidatos mais votados “dentro” da coligação. Quem votou no Tiririca acabou elegendo também Newton Lima Neto (PT), Otoniel Lima (PRB), Delegado Protógenes (PCdoB) e Vanderlei Siraque (PT). Será que todos que votaram no Tiririca sabiam que elegeriam essas pessoas? Você acha que os que fizeram de Tiririca candidato não tinham a intenção de tê-lo como puxador de votos? Será que as pessoas que votaram no Tiririca como protesto sabiam que foram usadas?

Nosso sistema político é horrível, acabamos elegendo quem não queremos e ficamos sujeito a votos de escárnio. Mudar, só com uma reforma política. Mas a maioria dos políticos não quer a reforma, e a população não tem noção do quanto ela é importante – se soubesse, faria mais pressão do que fizemos pela Ficha Limpa. Não posso afirmar que o brasileiro não sabe votar, mas com tristeza digo que um número considerável não tem a menor noção do que fazer em frente à urna e acaba usando-a como mero cesto de lixo.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”. Clique e veja a coluna no site do Jornal.

Quando crescer quero ser… feliz!

Hoje meu bebê faz quatro anos de idade e em breve ele começará a planejar seu futuro, dizendo que quando crescer vai ser bombeiro, médico, ciclista. Aos oito anos, plantei na escola um feijão num copo com algodão molhado. Bastou ver a semente brotar para instigar meu lado megalomaníaco e resolvi fazer minha plantação de feijão num terreno baldio ao lado de casa.

Resultado: 2 kg de feijão depois de alguns meses e um orgulho enorme por ter conseguido, já tão cedo, transformar uma ideia em realidade. Logo depois disso, já começaram a enxergar cifrões em mim… “Ele vai ser fazendeiro.” “Não, ele vai ser engenheiro agrônomo.” Imaginem uma criança de oito anos, sem internet, tentando descobrir o que fazia um engenheiro agrônomo.

Quando fiz 12 anos, tivemos a famosa visita do cometa Halley. Ganhei uma lunetinha simples do meu pai e fui um dos poucos que conseguiram enxergar o cometa. Pronto, já deixei a agronomia de lado e decidi que seria astrônomo. Hoje não sou nada disso do que sonhei e quando bateu a “crise dos 30″, fiquei frustrado, pois a maioria dos meus planos, que fiz na adolescência, estava longe de se realizar. Por isso, quando meu filho vier falar sobre o que vai ser quando crescer, vou dizer: “Filho, se preocupe em ser feliz!”.

Tenho amigos que se matam de trabalhar e, apesar de já conseguirem dinheiro suficiente para sustentar duas gerações, vivem reclamando que não fazem nem têm tempo para fazer o que gostam. Já outros gostam tanto do trabalho que só isso já basta para deixá-los felizes, os workaholics com orgulho. Mas a maioria, infelizmente, é formada pelos que vivem para trabalhar e descobrem só depois de velhos que escolheram a profissão errada.

Hoje, penso apenas em ser feliz, quero fazer o que gosto, precisar de pouco dinheiro para sobreviver, estar perto das pessoas que eu amo, curtir meus amigos, fazer várias viagens de bicicleta e, principalmente, quero viver cada dia de uma vez.

Por isso, filhão, quando estiver na dúvida do que ser quando crescer, pegue este jornal e leia o conselho do papai. Desde cedo, queremos ser felizes; não deixe a rabugice estragar seus planos. Seja feliz e saiba que estarei sempre à disposição para ajudar na eterna busca pela felicidade, na certeza de que isso me fará feliz também.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”. Clique e veja a coluna no site do Jornal.

Dia Sem Carro. E daí (de novo)?

Minha coluna aqui está completando um ano e quero agradecer pelo espaço. Escrevo há quase dez anos, mas meu público sempre foi a turma das bikes. No Destak, tive a oportunidade de interagir com pessoas de todos os tipos, trazendo novas expectativas e mostrando o ponto de vista da galera que está fora desse nosso mundinho. Isso me ajudou muito; por isso, muito obrigado por esta maravilhosa oportunidade.

Mas quero falar sobre mais um Dia Mundial Sem Carro (DMSC), que ocorre no 22 de setembro. Aliás para que um DMSC? Segundo a pesquisa Origem e Destino, do Metrô, apenas 50% das famílias possuem carro. Sabendo que nem todos de uma família usam carro, podemos dizer que apenas cerca de 30% da população usa carros todos os dias. Portanto, o DMSC só existe porque essa minoria causa um transtorno enorme a todo o resto da população.

No Desafio Intermodal de São Paulo, realizado na última quinta, o carro foi mais lento do que moto, bicicleta, patins, skate e até do que uma pessoa correndo, sendo apenas mais rápido que o transporte público. Ou seja, além de ser responsável por 90% da poluição da cidade, o carro também atrapalha a vida da maioria da população, que depende do transporte público e para quem o DMSC é todos os dias.

O DMSC serve para tentar sensibilizar essa minoria que tanto impacta a vida de todos os moradores da cidade, mostrando o quanto somos dependentes do carro e o quanto essa dependência é exagerada. O DMSC serve para abrir os olhos dos motoristas que ficam felizes com o anúncio de tantas obras viárias sem se preocupar com o fato de que nem um décimo desse valor será investido em transporte público ou calçadas (nem falo de ciclovias).

Portanto, fica a dica: amanhã, prefeito Gilberto Kassab, em vez de ir de ônibus dos Jardins até a prefeitura, faça uma caminhada da sua casa até o Jockey Club. Veja a aventura que será atravessar a ponte Cidade Jardim e sinta na pele o quanto é ruim viver numa cidade que foi planejada pensando apenas em quem tem carro.

E você, leitor motorista, por que não aderir? Da mesma maneira que eu passei a prestar mais atenção em quem está fora do nosso mundo, experimente sentir o que sentimos todos os dias. Quem sabe você não mudará a forma de enxergar sua cidade? Pense nisso e feliz Dia Mundial Sem Carro para nós.

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Ônibus x bicicleta: guerra dispensável

Ontem, estava na avenida Cruzeiro do Sul, acessando a Ataliba Leonel. Eram duas faixas no acesso e uma faixa de pedestres com algumas pessoas tentando atravessar. Ouvi o barulho de motor acelerando, já sabia ser um ônibus. Olhei para trás e, apesar da segunda faixa não ter nenhum veículo, o motorista do carro 2-2263 acelerou e passou a centímetros de mim.

Carro do assassino em potencial

O motorista insano, além de não parar para os pedestres passarem, quase me matou. Obviamente, alcancei-o no ponto de ônibus e perguntei por que ele passou tão perto de mim. O motorista me olhou como se fosse uma barata que ele tentou esmagar, mas infelizmente não conseguiu. Qual seria sua reação, cara a cara com alguém que usou uma máquina de oito toneladas para assustá-lo, como se sua vida não valesse nada? O pior é que não precisaria ser assim.

Em junho de 2009, realizamos a palestra “Motoristas convivendo com as bicicletas”. No processo de construção da palestra, conversei com vários motoristas de ônibus e fiquei impressionado. Descobri que a maioria sempre sonhou e estudou muito para ser motorista. São pessoas realizadas, mas que sentem um grande desconforto, pois são pouco valorizadas. O curso não foi dado diretamente aos motoristas, e sim a multiplicadores de cada garagem. Ficou muito claro que algumas garagens fizeram um trabalho magnífico, já outras, principalmente a maioria das cooperativas, não mudaram nada.

Na palestra, eu mostrei vídeos de Londres, onde há faixas exclusivas para ônibus e ciclistas, convivendo pacificamente. Sabem qual a diferença entre um motorista de São Paulo e um londrino? Nenhuma, nem o salário, pois devido ao custo de vida de lá, o salário londrino acaba equivalendo ao paulistano.

Nossos motoristas de ônibus podem ser melhores, basta valorizá-los e educá-los, educação esta que estão dispostos a receber. Pena que a SPTrans não acredita em educação. Pelo acertado com a empresa, após três meses do curso, deveríamos ter feito uma reavaliação e o trabalho de educação deveria ser constante. A reavaliação nunca ocorreu, e há mais de um ano tento com que o processo seja retomado.

Uma pena, pois enquanto esse evento serviu para que eu acreditasse ainda mais no ser humano, parece que, para a prefeitura, só serviu para mostrar para a Globo o prefeito pedalando no meio de um monte de motoristas. Enquanto isso, eu e vários outros ciclistas quase viramos lombada.

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A Lua marrom

Janeiro de 1996, início de noite: surge a lua mais linda que já vi sobre o canal de Cananeia. Aquele prateado refletindo no canal, nunca mais me esqueci dessa imagem. Na semana passada, a lua cheia deu o ar de sua graça aqui em São Paulo. Apesar de bela, ela estava marrom, parecia até meio enferrujada. Para alguns a culpa foi do clima seco.

Quando é que vamos parar com essa falácia de culpar o clima seco? No deserto, o clima é mais seco, mas dá pra respirar! Ok, é culpa da poluição. Mas quem polui nosso ar? Os caminhões que foram para o Rodoanel? Os fretados que foram expulsos da cidade? Os 15 mil ônibus da nossa frota? Chega, né? A culpa é das seis milhões de pessoas que têm (e principalmente usam) carros nessa cidade.

Semana passada corri para o Hospital Infantil com meu filho. Lá chegando, via tudo com aperto no coração. Lotado de crianças chorando, sofrendo devido aos problemas causados pela “clima seco”. Sei que, diariamente, 20 pessoas (maioria idosos e crianças) morrem por causa da poluição. Já imaginou ver uma criança morrer e saber que colaborei graças ao escapamento do meu carro? Ontem, peguei um ônibus que fez em 50 minutos um trajeto que eu faria em 15 minutos de bicicleta. Em frente ao aeroporto, entrou um cadeirante. O ônibus deu a volta para entrar no Campo Belo e parou do outro lado da via para o cadeirante descer, bem embaixo da passarela. Detalhe, a passarela do Aeroporto de Congonhas só tem escadas.

Enquanto ninguém consegue atravessar uma ponte a pé ou de bicicleta, os motoristas ganharam uma linda Nova Marginal. Enquanto não temos calçadas para caminhar, as ruas dos Jardins estão recapeadas. Enquanto a passarela do Aeroporto não é acessível, os motoristas têm a “útil” Ponte Estaiada. Por isso que nunca mais quero dirigir um carro, não consigo compactuar com tanta injustiça.

Vou sofrer? Claro que sim, mas minha consciência estará tranquila, minha barriga controlada, meu pulmão igual ao de um fumante (mesmo sem fumar), mas não vou resolver o “meu problema” de mobilidade à custa da desgraça alheia. Por isso que já decidi: dia 22 de Setembro, em plena Praça do Ciclista, vou queimar aquilo que tantos sonham e pagam (quando não compram) como se estivessem “comprando a liberdade”. Será a última vez que minha carteira de motorista vai ajudar a poluir essa cidade.

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