Efeito borboleta

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Para quem não conhece esse provérbio, dizem que uma batida de asa de uma borboleta na África pode causar um tufão na China. Mas a mensagem que esse provérbio quer passar é que todo o planeta é um sistema interligado e é extremamente necessário que nós ponderemos sobre os efeitos cascatas de nossas atitudes.

Não posso parar na frente de uma TV e lá vejo enchentes em São Paulo, deslizamentos no Rio, mortes e mais mortes. Mas será que estou vendo aqui algo que está influenciando nessas tragédias que ocorrem no país?

Com certeza, as inúmeras queimadas que aqui ocorreram jogaram muito CO2 na atmosfera, aumentando a temperatura média de toda a região. Aqui já é quente demais, chuveiro elétrico é algo desnecessário e ar condicionado é item indispensável.

As árvores ajudam a controlar o clima local, lembro que durante a derrubada das árvores da Marginal Tietê, alguém apresentou um estudo mostrando que 40% da água das chuvas na Floresta Amazônica nem chegam ao solo, ficam nas folhas das árvores e evaporam ali mesmo. Fácil comprovar, canso de parar sob árvores para encapar minha bike quando começa a chover e dificilmente eu me molho. Na foto abaixo vemos de um lado Floresta ainda intacta e do outro lado ela virando Cerrado.

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As matas mais densas reduzem a temperatura local. Também fácil constatar, como disse em São Paulo, quando saía de um canavial e entrava numa área preservada de floresta, a temperatura caía uns 5 graus. O mesmo ocorre aqui quando passo por uma plantação de soja ou uma fazenda de gado e entro numa região de floresta preservada.

Hoje as chuvas estão mais intensas no Brasil inteiro, a diferença é que aqui esse aumento não trouxe tantos problemas, pelo contrário, chega a ser bom para a agricultura.

A região amazônica é muito parecida com o Pantanal, a diferença é que o Pantanal é bem menor e não tem montanhas como na Amazônia. Outra particularidade são as cheias, tanto aqui como lá, em épocas chuvosas como agora, várias áreas que ficam secas durante o ano inteiro se enchem de água. No pantanal são os lagos e vazantes e na amazônia são os brejos ou banhados.

Não se pode fazer nenhuma obra aqui sem respeitar essa particularidade. Mas porque essa regra não é levada em conta em todas as cidades que possuem rios, como São Paulo por exemplo. A cidade foi construída as margens dos Rios Tietê e Pinheiros que funcionavam como várzeas alagando temporariamente em épocas de chuva, mas lá foram cometidas cagadas (desculpe o termo) uma atrás da outra.

Primeiro um ser inteligente retificou os rios Tietê e Pinheiros pensando no futuro, para eles servirem de grandes avenidas expressas. Obviamente que a sinuosidade do rio ajudava a reter as águas da chuva diminuindo os alagamentos.

Depois dessa obra de retificação, pra piorar, construiram mais e mais vias reduzindo a área permeabilizada no entorno do rio e o resultado são enchentes e mais enchentes.

Deslizamentos são normais, ocorrem em todo lugar que há montanhas, até aqui na Amazônia. Ocorre que aqui a densidade demográfica é pequena e dificilmente iremos encontrar pessoas morando nessas áreas. Veja essa foto que tirei aqui de um morro na Amazônia, a falha na vegetação da encosta é sinal de um deslizamento.

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Lembram-se das tragédias em Santa Catarina? Quando estivemos lá em setembro do ano passado vimos o tamanho da tragédia. Lá ocorreram centenas de deslizamentos, a maioria não matou ninguém. Posso afirmar que em Santa Catarina foi muito pior que no Rio de Janeiro, a diferença é que a população de lá esta anos luz mais preparada que o resto do país.

Mas o que fazer?

De imediato só rezar, pois hoje estamos colhendo tudo que plantamos nas últimas 3 décadas. Depois tentar recuperar a floresta queimada, mas para isso seria necessária uma forte intervenção dos governos em todos os níveis e intervir em TODAS as fazendas que praticaram (e ainda praticam) queimadas.

Não adianta ficarmos plantando árvores na casa do chapéu, elas tem que ser plantadas aqui. Também não adianta fazer lei para beneficiar o fazendeiro “anistiando” quem acabou com a reserva legal ou deixando ele compensar plantando árvores em Parques fora da sua região. A lei atual, se fizermos os barões do agronegócio cumpri-las a risca, não precisa de alteração.

A lei tem que ser para todos, os fazendeiros conhecem a lei e a obrigação deles é cumpri-las, como qualquer cidadão.

De nada adianta a gente ficar comprando gasolina em um posto que “planta árvores” enquanto milhares de hectares são queimados. Temos que diminuir o uso dos carros e lutar para mudar a matriz energética, pois eles não podem mais depender da gasolina. Muito menos do álcool, pois como já mostrei nessa viagem, de combustível ecológico ele não tem nada.

E também, fundamental levar a informação até esse povo da floresta. Quem realmente vive e trabalha aqui, na sua maioria são pessoas de bem e querem apenas fazer o que é certo, ocorre que eles não sabem como fazer e simplesmente vão se virando.

Lixo é queimado, conceito de reciclagem não existe no Brasil e só com intervenção do estado para a coisa se massificar, deixar só nas mãos de ongs é apagar incêndio com xixi.

Tem muita coisa errada, é preciso darmos um “cavalo de pau” e mudar a direção. E sermos persistentes pois as mudanças serão lentas mas é preciso começar pois quando ganharem consistência, os resultados irão aparecer.

Nada será fácil, ainda vamos sofrer por anos graças aos erros do passado, mas se começarmos agir agora, sem se preocupar com o imediatismo, pode ser que daqui a 30 anos consigamos dar um fim nessas tragédias. Mas será que seremos tão inteligentes e altruistas? Não sei.

3 estados em 3 dias

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Nesse post vou fazer um resumo desses 3 dias de pedal, onde saí do Mato Grosso, cruzei o Pará e entrei no Tocantins. Se quiser ver mais detalhes, veja o álbum do Facebook, pois lá coloquei todas as fotos com explicações na legenda.

De Vila Rica até a divisa com o Pará são 40 quilômetros sendo 10 de terra. O lado bom é que peguei um chapadão longo e consegui girar bem. Só uma vez peguei um desnível de 50 metros.

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A paisagem não mudou muito da que vislumbrei por quase um mês em Mato Grosso. Fazendas e queimadas. Florestas, bichos atropelados, a diferença é que a estrada é pouco movimentada, ótima para pedalar.

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Abaixei a cabeça, “soquei a bota” e cheguei em Santana do Araguaia com mais de uma hora de sol, pedalando uns 180 kms.

Chegando na cidade fui parado por duas pessoas de moto. Um deles era o Paulo que tem uma pousada na cidade e me deu pouso de graça.

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A noite, depois de jantar, saí atrás de um açaí da amazônia. No caminho tirei fotos de uns pés que eu achava ser açaí, mas descobri que eram de Bacaba, uma fruta muito parecida mas que infelizmente não é famosa como o açaí. Vamos ver se consigo experimentar em Tocantins.

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Mas no supermercado consegui comprar a poupa do Açaí da amazônia. Levei para meu quarto e misturei com uma poupa de Graviola. Garanto, é muito diferente do Açaí que estamos acostumados a comer, recomendo.

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No dia seguinte mais chuva, teria cerca de 60 quilômetros até o Rio Araguaia. Saí com chuva mesmo.

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Pedalei uns 10 kms até a estrada de terra e com uma chuva fina encarei o lamão. Esse foi o pior trecho de terra que peguei, saí com lama da cabeça aos pés.

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No caminho, enquanto pedalava ouvi um grito. Olho para o lado e um lindo casal de araras vermelhas estavam parados numa árvore ao meu lado. Consegui tirar algumas fotos dessas belezas que continuaram me seguindo durante um bom trecho.

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Depois de muita lama, finalmente ele, o Rio Araguaia. Minutos depois que cheguei, lá vem a balsa que irá nos levar até Caseara no Tocantins.

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Já em Tocantins, fiquei em Caseara que fica a 5 kms do Rio Araguaia, antes fui até o posto de gasolina da cidade e dei um belo trato na magrela e já deixei preparada para o asfalto do dia seguinte

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De Caseara a Palmas são cerca de 260 quilômetros e há 4 cidades no caminho. Estou a cerca de 200 metros de altitude e Palmas fica a cerca de 500, ou seja, vou encarar uns morros.

Fiquei sabendo que até Paraíso do Tocantins (200 kms) o trajeto é plano. Então planejei pedalar até lá, coloquei os pneus slicks e encarei o estradão.

A primeira cidade, Marianopolis, fica a 80 kms. A paisagem já é uma transição de Floresta com Cerrado, bem plano, com poucos rios e muitos banhados. Na foto abaixo uma árvore típica do cerrado.

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Abaixei a cabeça e pedalei forte, mas não fui muito longe. Com 40 kms meu pneu traseiro furou. Tentei arrumar o furo mas não consegui, então tive que recolocar o trator.

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Cheguei em Marianópolis as 13h30 (hora daqui, ainda não entrei no meu fuso pois Tocantins não aderiu ao horário de verão), parei num posto e comi 3 pães de queijo e uma coca de um litro. Meu plano era pedalar depois até Divinópolis e lá comprar umas poupas de açaí no mercado para ser meu almoço.

Mas assim que voltei para a estrada me senti estranho. Pedalei os primeiros 15 kms forte mas depois comecei a sentir fadiga e diminuí o ritmo. Quando completei 20 kms começou a me dar caimbras. Aí comecei a ficar preocupado.

Achei uma sombra e fiz uma pausa. Peguei na mala um pacote de Soro e preparei na minha garrafinha. O Soro além de hidratar, tem potássio e glicose. Isso deu um gás e voltei pro pedal.

Já havia pedalado 100 kms e até então não havia cruzado nenhum rio, até que finalmente encontrei um e lá me refresquei.

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Depois melhorei um pouco e consegui chegar numa boa até Divinópolis. Aqui ainda não pega celular TIM e encontrei uma pousadinha com internet, assim tento me recuperar pra amanhã subir o morro até Palmas. Já me disseram que no caminho tem vários rios de água cristalina e tomara que o sol ajude. Em Palmas vou ser recebido pelo Artur e garanto que ele vai me ajudar a fazer uma bela travessia pelo Jalapão.

Colo

Geralmente quando vejo um caminhão vindo no mesmo sentido, vou para a contramão pra ele não precisar fazer uma manobra de ultrapassagem, já carros eu deixo eles ultrapassarem normalmente.

Estava em um trecho de terra, atrás vejo um caminhão, 300 metros a frente uma curva a direita. Vou para a contramão e fico bem no canto, pois se vier um carro depois da curva ele consegue passar.

De repente uma enorme carreta surge na curva muito rápida, creio a uns 70 km/h no mínimo. Era um desses caminhões que transportam duas carretas. Quando o motorista me viu, ainda na curva, se assustou e tacou o pé no freio. Vejo a segunda carreta sair de lado formando o temível “L”, abrindo na curva e vindo em minha direção.

Na hora pensei em me jogar no barranco, mas o motorista parou de frear, acelerou, conseguiu estabilizar a carreta e passou por mim.

Temo que se eu tivesse ficado no meu canto, o outro caminhão iria abrir pra me ultrapassar e o desastre seria bem maior. Não sei também se caso a carreta não conseguisse segurar e tombasse, se teria tempo de pular no barranco para me salvar.

Não quero buscar culpados para a quase tragédia, mas tenho certeza que em todas as cruzes de estrada que passei, alguém estava abusando da velocidade no momento do acidente.

Ontem foi um dia onde a cabeça pesou mais que as pernas. Não tinha a potência dos demais dias, pedalava só por pedalar mesmo. Ontem foi o dia que acordei com a obrigação de pedalar, mas o que eu mais queria era deitar minha cabeça no colo de uma pessoa querida e receber um carinho.

Ontem lembrava a toda hora das tantas vezes que eu tinha esse carinho mas até mesmo negava. De tantas vezes que estava com pessoas queridas, mas no fundo parecia não querer estar ali, mesmo percebendo o quanto elas estavam felizes por ter a minha companhia.

Ontem lembrava muito das oportunidades que perdi de retribuir o carinho que recebi. De quantas vezes me achei o centro do universo, egocêntrico e mesmo as vezes percebendo meu desconforto, elas continuavam ali, felizes por estar comigo.

Ontem me lembrei da última vez que vi meu filho, tinha que passar na minha sogra e ir depois para uma bicicletaria. Meus planos era passar na hora em que ele estivesse na escolinha, mas atrasei e ele já estava lá quando cheguei. Ele queria brincar comigo, ficou pulando em mim enquanto falava no celular e quando disse que tinha que sair ele falou.

“Mas papai, você não quer comer? Vem comigo pra cozinha pra comer uma coisa…”

Insisti que tinha que sair (e tinha mesmo), ele começou a chorar e me deu um abraço. Sentir aqueles bracinhos me envolvendo trucidou meu coração, perceber que estava fazendo ele sofrer com toda aquela situação (que eu criei) e não poder fazer mais nada, não poder voltar atrás, não conseguir amenizar sua dor.

Falei que iria correndo na loja do amigo do papai e quando voltasse, iríamos no shopping, assim poderia passar um tempo com ele.

Saí como um louco, fiz o que tinha que fazer e em menos de 1 hora estava de volta, mas ele havia adormecido e não consegui acordá-lo.

Ontem foi o dia que os músculos não foram problema e sim o dia que tive que lutar contra a minha cabeça.

Pedal de ontem sem grandes novidades, um pequeno trecho de serra, chuva o trajeto inteiro e por isso poucas fotos.

Numa cicloviagem temos que pedalar um dia por vez e ontem parece que pedalei uma vida em um dia. Ao menos terminei mais um dia.

Entenda as queimadas do Mato Grosso

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Já cansamos de ver matérias na TV falando sobre queimadas, que elas contribuem para o aquecimento global, que o governo esta lutando para combater, que ela diminuiu ou aumentou, etc.

Nunca consegui entender como e porque elas se formam, só ficou claro agora na viagem. Acho que a maioria das pessoas também não compreendem os motivos, portanto vou usar esse post para explicar.

Aqui no Mato Grosso funciona assim. Originalmente as terras de Floresta Amazônica eram do Estado e para povoar e trazer riquezas para a região, o Estado (quando falo Estado entenda governo estadual e prefeituras) vende a preços baixos suas terras, quando não as doa para quem quiser explorar.

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Há 30 anos o Estado vem incentivando o agronegócio no Mato Grosso. Grande parte do estado tem vegetação de Cerrado e de Amazônia. Ocorre que principalmente na Amazônia legal, os limites para desmatamento sempre variaram entre 80 a 50%.

Isto dificulta a vida dos novos exploradores (que em sua maioria nem são daqui), principalmente quem quer criar gado pois precisa de grandes áreas para pastagens. Desmatar é algo complicado, ainda mais na Amazônia, precisa de autorização do Ibama (orgão federal) e tem um custo alto. Já a queimada não, basta tacar fogo e deixar a natureza se consumir.

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A queimada é um fenômeno natural que ocorre com facilidade em regiões de cerrado, algumas vezes sem a ingerência do homem. Clima seco, muito calor acabam transformando uma pequena fagulha em grandes queimadas.

Desde Sorriso venho observando muitas áreas onde ocorreram queimadas, mas as que ocorrem no Mato Grosso não são naturais. Aqui não passa de uma técnica fácil e barata de destruir a Floresta Amazônica e criar rapidamente áreas de pastagens.

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Como coibir? Bastaria uma intervenção do estado, principalmente nos níveis municipal e estadual, algo que não ocorre. O único orgão que tenta fazer algo é o Ibama, mas difícil combater algo que governo e municípios apoiam, pois pra eles, quanto mais pasto, mais agronegócio e mais dinheiro para a região.

Outra opção seria incentivar o manejo sustentável, mas o governo deveria ajudar facilitando as autorizações, ou deixando o trâmite menos burocrático. Como isso não ocorre, o povo vai pela via mais fácil.

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Já percorri mais de 1500 quilômetros pelo Mato Grosso e de todas as regiões que passei, aqui foi onde eu consegui observar mais claramente os resultado das queimadas.

Saí de Santo Antônio do Xingu bem tarde e fiz um caminho mais curto, mais bonito e também mais difícil, pois tinha muita areia. Nada comparado com o areião “impedalável” do Pantanal, mas com certeza dificulta o ritmo.

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O lado bom é que passei por áreas de floresta ainda preservadas, o que tornou o pedal bem mais agradável.

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Vi muitas pegadas de onça, a todo o momento suas batidas entravam e saiam da mata e comparando com meu pé, da pra perceber que o bicho é grande.

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Para a minha surpresa, vi uma anta nadando num lago de uma fazenda. A primeira vez que ví esse bicho vivo na viagem. O bicho era grande, lembrou um hipopótamo quando avistei, pena que ela não saiu da água.

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São 165 kms de Sto Antonio até Confresa, daria para percorrer o trajeto com tranquilidade se eu saísse cedo, mas saíndo meio dia era certeza de que iria pedalar de noite.

Vamos quebrar tudo!

Ontem foi o dia da quebradeira, primeiro as braçadeiras do meu bagageiro dianteiro se quebraram e ele foi perigosamente ao chão. A sorte é que não estava rápido e consegui frear a tempo.

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O bagageiro entortou em alguns lugares, tinha apenas mais duas braçadeiras e acabei usando um elástico para prender. Agora não cai mais e ele vai assim até São Paulo.

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Depois dei uma parada num bar que tem ao lado de um rio, onde a galera costuma nadar. Sempre sou parado e quase sempre o pessoal vem com suas máquinas pra tirar foto comigo, faço isso com muito prazer. Em retribuição eu tiro uma foto deles com a bike e depois publico no meu Facebook.

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Essas garotas tiraram foto comigo e de praxe tirei uma delas. Mas a primeira da esquerda se empolgou um pouco mais e quis subir na bike que estava escorada com os pezinhos. Resultado? Quebrou os dois pezinhos.

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Como não tenho mais dinheiro e dificilmente acharei outros, vou ver se consigo me inspirar no Kico do Nova Origem e fazer um pezinho parecido com o dele, usando cabo de vassoura, assim posso continuar tirando fotos da bike durante a viagem.

Escureceu e faltavam ainda 50 kms até Confresa. Enquanto havia sol o pedal rendia pois a estrada estava ótima, mas foi só a luz natural ir embora pra entrar no pior terreno. Muito buraco e lama, como minha luz é fraca sofri barbaridade, sorte que consegui andar uns 10 kms na frente de um caminhão chupinhando sua luz.

Cheguei em Confresa as 23h00, cansado e com vários problemas para resolver, resolvi passar o dia na cidade, pois além do bagageiro e dos pezinhos, tive dois raios quebrados.

Amanhã mais um dia de pedal longo, tem uns 100 kms até Vila Rica, mais 30 até a divisa com o Pará e uns 50 até a vila mais próxima onde pretendo passar a noite. Além disso a Record daqui da cidade vai fazer uma entrevista comigo na saída. Tomara que vá para todo o Brasil, mas se não for eles jogam no youtube e me passam o link.

Então até amanhã, já no Pará. E pra me despedir, dessa vez não vai um por do sol, mas sim uma foto que tirei para o outro lado, pois meu destino agora deixou de ser o norte, agora vou pro leste!

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Índio não Solidário

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Céu azul, sem chuva, apenas uma bela neblina para saudar minha saída. No meu caminho teria 120 kms de pedal até o Rio Xingu, sendo 80 até o início da reserva. E ainda tinha que chegar no rio até as 17h00, hora que os índios encerram a travessia com a balsa.

Tinha que acelerar o passo e foi o que fiz. Saí cedo, as 7h30 da fazenda do senhor Zé Vicente e toquei forte. A pista ainda estava castigada por causa das chuvas mas não precisei diminuir muito meu ritmo.

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Era comum passar por riachos e encontrar enormes toras. Fico imaginando como era aquela floresta e como foi todo o processo de destruição.

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Bom salientar que não se deve jogar a culpa nos moradores da região. Aquilo era para ser uma área preservada e o governo do estado que a 30 anos vem incentivando a exploração. Antigamente o governo dava a terra e obrigava os fazendeiros a desmatar tudo e se não derrubassem o governo tomava a terra de volta.

E ao invés de incentivar uma exploração sustentável, estimulou a criação de gado, vendendo a preços irrisórios (quando não dava) grandes áreas de terra a fazendeiros do sul do país.

A melhor forma de se explorar a floresta é o manejo sustentável. É feito um mapeamento das árvores e elas são derrubadas a dedo. Há um rodízio fazendo com que a própria floresta se recupere.

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Conversei com muitas pessoas e tem gente ganhando muito dinheiro com o manejo, justamente porque não existe um gasto de manutenção e plantio como ocorre com a soja ou gado. Infelizmente só vi uma fazenda nessa região que promovia o manejo.

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Onde ocorreram as queimadas, a floresta fica com aparência de cerrado. A cara de pau é tamanha que as cercas são feitas com madeira que sobreviveu as queimadas.

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Continuando meu pedal parei no último ponto de apoio antes da reserva, lá eu almocei e sem muita demora parti.

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Saí as 13h30 de lá e encarei a reserva. São 40 kms até o rio, portanto tinha tempo suficiente para chegar na balsa. Dentro da reserva a mata impõe respeito.

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Não consegui novamente ver nenhum animal, sol forte afugenta os bichos, apenas num momento eu percebi um animal grande correndo para a mata ao se assustar com minha passagem. O bicho deu um grito pavoroso, acho que era um macaco, mas não deu para ver.

Ali é uma região de onças, apesar de não ter mais tanto medo de encontrar a danada, peguei o facão que estava guardado na mala e deixei novamente a mão.

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As onças não apareceram, mas não demorou muito e lá estava ele, o grande Rio Xingu.

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Cheguei as 16h00, do outro lado do rio estava a balsa que não veio me buscar. Depois de meia hora uma pickup apareceu do meu lado e só então ela atravessou.

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E quanto teria que pagar? Uma incógnita, o preço varia, eles cobram 30 reais de uma moto e mais 5 por pessoa. Caminhões chegam a custar entre 80 a 120 reais. Ainda tem gente que acha caro os pedágios de São Paulo. Acho que os índios daqui fizeram algum curso com a Ecovias.

A balsa chegou, entrei no barco e fiquei num canto. Junto a mim outra bicicleta que era de um dos índios que trabalham na balsa. Esse veio até mim para saber mais da minha viagem como a maioria das pessoas fazem. Até então nada do tão falado “achaque”.

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Depois que a balsa cruzou o rio, já eram 17h00 e o objetivo agora era tentar passar um dia na aldeia e sentir como é a vida dos índios. Até mesmo para ouvir deles um contraponto de tudo ouvi sobre eles do matogrossense.

Depois da balsa eu tive que pedalar uns 500 metros até uma cancela. Como o carro que cruzou comigo já havia passado fazia um tempinho, eles devem ter achado que não tinha mais ninguém e abandonaram o posto. Ao lado da cancela tem a aldeia que controla a balsa.

Fui até a aldeia e conversei com um índio jovem, muito simpático, sobre a possibilidade de dormir na aldeia. Deu para perceber que ele achou interessante, mas teria que falar com o cacique. Enquanto ele o procurava, fiquei entretendo a criançada que estava impressionada com a bike.

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Fiquei quase uma hora esperando o cacique, quando ele apareceu, expliquei que queria ficar um dia lá, até para ouvir a opinião deles sobre todo esse desmatamento, sobre o homem branco, mas quando falei que tinha um blog a resposta…

Cacique: “Não pode, só com autorização Funai, se não tiver não pode”

Eu: “Não tenho como pegar uma autorização agora, o senhor não é quem manda aqui?”

C: “Não, quem manda é Funai”

E: “Posso pelo menos passar a noite aqui? Pois vai escurecer em uma hora e não chegarei a tempo na cidade”

C: “Não, sem autorização Funai não pode dormir. Pode ir embora”

E: “Posso pegar água pelo menos?”

C: “Água da torneira pode”

Enchi então meu galão e parti. Seriam mais 40 kms até a cidade e eu teria apenas 1 hora de sol. Pelo menos não cobraram a balsa. Pedalei até onde deu e pelo menos consegui registrar um belo por do sol na minha despedida da Floresta Amazônica.

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Recebi até umas ofertas de carona mas como sou turrão fui pedalando no breu mesmo. No total pedalei 2 horas no escuro até que cheguei em São José do Xingu. No caminho um caminhoneiro que já havia encontrado na estrada no dia anterior, disse para eu ficar no posto da cidade. Entrei na cidade e quando estava procurando o posto ouço.

“Hei ciclista, chega aí, vem jantar com a gente!”

Voltei, era a casa do Fábio que viu eu passando com a bandeirinha do Brasil e resolveu me chamar. Resumindo, jantei na casa dele, acabei pousando 2 dias aqui e pude aproveitar o dia de descanso para lavar as roupas, limpar e ajeitar minha bike e poder tocar até Confresa, onde, graças essa parada na casa do Fábio, consegui também um lugar para pousar na cidade.

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Ainda bem que a gente pode contar com a solidariedade do homem branco, pois se dependermos dos índios (principalmente de caciques retrógrados) estamos ferrados.

Em tempo, não deixem de ler minhas impressões sobre o Mato Grosso depois que deixar o estado. Pois serão mais de 2 mil quilômetros pedalados e vou escrever muito mais sobre toda essa relação índio, homem branco e a floresta.

Cade o areião?

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Falo e continuo afirmando, quem consegue pedalar no Pantanal, pedala em qualquer lugar. Acordei cedo mas caía uma forte chuva em Matupa para o meu desânimo. Nem levantei, fiquei enrolando na cama até umas 7 da manhã e fui tomar café.

Matupa foi uma das poucas cidades que eu fiquei em pousada, até porque precisava deixar todos meus equipamentos carregados para poder encarar o Xingu e não ter surpresas desagradaveis.

Acabei saindo de Matupa as 11h00 no meu horario, muito tarde para quem queria sair as 7h00. Já havia parado de chover e até abriu um pouco de sol.

Nos primeiros 10 kms havia sinal de celular, então consegui das varias twittadas. Todo carro que passa eu cumprimento, alguns ficam andando ao meu lado perguntando de onde venho, pra onde vou. Cicloturista não pode ser antipático, temos que repetir a mesma coisa quantas vezes forem necessárias e faço isso com o maior prazer.

Uma pickup passou por mim e parou mais a frente, um senhor desceu e começou a me chamar. Era o seu Zé Vicente, que havia visto minha reportagem no SBT.

Ele disse que tinha uma fazenda perto do Restaurante do Bigode, a 120 kms dali e falou para dormir na fazenda dele.

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Aceitei a oferta, o problema seria pedalar 120 kms nessa terra e chegar de dia. Sabia que havia uma vila a 70 kms de Matupa e depois só o bigode. E no posto antes de encarar a terra, um monte de gente me falava que a estrada estava ruim, lama, areião. Pensei, não vou conseguir chegar nem na vila.

Agradeci o convite e toquei forte para ver até onde conseguia pedalar. A estrada, apesar da lama, estava uma maravilha, conseguia pedalar sempre acima de 20 km/h. No começo era lindo ver aquela mata fechada dos dois lados.

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Mais a frente começaram os clarões e a realidade. Logo atrás das árvores, dava para avistar as vastas fazendas de gado.

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Não demorou e cheguei na primeira vilinha, ali parei e comi algo. Mais a frente, antes de chegar na vila maior, uma serra onde subi quase 200 metros. No alto um rio com a criançada brincando.

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Já estava com uma vontade enorme de entrar na água e não pensei duas vezes. Deixei minha magrela no bike-park e caí na água.

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Lá havia dois homens com uma tigela procurando ouro. Disseram que estavam só testando e que não estavam usando mercurio. Acabei tendo uma pequena aula sobre como o mercurio ajuda os garimpeiros e consegui ver umas graminhas de ouro no meio da terra.

Segui forte, tinha mais 3 horas de sol e uns 60 kms até o Bigode, então passei a me concentrar no pedal. A chuva deu uma trégua, mas pra todos os lados que olhava ela caía.

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Lama eu encontrava sempre que passava perto dos banhados e rios, mas não via problemas em vencer esses obstáculos, era até divertido.

Pedalei forte e consegui chegar no Bigode, consequentemente na fazenda do seu Zé Vicente. Levantei meu acampamento na cozinha e mais uma vez armei a maravilhosa rede do Kampa. Valeu pelo presente Palmas, não imagina o galhão que ela está quebrando.

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A janta foi com o seu Manoel, capataz da fazenda que me deu várias dicas sobre o que eu iria encontrar pela frente. Me disse que devido as queimadas, os animais estão todos fugindo para a reserva indígina e para tomar muito cuidado com as onças que expulsas do território e sem comida, estão atacando até gado de dia.

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Infelizmente é assim, quando o governo incentiva o “pogresso” a qualquer custo, impossível não causar impacto. Agora é esperar todos esses animais expulsos morrerem para a natureza tentar se ajustar novamente.