Diario do Pantanal – dia 11 – A Transpantaneira

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Ultima etapa do Bioma Pantanal, vou narrar o que rolou até a chegada em Cuiabá que fica a uns 260 kms do Porto Jofre, divisa de MS com MT, realizada em 2 dias.

Acordamos as 3h00 da manhã, na hora dos Pantaneiros, preparamos as tralhas, jogamos a bike na Pickup e saimos no escuro mesmo. A maioria dos trabalhadores da fazenda moram em Poconé, cidade considerada o Portal de entrada do Pantanal Matogrossense.

O trajeto seria pela Fazenda São Bento, conhecida lá como “criação de onça”. Isso porque essa fazenda foi comprada por um grupo de ecologistas franceses apenas para proteger as onças.

O carro seguiu tranquilo pelo areião desenvolvendo uma velocidade média de quase 40 km/h. Observava que tinha pouco areião e muito pasto formado, ou seja, dá pra pedalar numa boa.

A gente ainda passa por um retiro da fazenda, que pode muito bem ser mais um local de hospedagem. Até ali só alegria, nada de uma mata fechada e nada de onça.

O carro andou uns 20 kms quando chegamos num grande aterro. Ou seja dava até para descer do carro e seguir pedalando, mas eu poderia me perder e entao melhor continuar de carro.

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Seguimos por esse aterro sendo que o motorista ainda fez um desvio passando em frente a sede da fazenda das onças, enquanto isso gravava todo o trajeto no GPS. Havia muito gado e no caminho avistamos um boi morto, provavelmente por uma onça, pois sua cara estava toda rasgada.

Como era de manhã, horário que geralmente as onças estão retornando da caça, fiquei na esperança de ver uma, sem sucesso. Logo chegamos ao Porto Jofre, lá há uma balsa que pode atravessar até um pequeno caminhão, mas quem faria nossa travessia seria um rapaz da fazenda que estava vindo do porto dela, a mais de 20 kms dali, de voadeira.

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Realizamos a travessia em 3 etapas, pois o barco era pequeno, mas logo estavam todos do outro lado.

Me diziam que a partir dali haveria internet e sinal de celular, assim poderia ver o nome da pousada que a Fernanda de Cuiaba me indicou, onde poderia passar a noite antes de seguir para Cuiabá, mas nada de sinal e muito menos internet. Como é época de Piracema e a pesca esta proibida, as pousadas do Jofre não estão funcionando.

Segui então pela Transpantaneira, um aterro com terra bem firme, onde poderia andar a mais de 20 km/h com facilidade, então apertei muito o ritmo da pedalada.

São centenas de pontes de madeira na estrada e há sempre vários animais. Um festival de Capivaras, Jacarés, Tuiuius e diversos outros passaros.

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Passei por várias pousadas e a maioria ficavam a 3 kms da estrada e preferia não arriscar chegar lá e não ter nem internet então segui em frente.

Cheguei no Portal da Transpantaneira as 19h00 e nada de sinal do meu celular, isso a mais de 120 kms do Jofre. Tive que andar mais uns 6 kms e descobri que a Pousada era a Araras, que estava naquela altura a 20 kms para trás.

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Só me restou ir até Poconé, estava sem dinheiro, com um unico pacote de Miojo e tinha a esperança de que houvesse algum dinheiro na minha conta, pois uma pessoa que me devia, ficou de depositar enquanto estava no Pantanal.

Mas infelizmente a conta estava zerada. Daí dei uma mendingada numa casinha de hot dog e ganhei um para aliviar a fome. Dali fui até um posto de gasolina na saída da cidade onde me deixaram dormir na área onde ficam os caminhões. Fiz o miojo, armei minha rede e mesmo sem banho apaguei.

De manhã tinha um pacote de arroz e resolvi tentar fazer um pouco como café da manhã, mas acabei queimando e comi pouco, só o que eu consegui.

De Poconé a Cuiabá são mais 120 kms, mas de asfalto, sem grandes subidas. Pedalei e logo a 20 kms passei pelo municipio de Cangas, nesse dia não tirei uma foto sequer pois estava sem baterias nos celulares.

Depois de Cangas são mais 50 kms até Nossa Senhora do Livramento e não há praticamente nada na estrada. A fome estava me matando e quando faltavam uns 10 kms para Livramento eu encontrei uma borracharia.

Lá entrei, pedi na cara dura um prato de comida e logo depois me trouxeram um pote de sorvete com arroz, feijão, macarrão e frango. Com essa nova dose de combustível consegui pedalar mais uns 35 kms até a cidade de Cuiabá.

Aqui chegando fui muito bem recebido pela Fernanda e sua família que me deu uma enorme força e me aguentaram por 5 dias pelo menos. Também recebi a ajuda de um amigo que me deu uma grana, com a qual consegui arrumar minha máquina fotográfica, arrumar minha bike que teve até o aro quebrado e ainda sobrou um dinheiro que deve garantir uns PFs até Palmas pelo menos.

Isso porque desisti de tentar viver só com o que eu encontro na natureza, simplesmente porque até agora não encontrei natureza praticamente, quase tudo virou pasto ou cana. O máximo que encontrei foi mangueiras carregadas que ajudaram demais em vários momentos.

Agora me despeço da Fernanda e sua família, me despeço da galera de Cuiabá e vou subir até a Chapada dos Guimarães, onde pretendo passar meu natal sozinho. Tomara que a beleza do lugar amenize esse que deverá ser o dia mais difícil da minha viagem.

Diario do Pantanal – dia 10 – O rasante da Arara Azul

Ainda não tinha visto nenhuma dela, estava frustrado pois diziam que eu veria muitas no Pantanal e o trajeto acabando e nada, mas enquanto houver pedal há esperanças.

Saí da fazenda São Pedro e no café da manhã conheci o Mauro, dono da fazenda e muito gente boa. Nascido em Coxim e morando atualmente em Curitiba. Ali ele me deu as coordenadas para poder mudar o rumo com destino a fazenda Carvalho, que possue um porto mais próximo do Jofre.

Fiz o caminho como ele disse, “saia pela estrada  fazenda e passando a cancela, ao avistar um areião, pegar a pista da esquerda” e foi o que eu fiz.

No caminho, começo a encarar um areião e  noto uma figura curiosa no final da pista só me observando. Ainda me acompanhou por bons metros até entrar no meio do mato de vez.

Passei umas cancelas e entrei num pasto enorme. De onde eu estava avistava emas e veadinhos pastando. De repente um rasante de uma ave. Era a Arara Azul solitária que passou a menos de 5 metros de mim, me olhando, depois subindo e seguindo pelo horizonte.

Só percebi que era ela quando estava bem perto e bateu a luz do sol. Toda azulada, com um bicão preto, linda. Impossível tirar foto mas ganhei meu dia.

Mais a frente vejo uma fazenda, não havia andado nem 6 quilômetros e não deveria ser a Tarumã, fazenda que está no caminho da Fazenda Carvalho. Cheguei perto e descobri que era a São Gonzalo, ou seja, errei o caminho. Mas de lá partia outra estrada que tomava o mesmo rumo e lá fui eu.

Muito areião intercalando com uns pastos e depois de 2 horas e meia, cheguei na Taruma, bem na hora do almoço. A tática é a mesma de sempre “Será que o senhor pode me arrumar um pouco de água e um canto para eu fazer o meu Miojo?” A resposta é sempre, “almoça com a gente” e lá vai um pratão de comida pra dentro.

Ali soube que a fazenda Carvalho é o Retiro da Uval, que tem sua sede na beira do rio, a 30 kms dela. Ainda há um outro retiro antes da sede, então já planejei pedalar até esse retiro pelo menos e no dia seguinte seguir pro porto, mas primeiro teria que chegar na Carvalho.

Sol rachando, nada de muita novidade e um longo areião de 3 quilômetros antes de cruzar a fronteira da fazenda e a partir dali só alegria, pasto formado e só seguir pela grama.

Essa fazenda é enorme e depois de quase 10 quilômetros apenas dentro dela, de longe avisto a sede, como a visão de um oásis.

Cheguei na fazenda e foi aquele choque de sempre. Diferente das demais fazendas, que já haviam visto o Yanko e seu amigo, nessas nunca tinham visto um ciclista passando por aqui.

Pedi dicas de como chegar no Jofre e pediram para eu esperar o dono e o gerente chegarem, foi o que fiz. Quando eles chegaram, para a minha surpresa, já haviam visto a minha entrevista para a Tv Morena, os primeiros pantaneiros que me viram na TV.

Falei que queria ir no Jofre e o dono disse que no dia seguinte iriam levar várias pessoas de caminhonete até lá, mas pela fazenda São Bento, em frente ao Jofre e se eu quisesse podia pegar uma carona.

Hum… Pegar carona… BORA!

Primeiro porque cansei desse areião e entre empurrar bike e pegar carona, mil vezes a carona.

Em segundo lugar, vou poder descobrir a rota exata para poder sair direto no Jofre, algo que nenhum pantaneiro que encontrei sabia. Portanto essa é uma oportunidade unica.

Adeus Pantanal, apesar de ter sido sofrível, foi muito bom poder cruzar e pedalar mais de 440 quilômetros aqui dentro. Mas ainda tenho que cruzar o rio e tem ainda mais uns 140 kms de Transpantaneira até Poconé quando definitivamente deixarei o Pantanal para trás.

Diario do Pantanal – dia 9 – Cansaço

O Pantanal é realmente lindo, mas pedalar aqui é desgastante demais, quando a areia esta mais batida você tem que fazer uma força danada para o pedal render.

Quando a areia tá demais e tem grama, o lance é colocar na coroinha e ir girando nos solavancos da grama, mas pior mesmo é ter que arrastar a bike no areião.

Minha papete com clip esta toda rasgada de ficar batendo uma na outra na hora de empurrar. Imaginem como está o meu tornozelo, esta em carne viva. Pra piorar levei um tombo e enfiei o pé na coroa, coisa linda.

Comecei o dia saindo da Fazenda São Cristovão e lá o capataz deu uma dica boa para chegar na fazenda Recreio, o que seria minha porta de saída do Pantanal. Mas ele pediu para eu pedalar até a Santa Luzia, depois para a Fortuna e lá pedir a indicação de como chegar na fazenda Rancho Alegre, uma reta até a Fazenda Recreio, a princípio o meu destino.

Foram cerca de 20 quilômetros até a Santa Luzia, alternando vazantes, cerrados, areiões e acabei chegando lá as 11h00. Conheci o senhor Augusto, capataz da fazenda que me convidou para almoçar. Uma delícia de almoço, com direito até a sobremesa.

Ali ele me deu a dica de, a partir da Fazenda São Pedro, sair da rota do meu GPS e seguir rumo a fazenda Carvalho, que tem um porto a 10 kms da sede, bem próximo ao Jofre, onde só precisaria atravessar o rio. Diferente da Fazenda Recreio, onde deveria subir de barco pelo menos 30 kms.

Ele deu essa dica também ao Yanko e seu amigo, os ciclistas que cruzaram o Pantanal por essa rota no meio do ano e me passaram as coordenadas, mas não sei porque pegaram outro caminho. Segui meu rumo até a fazenda Fortuna onde o seu Adão, antigo gerente de fazendas, que acabou juntando um dinheiro e comprando uma só pra ele. Com 30 anos de pantanal, me confirmou a dica e me deu uns toque de como chegar nessa Carvalho.

Mais 7 quilômetros de muito “push bike”, cheguei na fazenda São Pedro. Agora vou sair de vez da rota e ver no que dá. Se chegar bem na fazenda Carvalho, terei descoberto uma excelente rota para se cruzar o pantanal.

Diario do Pantanal – dia 8 – Maldito areião

Essa minha pedalada pelo Pantanal, de longe é o meu maior desafio, a mais desgastante, apesar de toda beleza que encontrei até agora.

Meu dia começou bem, estava tomando café da manhã e ouvindo a conversa. “Mas a peça do Caminhão não chegou e não consigo ligar”

Daí o outro responde, “Mas você usou a internet?”

(Internet? – pensei)

“Mandei um email mas não responderam ainda…”

(Email?) Então perguntei; “Vocês tem internet aqui?”

“Sim, internet via satélite, se quiser pode usar o micro”

Não pensei duas vezes, consegui subir as fotos desse meu celular mas não consegui subir as fotos do outro pois nem trouxe o cabo dele. Pior que nesse é que estão as melhores fotos.

Consegui ao menos subir um post para avisar que está tudo bem e logo encarei a estradeira. A partir daqui há fazendas num raio de 7 a 15 quilômetros, bem mais fácil e seguro de pedalar.

Saindo da São Sebastião Grande, só precisei cortar o pasto da fazenda para sair na Santa Cruz. Muita trilha com grama, pouco areião e cheguei na fazenda em pouco mais de uma hora, tudo bem trânquilo.

Chegando na fazenda Santa Cruz fui atrás de água, mas não havia ninguém. Fui entrando na fazenda e nada, então fui até o tanque e enchi meu galão de água.

O próximo destino seria a Fazenda Campo Alto, o trajeto foi novamente tranquilo, mais 10 quilômetros e cheguei na fazenda ao meio dia e meia da hora local.

Lá conheci o seu Nelson, capataz da fazenda que estava descansando na rede. Pedi na cara dura água e comida, pois minha comida esta acabando e não quero correr risco nesses dois dias que me restam.

O senhor foi muito gentil, me ofereceu um descanso na sombra e depois me convidou para almoçar uma feijoada maravilhosa feita pela sua senhora que, infelizmente não perguntei o nome.

Ficamos proseando enquanto comia, sua senhora ainda me trouxe água geladinha e até suco para acompanhar a comida que estava tão boa que eu repeti o prato.

E a sua casinha? Bem simples mas linda, me lembrou muito as casinhas tão bem cuidada do Vale Europeu em Santa Catarina. Quem disse que casa humilde não pode ser bonita?

Depois de muito comer, me despedi e fui encarar a estrada. Eram 13h40 no horário local, e como o sol não castigava tanto e, lá fui eu encarar o areião.

E que areião, são 10 kms até a fazenda São Cristovão e logo de cara foram 2 kms sem pedalar, só arrastando a bicicleta. Nem bicho gosta de areião, enquanto nas vazantes, campos e corixos encontro uma cacetada de animais, no areião, no máximo encontro são  buracos de tatu.

Desencanei, comecei a marcar no GPS o próximo ponto e quando chegava nele eu tomava mais água e descansava um pouco. Foi assim, ponto a ponto que cheguei na São Cristovão, com direito a areião até 500 metros da sede.

Aqui fui bem recebido, jantei, ganhei pouso e umas dicas de um caminho mais curto para chegar na Fazenda Recreio. Lá é que faria meu acesso ao rio para tentar um barco até o Jofre, onde começa a estrada Transpantaneira, já em Mato Grosso, que me levará a Cuiabá, encerrando minha saga pelo dificil Alto Pantanal.

Diario do Pantanal – dia 7 – Santo GPS

Dormi muito mal, estou com uma dor nas costas que preocupa. Não parece muscular, fica na parte de baixo e esquerda das costas, parece bem interna. As vezes doi ao respirar. Durante o dia é bem mais suportável, já a noite é de matar. Se não melhorar até Cuiabá terei que ir no médico.

Noite mal dormida fez eu acordar cedo, comi um miojo no café da manhã e logo peguei a estrada, pois a próxima fazenda estava bem longe.

Logo na saída mais um areião desgraçado, haviam várias pistas e nenhuma dava para pedalar. Então entrei pra dentro do Cerrado e fiquei pedalando entre as árvores. Desvia daqui, corta dali e quando vi a distância para o próximo ponto  só aumentava. Ou seja, estava voltando.

Nessa hora o GPS me ajudou pois com certeza me perderia no meio daquele mar de areia.

Mais um trecho longo sem fazendas de apoio no meio. O tempo estava novamente colaborando, não era o frio do dia anterior, mas em compensação nada de sol. A próxima fazenda estava a 50 kms e o dia prometia.

No meio do caminho encontrei uns lobinhos tomando água numa poça na estrada, a natureza sempre viva.

Esse foi um dia com poucas fotos, infelizmente, mas com uma preocupação danada para chegar na fazenda antes do anoitecer. Consegui achar uma casa abandonada e lá havia umas fogueiras, provavelmente era ponto de pouso de comitivas.

Havia um poço nessa fazenda, fiz meu almoço ali, peguei água do poço e pra garantir joguei uns clorins na água e deixei agindo enquanto comia. A água estava potável e cristalina, mas havia um monte de sujeira boiando. Peguei uma camiseta e usei como filtro para poder colocar a água no garrafão e mandei ver.

O Yanko e seu amigo se perderam nesse dia e tiveram que acampar na estrada, tentei fazer um caminho diferente e acabei me perdendo também. Então começou uma correria, a fazenda estava a 10 kms de mim e entrei para umaa estrada que pelo gmaps parecia ser um grande lago ou pasto, mas havia uma floresta me separando do meu destino.

Até que encontrei uma cerca nova atravessando meu caminho, com uma picada cortando a mata fechada. Mas como queria ir sempre pra frente, me arrisquei e tentei atravessar a mata. Impossível, direto encontrava um mar dessas “unhas de gato”, parece com as babosas, cheias de espinhos e nem me arriscava pedalar pois já tive um pneu furado com essas plantas.

Resolvi voltar mais de 1 km e procurar novamente a cerca, até que achei, segui até o final e encontrei um imenso pasto aberto para me levar até a direção da fazenda.

Depois de uma hora encontrei a fazenda e aí foi só curtir o por do sol e descansar para o próximo dia, pois esse rendeu, com mais de 50 kms de pedal.

Diario do Pantanal – dia 4 – Respeite o Deus Sol

Sempre fui muito tolerante ao sol, moleque aos 18 anos, parecia um índio, ficava o dia inteiro jogando bola, volei, sempre sem camisa, nada de protetor, morenasso.

Venho a bike e lá vou eu pedalar sem camiseta, só pra não ficar com a marca do “manguito” nos braços. Basta dar uma olhada nas galerias das minhas viagens antigas que me verá em várias fotos sem camiseta. Sinceramente não sei como eu aguentava pedalar com tanto sol.

Aqui no pantanal, procuro sair cedo, umas 5 da manhã horario daqui (7 de São Paulo e 6 de Campo Grande já que os pantaneiros ignoram o horário de verão) e pedalo até as 15h00, até mesmo para evitar encontrar uma onça no caminho, já que elas costumam sair para caçar no fim da tarde.

Saí da fazenda Campo Oliva as 5h00 da manhã, dia claro mas nublado. O Capataz disse que seria o dia inteiro assim, normal ficar nublado nos finais de semana. Primeiro só aí caiu a ficha que era sábado. Depois fiquei feliz pois poderia pedalar bem até durante o meio do dia, o que faria o pedal render.

Meu destino seria a fazenda Santa Cruz e depois a Mercedinha, já a 10 kms do Rio Taquari. Dependendo do horário tentaria esticar o pedal até o Retiro da Mercedez a 5 km do rio.

No caminho vi uma arvore repleta de urubus e senti um cheiro forte de carniça. Parei para ver o que era e descobri uma enorme anta morta. A carcaça estava fresca e não deu para saber o motivo da sua morte.

Depois descobri com o João Batista (João Carona, capataz da Mercedinha), que anta é muito dificil de se ver morta, nem onça ataca ela, devido a sua grossa pele. Pode ter sido morta por cobra, mas nem fiquei muito tempo para investigar.

Mais pra frente vi um grupo de veadinhos, pra variar todos correram, menos um. Me aproximei e vi que  ele estava com a perna quebrada, quando tentava correr ela dobrava pra frente. Então consegui chegar bem próximo dele e bati umas fotos. Dava para chegar mais perto ainda, mas fiquei com dó pois toda hora que me aproximava ele tentava correr e a perna dobrava pra frente, então tomei meu rumo. Esse logo irá virar comida de onça.

Chegando na Santa Cruz novamente um areião desgraçado, passei um corredor de boiadeiro empurrando a bike por uns 2 kms até chegar na Santa Cruz. Lá eu peguei um pouco mais de água. A minha estava gelada pois na Campo Oliva já tem freezer e energia elétrica. Já na Santa Cruz ainda é gerador e a água é só fresca.

Cometi dois erros aí, primeiro não ter enchido até a boca do garrafão e depois não ter parado para almoçar. Como cheguei tarde, perto do meio dia hora local, o povo já devia ter almoçado. Mesmo assim deveria ter comido um miojo, no mínimo.

Segui em direção da Mercedinha, nem mais pergunto se tem ou não areião pois o povo daqui nunca acerta dizer se tá bom ou não para bike.

Saindo da fazenda peguei um trecho ruim, com mato mas sem grama, o que segura demais a magrela, depois uns trechos curtos intercalando areião e lagos. Bem deixa explicar melhor os tipos de terrenos que temos no Pantanal.

Uma vazante é como um rio seco, mas com grama no seu leito. Ali sempre há trilhos simples ou duplos, feitos por carros. O melhor lugar para se pedalar.

Depois vem as pistas com pasto formado, trechos com trilhos de carro, cheio de areia. Locais difíceis para se pedalar, mas como tem grama ao lado, basta ir pela grama. Não dá para desenvolver mais que 10km/h, mas dá para pedalar.

Tem os areiões com cerrado baixo em volta. Ali você tem que sair da pista e andar no meio da mata. Precisa tomar cuidado para não se perder mas dá para seguir por lá.

Já a tristeza dos ciclistas são os areiões, trechos com areia pra todo lado, até mesmo no meio da mata. Aí a única solução é descer e empurrar. Mas no nosso caso não é apenas empurrar, mas sim arrastar a bike.

Peguei trechos curtos de areia, lagos secos com corixos (pequenos lagos que formam corixos, nome dado a esses poços, que ficam com água mesmo em época de seca) e num deles havia vários jacares. Como eles não são bobos, estavam todos dentro d’agua.

Meu relógio marcava 14h00, o que seria meio dia daqui, sol a pino castigava. Eu sempre pedalava (ou empurrava) até a próxima sombra onde bebia um pouco de água. Cheguei numa vazante grande, onde cruzei com facilidade, faltavam menos de 6 kms para o meu destino e achava que tudo correria bem.

Saí da vazante e peguei um areião lascado. A areia pelando de quente e enquanto arrastava a bike meu pé fritava. Nessa hora percebi que minha água havia acabado e faltavam 6 kms até a fazenda.

Comecei a empurrar a bike, até que teria uma longa e quente clareira para atravessar. Saí arrastando a bicicleta e meu pé fritava, faltava muito ainda e achei que iria queimar meu pé, quando cheguei numa sombra joguei a bike no chão e tirei minha papete. Ali percebi que se tivesse que empurrar até a fazenda poderia ter um sério problema.

Então calcei as sandalias da humildade, resolvi deixar a bike ali no mato e seguir a pé até a fazenda. Ali poderia pegar um pouco de água, esperar o sol baixar e voltar para pegar a bicicleta.

Caminhar naquele sol não foi fácil mas bem menos cansativo do que puxar a bike por 2 kms de areião. Levei o GPS e o rastreador, quase uma hora depois cheguei na fazenda. Lá estava apenas a Dona Mavi, senhora do João Carona, o capataz. Ela me deu água fresca e deixou comer umas mangas enquanto o sol baixava umm pouco.

Na fazenda eu mandei uma mensagem pelo rastreador dizendo que havia terminado o pedal do dia. Assim se houvesse alguém me acompanhando não os deixaria preocupados com minha ida e volta até a bike.

Então voltei bem mais disposto para a estrada para pegar minha bicicleta. No caminho de volta encontrei vários Quatis atravessando a estrada. Foi até fácil de fotografar pois não fiz barulho e estava bem perto deles. O problema foi ter que usar apenas a porcaria do meu celular.

Isso me lembrou que já começava a anoitecer e que era a hora dos bichos sairem das tocas. Isso vale para todos, desde cobras até onça. Então apertei o passo e cheguei no portão da fazenda. Ali já estava seguro, pois conseguia pedalar.

O dia me provou que não posso brincar com o sol, agora vou levar sempre duas das minhas garrafinhas com água numa mala térmica que tenho dentro do alforge. Assim se acabar de vez sei que tenho uma reserva que deverei racionar até o próximo ponto de abastecimento.

Depois de 6 dias pedalando direto, fiz uma pausa aqui na Mercedinha mesmo, dia de dar uma geral na bike, armar a rede e ficar de pernas para o ar.

Dores tenho no corpo inteiro, mas esse dia de descanso é fundamental para recompor um pouco os músculos e seguir a travessia o Pantanal.