Seu próximo Desafio, a Serra do Rio Do Rastro

A Serra do Rio do Rastro é um dos locais mais espetaculares que conheci, sabia da sua fama e depois que a subi descobri que ela era muito mal descrita.  Creio que isso deva ocorrer pelo “embasbacamento” natural que acomete a todos que sobem por ela.

Em junho de 2012 pedalei por essa região, primeiro no feriado do dia 07 de junho quando apenas subi e desci a Serra do Rio do Rastro. Dias depois voltei para a região para percorrer a Rota da Neve, quando subi a Serra do Corvo Branco e pedalei sobre a Serra Catarinense até Porto Alegre, cerca de 10 dias de viagem que narrei aqui no Blog. Depois de conhecer bem a região, resolvi organizar essa expedição cicloturística. Abaixo irei detalhar a proposta e no final coloquei os valores e como participar.

1ª) Etapa – Dia 06 de Setembro – Saída de São Paulo

A saída de São Paulo será as 20h00 do dia 06 de setembro, em ponto de encontro ainda a ser definido, provavelmente de algum estacionamento próximo a região do Butantã. Isso é para facilitar o ciclista que quiser ir de carro, o que vai facilitar principalmente a volta, quando deveremos chegar na madrugada de domingo para segunda.

O ônibus é um LD (Leito Turismo), super confortável, com ar condicionado. Colocaremos as bicicletas no bagageiro do ônibus e seguiremos rumo a Santa Catarina, com destino a cidade de Lauro Muller que fica no pé da Serra do Rio do Rastro. Os ciclistas descansarão no ônibus que fará algumas paradas, para jantar, café e mais algumas se necessário. A previsão de chegada em Lauro Muller é as 10h00 da manhã do dia 07.

2ª) Etapa – Dia 07 de Setembro – A conquista da Serra do Rio do Rastro

Na Serra do Rio do Rastro teremos dois pontos de subida, o primeiro será em Lauro Muller, os ciclistas que quiserem poderão começar a subir desde ali, a 200 metros de altitude. Já o segundo grupo irá descer 8 quilômetros a frente e subir a partir de 500 metros. Desse segundo ponto até o mirante da serra são 10 quilômetros.

Subiremos pedalando sem peso, pois nossas bagagens seguirão de ônibus até Bom Jardim, para a pousada onde passaremos nossa noite. Veja abaixo o trajeto que percorreremos nesse dia.

http://www.bikely.com/maps/bike-path/serra-do-rio-do-rastro

Não leve em consideração o ganho de altitude desse link, pois quando começarmos a subir a Serra do Rio do Rastro, em nenhum momento iremos descer, portanto impossível subirmos 2900 metros como informa o link, tão pouco descer 2000 metros. O acumulado em subida deve ficar em torno de 1500 metros no máximo.

A partir do segundo ponto de parada, serão apenas 20 quilômetros de pedalada até Bom Jardim da Serra. Nosso objetivo é chegar as 16h00 no Mirante da Serra, de onde tiramos a foto da abertura do post. Depois serão mais 11 quilômetros mais que suaves, a maior parte em descida, até a cidade de Bom Jardim da Serra.

Teremos um carro de apoio no alto do mirante para resgatar os ciclistas que desistirem de subir pedalando toda a Serra, ou para aqueles que percebemos que não irá cumprir a meta do horário. A pedalada desse primeiro dia é opcional, há também a opção para o ciclista descer no mirante e percorrer apenas o trecho até Bom Jardim.

Clique aqui e veja mais fotos da Serra do Rio do Rastro no álbum do Bicicreteiro no Facebook.

3ª) Etapa – Urubicí via Parque Nacional São Joaquim

Dia de trilha, portanto quem quiser poderá trocar os pneus de asfalto por pneus de terra, algo recomendável, até porque não precisaremos carregar malas durante a pedalada. Sairemos da pousada em Bom Jardim e seguimos rumo a Urubicí e logo na saída já encaramos a terra. Nada de carros cruzando nosso caminho e sim muita natureza. Nos primeiros 20 quilômetros encontraremos algumas fazendas, seguiremos margeando um lindo rio até chegarmos na área do Parque Nacional, a partir de então será natureza pura com lindas florestas de Araucárias. Veja abaixo o trajeto desse dia.

http://www.bikely.com/maps/bike-path/parque-nacional-sao-joaquim

Percorri esse trecho, mas no sentido contrário, no terceiro dia da Rota da Neve e me surpreendi pela beleza do lugar, veja o meu post clicando aqui. Serão cerca de 40 quilômetros em estrada de terra, no começo subindo aos poucos, acompanhando o leito de um lindo rio, até entrarmos no território do Parque Nacional quando subiremos de verdade. No platô superior estaremos a cerca de 1700 metros de altitude, um dos pontos mais altos da viagem (eu disse um dos).

Depois de 40 quilômetros pedalados em estrada de terra, daremos início ao trecho de asfalto até a cidade de Urubicí. Esse último trecho tem cerca de 200 metros de desnível em subida quando começamos a descer, daí serão 700 metros descendo até a cidade de Urubicí, tudo em asfalto.

Não ficaremos exatamente na cidade de Urubicí, lá chegando seguiremos em frente rumo a Serra do Panelão e pousaremos na Fazenda Panelão, uma fazenda com capacidade para cerca de 40 pessoas que é usada na época da colheita da maça. Um local único que será preparado para os ciclistas. Lá teremos um jantar especial, tudo exclusivo. Clique aqui e veja mais fotos desse trecho e da Rota da Neve.

Esse trecho também teremos um carro de apoio nos acompanhando, o carro levará mantimentos e também os pneus de asfalto do pessoal, caso eles queiram trocar ao final da trilha, ou mesmo para que eles queiram vencer as longas subidas do caminho.

4ª) Etapa – Morro da Igreja – Hora de separar os Homens (Mulheres) dos meninos (as)

Esse será um dia opcional, até porque teremos pouco tempo para pedalar nesse dia, portanto aqueles que estiverem muito cansados usarão esse dia para recarregar as baterias na belíssima fazenda, já os Highlanders terão nesse último dia uma chance de testar seus limites. Sairemos bem cedo da fazenda rumo a última conquista da viagem, o Morro da Igreja, abaixo veja o trajeto.

http://www.bikely.com/maps/bike-path/morro-da-igreja-1

Descemos até a cidade de Urubicí e seguimos pelo Vale do Rio Urubicí, por um trajeto bem plano, até a entrada da estrada que nos levará ao cume do Morro da Igreja. A primeira parte do trajeto tem cerca de 20 quilômetros que pode ser feito em menos de uma hora. Depois começa a brincadeira de verdade, serão mais 18 quilômetros subindo e aí será surpresa para todo mundo, inclusive para mim, pois quando passei pela cidade na minha cicloviagem, como havia muita neblina no alto do morro, abri mão de subi-lo. Mas dessa vez vou subir, com ou sem teto.

Depois que subirmos, voltamos para a fazenda para almoçarmos e tomar banho, pois as 14h00 o ônibus parte de Urubicí, com previsão de chegada em São Paulo na madrugada de domingo para segunda.

Quanto?

O pacote completo custará R$700,00 e pode ser pago em duas vezes caso o depósito seja feito direto na minha conta, ou parcelado via MOIP. Mais detalhes em “Formas de Pagamento”

A novidade! Quer levar a mulher, marido, filhos, prima ou papagaio mas eles não pedalam? Por R$500,00 levaremos esse acompanhante e enquanto os ciclistas estiverem pedalando, haverá uma Van para levar esses acompanhantes a pontos turísticos da viagem. Vão conhecer o Morro da Igreja, a cidade de São Joaquim e as inúmeras belezas da região.

O que inclui?

Transporte em ônibus LD (Leito Turismo) do ciclista e das bicicletas
Hospedagem em Bom Jardim e Urubicí, com café da manhã nas duas cidades e além do jantar e almoço durante a hospedagem na Fazenda Panelão em Urubicí.

Suporte mecânico e físico. Mecânico será no trato de emergências que poderão vir a ocorrer durante a viagem. O ciclista não precisa ter um excelente condicionamento, como teremos carros de apoio em todos os pedais, os ciclistas poderão usar os carros para vencer as grandes subidas do trajeto, principalmente no trecho do Parque São Joaquim. Portanto qualquer ciclista te tem condições de percorrer a Rota Marcia Prado, por exemplo, poderá participar da viagem.

Quantidade mínima de participantes

Para viabilizar a viagem vou precisar fechar um grupo de no mínimo 15 ciclistas sendo que o máximo será de 20 ciclistas, mais que isso não vou garantir, pois as bicicletas irão no bagageiro e bem protegidas.

Abri vaga para mais 15 pessoas sem bicicleta, se chegarmos a 20 pessoas no total, a viagem está garantida.

Formas de pagamento

O pagamento poderá ser dividido em duas parcelas, a primeira de R$350,00 será no ato da reserva, a segunda até o dia da viagem (07 de setembro). Para garantir a sua vaga, faça um depósito na conta abaixo e envie o comprovante para o email bicicreteiro@gmail.com com seu nome, RG, telefones (cel e fixo de preferência) e o nome e telefone de alguém para contatar em caso de emergência.

Banco Santander
Agencia: 0154
Conta Poupança: 60994878-5
Favorecido: André Pasqualini
CPF: 126.876.358-63

Se quiser parcelar, me mande um email que eu consigo receber o pagamento com cartão de crédito.

Acompanhe o evento pelo Facebook

Clique aqui e veja a página criada no Facebook onde divulgaremos os treinos preparatórios para quem quiser encarar esse desafio.

Carro de apoio?

Apesar de não gostar de carros de apoio, tenho que levar em conta que nem todos os ciclistas tem a mesma experiência que eu tenho e nem por isso eles devem ser privados de conhecer um local tão magnífico. Portanto já reservei um carro de apoio que irá nos ajudar nos dois dias de pedal (se necessário teremos um carro de apoio no terceiro dia também).

Qualquer ciclista que consegue percorrer a Rota Marcia Prado pode percorrer esse trajeto, até mesmo abrindo mão do carro de apoio. Mas se você estiver fora de forma e quiser só pedalar nos trechos mais fáceis, pode se inscrever, daí é só jogar a bike no carro nas subidas e curtir o pedal.

Fica o convite, vou adorar levar o pessoal para essa viagem alucinante e pretendo proporcionar muito mais do que uma simples viagem turística, mas sim um momento que ficará gravado para sempre na memória de todos que pedalarem comigo.

Dúvidas podem perguntar aqui mesmo no campo dos comentários ou no evento do  Facebook que criei e tirar as dúvidas de todos que pretendem encarar esse desafio.

André Pasqualini

Um Bicicreteiro em Poa

Terça foi o dia de descanso, da geral na magrela, nas malas e o de conhecer essa famosa cidade de Porto Alegre pedalando. Apesar de haver inúmeras possibilidades, fiz o básico que é pedalar as margens do Rio Guaíba. No Google Maps vi que lá pelo bairro de Ipanema, há uma praça com nome do Senador Alberto Pasqualini, muito conhecido no Rio Grande do Sul.

Minha família não tem nenhuma ligação direta com esse braço gaúcho, mas parece que meu Bisavô era irmão do pai desse Alberto. Na verdade eu só queria um motivo a mais para pedalar.

A cidade de Porto Alegre não é plana como imaginava, tem vários morros (ou lombas como dizem por aqui). Mas grande parte do seu relevo é plano. O clima frio favorece ainda mais o ato de pedalar, portanto o potencial de termos no Brasil uma Copenhagen é gigantesco.

Saí do bairro de Santana e segui rumo a Beira Rio, pode até haver ruas mais tranquilas, mas como não conheço a cidade procurei as avenidas de tráfego bem pesado, infelizmente é exatamente assim que age um ciclista iniciante. Peguei a Avenida João Pessoa e depois a Avenida Ipiranga e de cara deu para notar que se existe alguma dificuldade para o fomento da bike em Porto Alegre não é falta de espaço, pelo contrário. Calçada irregulares, mas largas, avenidas com canteiros centrais amplos, ou seja, é muito fácil investir em bicicleta na cidade.

Os motoristas, em geral, andam mais rápidos que os Paulistas, mas isso é compreensível, pois aqui não há congestionamentos. Um gargalo aqui, outro ali, mas nem 10% da realidade de São Paulo. Achei os taxistas em geral (aqui são carros vermelhos) pouco educados, a maioria das finas que levei foram de taxis. Os ônibus maiores até que não tive muitos problemas, mas os Micro-ônibus, que chamamos em Sampa de Vans ou Lotações, com eles o compartilhamento foi bem tenso.

Quando cheguei na Avenida Beira Rio havia um calçadão e não sabia se era uma ciclovia, calçada, só sei que vi vários ciclistas e segui por ali. Ele está em obras e deve ficar melhor perto da Copa, mas poderia haver o mínimo de ordem ali.

Segui beirando o Guaíba, passei em frente ao Estádio do Beira Rio e na beira do Rio Guaíba há várias escolinhas do Inter e do Grêmio. Encontrei uma ciclovia com tijolinhos e não consigo entender porque insistem nessas porcarias de tijolos e não asfaltam de vez. Com certeza, quem decidiu pelo tijolo não pedala. Esse trecho, provavelmente os tijolos foram retirados para alguma obra e o pedreiro não teve paciência para montar o quebra-cabeça.

Era fim de tarde e logo após o estádio do Beira Rio era esse meu visual.

Pedalei até o bairro de Ipanema, deixei de beirar o Rio Guaíba e encarei a primeira lomba, na avenida levei várias finas, principalmente das Vans, tentei cortar caminho por dentro de um bairro, mas encarei só ruas de paralelepípedos e muita subida, não foi uma boa ideia.

Cheguei até a praça do meu Tio-avô, não havia nada de especial nela e comecei a voltar, pois queria ver aquele pôr do sol na beira do rio. Era umas 17h15 e comecei meu retorno, mas logo um covarde de uma Van (número 161), buzinou e jogou seu carro contra mim, mesmo havendo muito espaço para me ultrapassar. Ele parou no ponto e parei ao lado dele para tentar descobrir porquê ele fez aquilo, mas ele começou a andar e mandou eu entrar na frente dele, num claro sinal de que se eu fizesse isso ele faria comigo o mesmo que o psicopata do Neis fez a Massa Critica.

Fiquei revoltado e comecei a chamá-lo de covarde, então ele jogou seu carro contra mim e acelerou. Pedalei forte, mas como disse lá no começo, aqui não tem congestionamento e não consegui alcançá-lo. Ah se isso houvesse ocorrido daqui a uns dois anos, prazo que eu dou para essa cidade ficar igual São Paulo se mantiverem essa política carrocrata absurda…

Voltei pela Beira Rio e fui até a Rua da República com a José do Patrocínio encontrar a Livia (@bikedrops) minha anfitriã na cidade, pois queria saber mais sobre o que ocorreu no dia em que o Ricardo Neis atirou seu carro contra a massa de ciclistas.

Fomos até a Praça Zumbi dos Palmares, ponto de concentração da Massa Crítica e ela contou os detalhes do que ocorreu no dia. Sempre que a massa saí da praça, ela entra nessa José do Patrocínio e naturalmente ocorre uma contenção dos carros que seguiam a rua, até toda a massa sair da praça, bem naquele dia, o primeiro carro da contenção era desse Neis.

Praça Zumbi dos Palmares – Concentração da Massa Crítica

Como já ocorreu comigo em algumas bicicletadas, alguns motoristas ficam inconformados por serem obrigados a esperar 1 minuto a massa passar e esse Neis, simplesmente forçou a passagem, derrubando e machucando uma ciclista que havia parado em frente ao seu carro.

Local da contenção e do primeiro contato com o Neis

Imediatamente, muitos ciclistas da massa foram conversar com ele para acalmá-lo, sem violência e isso é a prática, por motivos óbvios. Um motorista carrega uma arma de 1 tonelada e podemos até tentar bater nele (vontade muitas vezes não falta), mas procuramos acalmá-los, até para evitar que eles acelerem e avancem sobre os ciclistas a frente, principalmente quando ele esta atrás da massa.

O máximo que ocorreu, segundo a Livia, que estava no dia e viu tudo, desde o início, foram tapas no carro para ele não jogar o carro contra a garota que ele havia derrubado. Seu filho, a todo o momento pedia para seu pai ficar calmo, mas ele ignorou o garoto.

Quando a massa entrou na rua, o pessoal foi se afastando e deixando ele lá atrás, mas ao invés dele seguir a massa lentamente, ele ficou parado, deixando a massa ir embora. Mal a galera sabia que ele estava apenas, de forma covarde, tomando distância para acelerar. Apenas duas quadras após o primeiro atrito é que ele varreu a massa.

Ponto exato da tentativa de assassinato

Agora falando um pouco da cidade, é triste saber que tudo isso poderia ser evitado caso Porto Alegre tivesse implantado seu Plano Cicloviário que está pronto a uns 6 anos. Que eu saiba, apenas Porto Alegre e Brasília tem planos cicloviários, a base para qualquer investimento em mobilidade por bicicleta, mas porque Poa não implanta? Porque seus governantes não acreditam na bicicleta como uma opção e seguem o mesmo exemplo de São Paulo, endeusando os motoristas como se eles fossem os únicos com direto a se deslocarem com o mínimo de dignidade pela cidade.

Triste ver uma cidade tão bonita, com tanto potencial, ignorar de forma tão vergonhosa os cidadãos que querem se deslocar de bicicleta. E não apenas os ciclistas são tratados com essa repugnância, mas tanto os pedestres como os usuários de transporte público são colocados a margem da sociedade em Porto Alegre, não muito diferente do que ocorre na maioria das cidades brasileiras, infelizmente isso é regra e não exceção.

O transporte público é tão ruim como o de qualquer cidade brasileira, há alguns corredores de ônibus na cidade, parece que até há metro, mas sequer passei perto de alguma linha ou estação. Cidade com ônibus bons é onde a população prefira usá-los e não uma cidade que usa o transporte público como uma ferramenta de exclusão social.

Se eu fosse morador de Poa eu estaria acampado lá na prefeitura, até o prefeito assumir um compromisso, com reserva de dinheiro e prazos, para a implantação do Plano Cicloviário já existente. Dinheiro para pontes inúteis esses caras arrumam, mas para investir em bicicleta não?

Vi muitos ciclistas em Poa, mas grande parte deles se deslocando em calçadas, que apesar da maioria ser de péssima qualidade, são bastante largas. Com esse plano cicloviário implantado, esses ciclistas iriam para as ruas e um verdadeiro boom ocorreria na cidade. O prefeito que tivesse culhão para implantar esse plano cicloviário, poderia até receber uma pressão no começo, mas logo seria considerado um visionário e causaria uma verdadeira revolução na cidade. Não demoraria para ele viajar o mundo, dando palestras, como o Penalosa ou o Jaime Lener.

É  tanta semvegonhice a forma que tratam os ciclistas na cidade que beira a burrice. Se a cidade fosse caótica como São Paulo até daria para entender, mas há espaço, há dinheiro, só não há inteligência, pois uma simples canetada tiraria o Plano Cicloviário do papel.

Se eu fosse dar algum conselho aos ciclistas de Poa, diria que cobrem de todos os candidatos um compromisso com prazos para a implantação do Plano Cicloviário na íntegra. Se eles acham ruim (o que não é verdade) que executem e depois melhorem. Agora se continuarem tratando os ciclistas como idiotas, aí galera… Vocês sabem muito bem o que fazer.

Porto Alegre é linda, uma das capitais brasileiras mais belas que já pedalei, mas isso tem prazo para acabar se a cidade seguir essa linha, em breve será apenas uma mancha caótica como São Paulo e é isso que vocês querem? Sinceramente, não dá para aceitar uma cidade que tem um pôr do sol como esse, deixar ser dominada pela injusta carrocracia que domina esse país.

A chegada em POA (Porto Alegre)

Antes de começar, não deixem de entrar no Catarse do meu livro e dar uma força, estou contando com a ajuda de vocês.

Saímos no dia 24 do Parque Aparados da Serra onde acampamos, embora fosse proíbido. Peço já desculpas pela transgressão, mas estava ficando tarde e não deixamos nenhum rastro de que passamos por lá.

A minha noite foi péssima, a barraca estava molhada das noites anteriores e como meu pé encosta no extremo da barraca, senti meus dedos congelarem, mesmo com 3 meias. Não entendia o motivo, mas de manhã, percebi que a ponta do saco de dormir molhou só por fora e o frio externo foi o suficiente para quase congelar meus pés. De manhã acendi o fogareiro e fiquei quase meia hora fazendo massagem para meus pés esquentarem e voltarem ao normal.

Dia 24 de junho no Brasil é dia de São João, mas também o dia de Quebec, a Vanessa estava toda feliz, disse que a noite iríamos comemorar, pedalou até com a bandeira de Quebec. Em Quebec é feriado, comemoram també o dia de São João e fazem uma imensa fogueira. Pelo jeito as nossas festas juninas e a festa de Quebec tiveram a mesma origem.

Acordamos com uma forte névoa, mas não demorou para o vento levá-la. O dia estava lindo, nenhuma núvem no céu, a partir desse dia seguiríamos só por asfalto, queríamos muito chegar a Gramado nesse dia, mas o ritmo deles é muito lento devido ao peso que carregam.

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O dinheiro de ambos havía acabado e só conseguímos parar para comprar comida em São Francisco de Paula, a 40 kms de Gramado, já eram mais de 16h00 e teríamos que acampar logo que saíssemos da cidade.

Encontramos uma dessas florestas de pinheiros de reflorestamento, havia uma Simbra (porteira de arame) e achamos um bom local para acampar. Como era dia de festa, queríamos fazer uma fogueira, mas como fazer um fogo controlado para não tacar fogo na floresta?

Primeiro achamos o local da fogueira e limpei a área que estava forrada dos ramos do pinheiro, na verdade acho que são as folhas, mas não parecem nada com as folhas que vemos por aí. Depois cavei um buraco de 30 cm e fizemos o fogo dentro, ficou muito bom. Daí só faltava a cerveja, mas olha no que dá deixar um gringo comprar nossas cervejas…

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Deixei a Itaipava com a Vanessa, a Bavaria com o Bertrand e fiquei com a dor de cabeça, como era apenas uma, não tive problemas. Ainda assamos linguiças, comemos pão com gorgonzola, foi uma bela comemoração, até porque seria nosso último dia de pedal juntos.

No dia seguinte queria chegar em Poá, mas eles iriam até Gramado, pois queriam entrevistar o pessoal que organiza o festival de cinema da cidade. De manhã, sob uma forte neblina, me despedi deles já com saudades, espero ter ajudado-os de alguma forma enquanto pedalamos juntos.

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Segui forte rumo a Gramado, queria passar antes deles no Centro de Informações ao Turista (CIT) da cidade, para adiantar ao pessoal o objetivo dos meus amigos canadenses. A neblina era muito forte, as vezes não via mais do que 10 metros, liguei meu pisca e torci para não termos problemas.

Antes passei por Canela, outra cidade turística da região, mas nem tirei fotos, por causa da neblina não via nem minha canela, quanto mais a cidade. Sete quilômetros a frente já estava em Gramado, fui ao CIT e depois ao banco. Lá uma galera de Caxias deu a dica de almoçar num CTG (Centro de Tradições Gaúchas) da cidade, pois no resto da cidade era tudo caro.

Cheguei lá e o buffet livre era 10 reais, boa comida, com direito a sopa, churrasco e sagu de sobremesa. Ótima dica, vou até procurar uns CTGs em São Paulo para experimentar a comida deles. E quando estiver pedalando por terras gaúchas, vale a pena almoçar nos CTGs.

Durante o almoço fiquei conversando com o pessoal de Caxias e eles me sugeriram pedalar até Nova Petrópolis, de lá descer a serra. Teria algumas subidas até 2 Irmãos e depois seria plano até Poa. São 120 kms de Gramado até Poá, já havia pedalado 40 e precisava escolher a melhor rota, a com menos subidas. São várias, então escolhi a indicada pela galera de Caxias.

Logo que saí de Gramado desci de 900 para 500 metros, então peguei um longo vale. Se ficasse assim até Nova Petrópolis, a 30 km dali, seria perfeito, mas chegando na cidade encarei uma longa subida e cheguei a quase 700 metros.

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Essa foi só a primeira roubada, quando entrei na BR-116, despenquei numa longa serra e ao final estava a 80 metros. Achei o máximo, deveria pegar só alguns morrinhos e depois só reta. Mas olhava a minha frente e via uma grande montanha, procurava um vale, ou um espaço mais baixo para atravessar e não encontrava. Não deu outra, foram 6 quilômetros subindo onde cheguei a mais de 500 metros, como xinguei a galera de Caxias, rs.

Xinguei naquelas, eles não são ciclistas e não conseguem avaliar uma subida de carro, e diferente das serras catarinenses, ou mesmo das paredes que ficam entre a Serra do Mar e o litoral, essa serra a caminho do sul vai diminuindo aos poucos, então num trecho de 60 quilômetros, tem muitas montanhas no caminho e elas vão ficando menores, conforme se aproximam de Porto Alegre.

Depois de Dois Irmãos ainda peguei uma longa subida, eram 17h30, já havia pedalado 110 kms e ainda restavam 50 kms até Poá. Iria pedalar de noite mesmo e como a fome estava apertando, parei numa Lancheria (como os gaúchos chamam as lanchonetes) comi um sanduiche com queijo e uma torrada. Torrada é uma espécie de misto quente no pão de forma, mas turbinado, com alface e ovo, muito comum no Rio Grande do Sul. Claro que a coca não pode faltar.

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Ainda ganhei um café quentinho do seu Nilton, dono da lancheria e segui forte até Poa. Pedalando de noite na BR e claro, apesar da velocidade máxima ser 80 km/h na expressa e 60 km/h na local, poucos eram os carros que andavam dentro dos limites, todo cuidado era pouco.

Pra piorar, peguei um caminho errado e fiquei pedalando num trecho de 5 Km de BR sem acostamento, tendo um muro da linha do trem ao meu lado, sendo que do outro lado do trem havia uma pista mais tranquila. Aqui como em qualquer cidade brasileira, eles ligam o foda-se para o ciclista e o pedestres nas rodovias, então tive apenas que me concentrar no pedal e torcer para nenhum Neis da vida passar por cima de mim.

Sobrevivi e quando ví já estava as margens do Guaíba, cheguei em Poa por volta das 21h00. Fui recebido pela Livia (@bikedrops), ciclista gaúcha que conheço há um bom tempo apenas pela internet, mas finalmente nossa amizade evoluiu do virtual para o real.

Hoje é dia de arrumar as coisas, lavar roupas, dar uma geral na bike antes do retorno e conhecer a cidade, não vou deixar de dar um belo passeio por Porto Alegre e amanhã encerro a viagem com minhas impressões daqui.

Itaimbezinho numa palavra. Ducaraleo!

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Primeiro dia de descanso total da viagem, descanso meio forçado, pois devido ao tempo ruim e a boa previsão para os próximos dias, resolvemos ficar mais um dia em Cambará do Sul, esperando boas condições de teto.

Ficamos na pousada Simone, 30 reais por cabeça, local simples mas confortável, Cambará é a cidade que você deve ficar para conhecer a parte de cima dos Canions do Parque Aparados da Serra, você pode descer a serra e a partir da cidade de Praia Grande, desbravar o interior dos Canions.

Saímos por volta das 11h00 de Cambará, não saímos antes pois o tempo amanheceu frio, só depois das 10 é que o céu abriu de vez. De Cambará até a entrada do Parque são 17 kms. Eu queria ir no Canion Fortaleza, mas são 20 kms e não é possível ir de um Canion para o outro, sem voltar a Cambará, então decidi ir ao principal, Itaimbezinho.

A estrada é de terra, o trecho de asfalto tem menos de 1 km, nem dá para considerar. De lá teríamos que voltar na estrada uns 7 kms e pegar uma estrada de terra para sair na RS-020, mas em Cambara, um pessoal disse que dá para cortar por dentro do parque e sair bem a frente na 020.

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Chegamos no Parque e já fiquei feliz pois aqui o pessoal é vacinado contra a Bikefobia. São 6 reais por pessoa para entrar no parque mais os veículos, carro é uns 10 reais, motos e similares 3 reais. Só pagamos a entrada e de bike ainda podemos pedalar pelas trilhas do parque.

Entramos pedalando e fomos até a administração, lá conversamos com o Kempes e ele liberou nossa travessia pelo parque quando fossêmos embora, muito legal mesmo o apoio e o bom senso deles.

São duas trilhas, uma curta de 500 metros, a mais visitada e outra mais longa, de 3 mil metros, fomos de bike para essa trilha pois de lá era só seguir em frente que sairíamos na rodovia.

A primeira trilha já é muito bonita, bem sinalizada, com vários mirantes e um visual maravilhoso. Canions com uns 300 metros de despenhadeiro, embora o parque inteiro tenha canions maiores, de até 1000 metros, aqueles alí não deixam de ser impressionantes.

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Percorremos a trilha mais curta a pé e deixamos nossas bikes do lado da administração, nem me preocupei em trancar a bike, fui na confiança e para variar, ninguém tocou nas bicicletas.

Voltamos para a administração, pegamos as magrelas e seguimos para a outra trilha que também tem um visual imponente, muito lindo.

Tiramos várias fotos, nesse outro mirante o Bertrand e a Vanessa fizeram uma pequena entrevista comigo para o documentário que eles estão produzindo. Falei sobre a bicicleta no Brasil, um pouco da minha luta por melhorias e valorização do ciclista, espero que a galera do Canadá tenha uma visão mais próxima da realidade sobre o nosso Brasil.

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Percorremos um pouco mais da trilhal sempre na beira dos precipícios, tirando uma foto mais bela que a outra.

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Depois seguímos pela estrada, atravessamos uma porteira que é o limite até onde os visitantes podem ir e rumamos até a guarita. Já eram 17h00 e tinhamos menos de uma hora de sol, assim que passássemos a guarita nós começaríamos a procurar lugar para acampar.

Na guarita descobrimos que mesmo após a cancela, ainda estávamos em área do parque, portanto não poderíamos acampar, mas o guarda nos disse para pedalar uns 2 kms, até a primeira estrada a direita, onde haveria uma casa e nos deixariam acampar.

Seguimos em frente e encontramos uma estrada bem cascalhada, atravessamos uma simbra (porteira de arame) e encontramos uma longa descida, mas nenhuma casa no horizonte. Se descêssemos e não achássemos a casa, iríamos acampar ali mesmo e não deu outra. Lá em baixo a estrada sumia antes de um córrego e armamos nossa barraca atrás do morro.

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A lua crescente fazia sombra em mim, apesar do frio de lascar, não havia uma nuvem no céu, inteiramente estrelado. Sob esse céu fizemos uma sopa no pão, queríamos comer uma sopa em Cambará, como estava muito caro, compramos um sopão, um pão sovado no mercado (não tinha italiano) e improvisamos. Usei o resto de um pão que comprei há 3 dias e funcionou, comi toda a sopa e todo o pão.

Agora estamos entrando na reta final do Financiamento Coletivo do meu livro. Peço novamente a ajuda de vocês, a partir de 20 reais já dá ajudar. Se ainda não ajudou, vamos lá, entre na página do Catarse e colabore, até o dia 30 preciso atingir essa meta e acredito muito na ajuda dessa galera que há tempos me acompanha.

André Pasqualini

Boas vindas gauchas, mão na cabeça e documento.

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No Brasil, se existe uma Instituição que não serve pra nada, é a polícia militar. Tirando a Policia Federal, a investigativa e não a rodoviária, que não fede nem cheira, nenhuma outra instituição policial tem o meu respeito e me desculpem os bons policiais, pois infelizmente vocês são minoria.

O que mais me revolta é o preconceito e a diferença de tratamento que a população recebe dessa instituição. A polícia pode até ser boa para quem tem dinheiro, mas uma instituição que não trata as pessoas como iguais, pra mim não serve pra nada.

Há dois dias encontrei um casal de canadenses que irão dar uma volta pelo Brasil. Chegaram em Florianópolis, subiram a Serra do Rio do Rastro e seguiram ao Sul, rumo ao Vale dos Vinhos na Serra Gaúcha. Depois eles seguirão rumo a Foz do Iguaçu, Pantanal, Mato Grosso, Brasília (incluí o Jalapão na rota deles), Amazônia, finalizando um pedal pela costa brasileira até o Rio de Janeiro.

Um projeto lindo, uma oportunidade de levar informações do Brasil e conhecimentos da nossa cultura para a terra deles. Nem preciso dizer que enquanto eles estiverem no Brasil serei padrinho deles.

Nem preciso dizer também o quanto de terror colocaram neles sobre o Brasil, violência, assaltos, essas coisas ruins que tanto falam de nós lá fora, mesmo assim eles vieram para o Brasil. O dia de ontem ocorreram várias coisas, meu bagageiro quebrou, depois meu cambio, começou com um sonho horrível, mas irei focar apenas sobre o momento de pânico (deles) e revolta (minha) que vivemos.

Assim que passamos em frente a uma fábrica de celulose a 15 kms de Cambará do Sul, um comboio com uns 2 caminhões e vários carros sendo duas viaturas da polícia rodoviária passaram por nós. Mais tarde viemos a saber que se tratavam de cigarros apreendidos que seriam incinerados.

Passando a fábrica encaramos uma longa subida e meus amigos canadenses estavam empurrando a bicicleta quando o comboio começa a retornar. Passaram os carros da receita federal e atrás as duas viaturas, uma foi em frente e a segunda parou. Achei que seriam como os policiais rodoviários de Santa Catarina, que haviam nos visto pedalando várias vezes durante o feriado, nos monitorando para saber se estava tudo bem conosco e ainda nos deram várias dicas sobre a região.

Antes de continuar, vou contar a minha situação. Meu cabelo esta comprido, não corto tem uns 6 meses e prometi ao meu filho que só iria cortar quando eu resolvesse nossa situação, portanto, promessa pra filho é divida. Já a barba eu deixei crescer desde que decidi vir pra cá para ajudar a suportar o frio, portanto estou quase um hippie. Mas quem me conhece sabe que, apesar da cara de maluco, a única droga que uso é a legalizada, a famosa cervejinha.

Voltando a abordagem, os policiais desceram da viatura, com armas em punho gritando – “MÃO NA CABEÇA! DOCUMENTOS!”

Imaginem como meus amigos ficaram, eles já são brancos, ficaram parecendo fantasmas. Eu fiquei muito puto e parece que essas coisas tem que ocorrer comigo, nada de conversa, apenas uma truculência totalmente desnecessária.

Fiquei revoltado e deixei claro que assim estava, questionei o porque daquela abordagem, perguntaram de onde éramos e eu disse que eles eram canadenses e eu de São Paulo. Disse que já pedalei no Brasil inteiro e nunca fui abordado assim, e ainda ouvi do policial que os Paulistas acham que o mundo gira ao nosso redor. Só faltava essa, declaração bairrista.

Não estava comparando essa abordagem com a da policia paulista, que não é nada santa, mas nem na Bicicletada Interplanetária de 2008 agiram assim. Comparava com a abordagem dos Matogrossenses e da polícia de Tocantins que apesar de ridícula, longe de ser truculenta.

Foram várias pérolas que eles mandavam, disseram que primeiro eles abordam com truculência (tratam como bandido) e depois tratam normalmente. Agora se eu tivesse numa mclaren como o Thor, será que teria esse tratamento? Perguntei se era assim que eles tratavam turistas e me disseram – “Você não é turista!” – Ah, mandaram aquela normal do “fazemos isso pela sua segurança” – Vá a merda, corto minhas bolas fora se eles dariam o mesmo tratamento se eu estivesse de cara limpa e num carro de bacana. Preconceito puro.

Fiquei com vergonha, meus amigos estavam em pânico, olha só a imagem que eles estavam recebendo do nosso país, será que esse é algum treinamento especial para a copa do mundo? Ainda tiveram a coragem de dizer que no mundo inteiro a polícia age assim. Vá a merda novamente, jamais eu receberia um tratamento estúpido e humilhante dessa maneira se estivesse no Canadá.

Sou paulista, cresci e vivi na periferia e sei muito bem como o pobre é tratado pela polícia e infelizmente, apesar de continuar achando isso um absurdo, estou acostumado. Mas eles jamais passaram por uma situação como essa e por isso sinto pelo quanto eles ficaram assustados.

Ah, perguntei – “Se nós somos tão perigosos, porque não nos abordaram quando nos viram pela primeira vez? A resposta é que eles estavam escoltando uma carga importante, ou seja, depois do trabalho vamos tirar uma onda com os ciclistas ali.

Não tirei fotos dos PMs, até porque, apesar dessa abordagem não ter sido algo que venho de cima, (duvido que houvesse alguma denúncia de cicloterroristas na estrada), sei que se esses PMs receberem ordens para beijar nossas bundas, é isso que eles fariam, portanto a culpa não é deles em especial, mas da Instituição que eles representam.

Não fui o único a me revoltar, mas todos os gaúchos que contamos o ocorrido tiveram o mesmo sentimento. Disse aos meus amigos canadenses, que se eles tiverem algum problema, jamais procurem a polícia, infelizmente não podemos contar com eles, pois no Brasil, a polícia não serve a toda a população e sim a uma pequena parcela.

Mas caso eles tenham algum problema, seja lá qual for, eles poderão sempre contar com o povo brasileiro, esse sim estará preparado para acolhe-los e ajudá-los. Seja lá onde eles estiverem, seja no Rio Grande do Sul, seja na Amazônia ou no Vale do Jequitinhonha, povo igual ao brasileiro não há. Não considerem esse ato isolado como padrão de um povo, apesar do Brasil ser um país fantástico, nem tudo é perfeito e a polícia é apenas mais uma das Instituições que nenhum brasileiro consegue se orgulhas.

Durante minha viagem fui abordado duas vezes por PMs, apesar de receber duas abordagens ridículas, ao menos os policiais do Mato Grosso e de Tocantins foram educados, nada de truculência, nada de abuso de autoridade. Nada de “tratamento especial” como esses PMs disseram para dar ao meu documento.

Ao mesmo tempo que tenho orgulho de ser brasileiro, tenho muita vergonha de algumas instituições que temos, mas a vida é assim e enquanto estiver vivo não conseguirei me calar contra qualquer atitude estúpida dessa ou de qualquer outra instituição. Um dia, ou perdem a paciência comigo e colocam uma bala na minha cabeça, ou nossos governantes tomarão vergonha na cara para refundar essa falida instituição que é a polícia militar.

André Pasqualini

As lembranças do Cicloturista

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“Você vai viajando e pegando lembrancinhas dos lugares que você passa?” – Pergunta do Gleisson, garoto de 13 anos, morador de Varzea Grande, vila gaúcha na divisa com Santa Catarina.

“Lembranças são as fotos e as pessoas. Daqui a uns 20 anos irei lembrar daquele garoto de uma vilinha no meio da serra, bem na divisa do Rio Grande do Sul, que me deu um pouco do seu refrigerante. Quer lembrança melhor do que essa?”

Custei a levantar, o pedal do dia anterior foi castigante e no dia seguinte teria mais de 80 kms até São José dos Ausentes. Quebrado, com a grana curta, antes de sair coloquei meu celular para tocar as 16h00, não importa onde estivesse, tocando o celular eu iria começar a procurar um lugar para acampar.

Queria pegar a Rota dos Canions, mas ninguém sabia dizer exatamente onde era. Tem uma estrada que vai para São José dos Ausentes pelo meio da serra, mas tem outra estrada que segue mais próximo aos canions, como não havia sinalização, segui pela principal, que é asfaltada só no começo, pelo menos é na subida, um desnível de 200 metros.

Na saída havia uma placa informando que o Parque Eólico ficava a 18 kms. Pedalei um pouco e logo avistei as lindas turbinas, queria chegar pertinho, então subi novamente o morro.

O problema é que a sinalização é péssima, subl desci e quando eu vi, havia passado uns 2 kms da entrada do Parque Eólico, então segui em frente, tive que me contentar com as fotos das turbinas de longe.

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O trajeto não tinha subidas tão longas com o de ontem, mas era um constante sobe e desce. Apenas curti o pedal, pedalando sem muito compromisso, tentando girar leve para descansar as pernas.

Comecei a ouvir barulhos estranhos da corrente, ao invés de parar e verificar, segui pedalando, até que a corrente abriu, por sorte estava muito devagar. Consertei, passei um óleo e segui em frente, mas a corrente abriu novamente, dessa vez estava fazendo força no pedal, acabei tomando uma cacetada na canela. Tirei um elo da corrente e os problemas acabaram.

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Cheguei na divisa dos estados, uma longa descida, um rio e uma vila. Disseram que ali haveria um boteco, era alí que compraria minha desejada coca cola para tomar junto com os lanches de pão com goiabada que eu fiz lá na pousada.

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Entrei na vila e nada de boteco, vi dois garotos de bicicleta que me disseram que o bar estava fechado. Um dos garotos ficou babando na bicicleta, já comentou do freio a disco. Não teve como não se lembrar do garoto de Santa Terezinha, em Tocantins, que ficou babando na minha bicicleta e até sonhou que estava pedalando e apertando os freio a disco. No meu blog tem essa história, mas ela esta bem mais detalhada no meu livro (olha aí mais um motivo para você comprar).

Eles falaram para eu voltar e procurar outra venda, mas também estava fechada. Quando estava me preparando para sair da Vila o Gleisson venho até mim. Pedi água e ele me levou até a sua casa, meus planos era subir o morro e fazer meu almoço lá em cima. Foi quando ele perguntou – “Você quer um pouco de refrigerante?”

Puxa, que honra, pode parecer uma coisa besta mas achei o máximo ele me oferecer seu refrigerante. Expliquei para ele que esses refrigerantes, principalmente a coca-cola, quase metade deles são de açucar, o que faz mal para as pessoas sedentárias, mas para um ciclista na estrada, esse açucar dá uma energia extra, por isso queria tanto uma coca, para mim, ela hidrata e dá mais energia do que qualquer isotônico.

Ficamos de papo enquanto eu comia, estava óbvio que ele queria saber de tudo sobre minha bicicleta e sobre a viagem. Sempre causamos fascínio nas crianças, pois além da bicicleta ser o sonho de independência de qualquer criança, ao nos ver desbravando o mundo, elas tomam ciência de que
esse sonho é mesmo possível.

Saí de lá realizado, por mais que o trajeto não foi espetacular como nos dias anteriores, ganhei meu dia. Pedalei mais 15 quilômetros, estava a 30 de São José dos Ausentes quando o alarme do celular tocou. Estava perto do Pico Monte Negro, o ponto mais alto do RS, pensei em pedalar até lá mas a neblina estava avançando e seria perda de tempo.

No caminho encontrei a Pousada Monte Negro, pedi uma ajuda e deixaram eu acampar lá. Sem sinal de celular, armei acampamento, tomei banho, comi dois miojos e as 19h30 já havia terminado meu texto do dia e o sono batia na porta. Dormi e torci para o dia seguinte estar aberto para visitar o Pico Monte Negro.

Passei muito frio de noite, uma fina garoa, vento, noite nem tão agradável mas consegui dormir. De manhã, enquanto estava arrumando minha bike, já desanimado pela neblina que me impediria de ver o Pico Monte Negro, surgi um casal de Canadenses, são Bertrand e Vanessa, que desembarcaram dia 27 de maio em Floripa e que pretendem fazer um pedal de no mínimo 6 meses pelo Brasil.

História maluca a deles, levaram dois anos se preparando para um pedal na Russia, a idéia deles é pedalar por todos os países que terão Jogos Olímpicos (Russia terá Jogos de Inverno daqui a dois anos) até russo aprenderam, mas na hora de viajar tiveram problemas com o visto. Daí resolveram mudar o roteiro e vieram para o Brasil.

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De Santa Catarina, vão descer até as Serras Gaúchas e subir até o Pantanal, depois Floresta Amazônica, costa brasileira e Rio de Janeiro, cidade que receberá os Jogos Olímpicos de Verão. Quais as chances dele encontrarem no meio da viagem deles, um cicloturista que já havia passado pelo Pantanal?

O papo foi longe, a Vanessa engana num espanhol, já o Bertrand só entende. Eles até falam inglês, mas a lingua deles é o Francês, pois são de Quebec.

O trajeto até São José dos Ausentes é bem tranquilo, longos trechos planos, poucas subidas, estrada bem compacta e chegamos lá ao meio dia. Almoçamos numa churrascaria e seguimos em frente, rumo a Cambará do Sul. O ritmo deles é mais leve que o meu, mas também… O Bertrand carrega 60 e a Vanessa 50 quilos, olha que eles subiram a Serra do Rio do Rastro com todo esse peso!

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Pegamos um trecho ruim, muita névoa, uma fina garoa que deixava a pista um sabão. A Vanessa caiu uma vez, já eu fui pro chão umas 3 vezes. Não chegaríamos de dia em Cambará, então as 17h00, passamos a procurar um local para acamparmos, encontramos um lindo rio e armamos nosso acampamento a beira dele.

Fizemos uma fogueira e a Vanessa fez um macarrão com direito a cebola e pimentão. Comemos em volta da fogueira que se sustentou firme e forte, mesmo com uma fina garoa e seguimos para nossas barracas. Antes eles me mostraram um livro que o Bertrand fez depois de uma cicloviagem que ele realizou pelo Canadá do Atlântico ao Pacífico.

Pedalamos até Cambará e vamos ficar por aqui, mas sobre o absurdo que aconteceu hoje conosco, deixo para o próximo post.

E vamos lá pessoal, me ajudem no financiamento coletivo do meu livro, se cada um que acessar o blog deixar vinte reais, em um dia eu consigo alcançar a meta com folga. Leiam o primeiro capítulo que disponibilizei na página do livro, se não gostarem nem precisa comprar. Mas tenho certeza que vai bater a curiosidade e vontade de ler mais. Conto com vocês, um livro paga uns 20 miojos da minha viagem, combustível para poder levar a vocês cada vez mais novidades desse nosso Brasilzão. ;)

André Pasqualini