Dia do Desafio do 1º DBM em 2012, cerca de 150 ciclistas

Dia do Desafio do 1º DBM em 2012, cerca de 150 ciclistas

Em meados de 2011, eu (André Pasqualini) estava pedalando com um grupo de amigas, todas iniciantes no mundo do pedal, pela Ciclovia da Marginal Pinheiros em São Paulo. Contava a elas algumas histórias sobre aquela ciclovia, quando disse que dali partia uma Rota Cicloturística (a Rota Márcia Prado) que levaria o ciclista até a cidade de Santos. Ao mesmo tempo que os olhos delas brilharam, seguiu-se um sentimento de frustração, como se tal feito fosse algo impossível de ser feito, foi quando lancei o Desafio:

“Escolham uma data com um mês de antecedência que eu as treino e TODAS chegarão a praia”

Sempre defendi a tese de que qualquer pessoa pode pedalar ou realizar cicloviagens como as minhas. Até é possível pegarmos alguém sem nenhuma experiência no pedal e jogá-los na estrada que de uma forma ou outra essa pessoa chegará à praia. O problema é que o sacrifício seria tão grande para a maioria que a viagem ficará mais marcada pelo sofrimento do que da conquista.

A própria fórmula do Desafio foi inspirada na minha experiência de vida, narrada em meu primeiro livro, “Primeiro passo para uma grande conquista… Sonhar”. Depois de uma curta experiência com bicicleta por volta dos seis anos, aos dezenove tirei minhas férias e comprei uma bicicleta. A partir de então aproveitei o mês de férias para me aventurar nas ruas de São Paulo, primeiro fiz pedais de 10 quilômetros, depois 20, 50. Em duas semanas já tinha conseguido fazer um pedal de 100 quilômetros, claro que minha juventude ajudou muito.

Treino dominical pelas (na época escassas) Ciclovias e Ciclofaixas de São Paulo, em abril de 2012

Treino dominical pelas (na época escassas) Ciclovias e Ciclofaixas de São Paulo, em abril de 2012

Com o DBM a lógica seria parecida, primeiro organizei uma série de pedais aos domingos e divulguei em meu blog para quem quisesse participar, isso fez com que cada treino tivesse uma média de 20 ciclistas. A cada domingo os treinos ficavam mais complexos e com maiores dificuldade. Outra amiga, impossibilitada de participar dos treinos de domingo, pediu para treiná-la as terças e quintas de noite, no começo era só pra ela, mas próximo ao dia do primeiro Desafio, resolvi abrir esses treinos a todos, como fazia nos de domingo, foi assim que nasceu os treinos noturnos.

No dia do grande Desafio, 15 de abril de 2012, cerca de 150 ciclistas (mais da metade iniciantes no pedal) conseguiram vencer o Desafio e chegaram à praia.

Nem bem acabou o primeiro Desafio e foi criado um grupo no Facebook que já deu início as discussões do 2º DBM. O grupo foi uma excelente oportunidade de debater os erros e pensar nas possibilidades de se realizar algo mais organizado e que principalmente trouxesse mais segurança aos participantes, com isso a cada edição tivemos melhorias e teste de novas fórmulas. No próprio grupo nasceu a ideia de se cobrar um valor para inscrição para a compra de camisetas, sinalização arcar com os custos de apoios aos ciclistas.

Em agosto de 2012, com uma cobrança de R$50,00 (não obrigatória), cerca de 280 ciclistas e mais uma vez todos chegaram à praia.

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Dia do Desafio do 2º DBM, na Estrada de Manutenção do Parque da Serra do Mar, pedalando ao lado dos viadutos da Imigrantes

“Meu desafio começou no primeiro desafio, eu sofri demais. Cheguei ao final com um palmo de língua pra fora e decidido a voltar e chegar como eu vi alguns, cansados mas vivo. Depois de recuperado larguei o meu carro, passei a pedalar 45km todos os dias, emagreci uns 15kg, fui para Sorocaba que foi um sonho maior que o de ir ao mar, pois vivi minha infância toda em Sorocaba e chegar lá de bike foi maravilhoso. Ontem consegui descer sem ficar parando de poste em poste, não bebi toda a água de todos os bares do caminho, cheguei em Santos 2 horas mais cedo que da outra vez e inteiro. Hoje cedo me deu vontade de vir de carro trabalhar, mas não me entreguei, pois já tenho outro desafio em mente, perder mais 30kg e chegar lá sem por o pé no chão.

Eli Aguero

“Meu coração está aberto desde o primeiro contato que fiz com essa turma, foi quando encontrei com Marcelo Nahoum na bicicletada e comentei minha vontade de descer. Ele me passou o contato e dai já me joguei. Desde no meu primeiro passeio fui incentivada, estava com grande receio de não conseguir completar o percurso e atrapalhar toda a turma, mas ai um anjo disse: – você consegue o passeio é tranquilo e me passou tanta confiança e lá fui eu.

Bica com água potável na Estrada de Manutenção, dentro do Parque da Serra do Mar

Bica com água potável na Estrada de Manutenção, dentro do Parque da Serra do Mar

Dai comecei a conversar com um e com outro e com outro e fluiu uma troca de energia tão gostosa que os treinos passaram-se a se tornar encontros, diversão garantida e overdoses de incentivos, não posso negar que fiquei apavorada com a 1ª. ladeira e que até precisei empurrar a bike, mas mesmo assim fiquei feliz, foi minha primeira volta fora do percurso Ibira – Villa Lobos, daí pra frente, vi que realmente havia sido contaminada pela “biketeria” e quero viver muito mais experiências como essas, pois cada uma terá sua magia e superação.

Não da pra citar nomes, mas queria deixar meu agradecimento a cada um que fez parte desde grupo tão bonito e que me ensinou que uma LADEIRA é somente uma forma de chegar ao TOPO e ver coisas BELAS… Não posso conter minha emoção neste momento, foram muitos momentos bons, de união e solidariedade. QUERO MAISSSSS !!!!!!

Renata Finoti

Esses são alguns dos breves relatos de alguns Desafiantes, para ler mais relatos clique nesse link aqui.

Já o 3º Desafio foi a prova de que é possível realizar um evento com centenas de ciclistas de forma organizada e segura. Essa edição teve mais de 300 inscritos e para aumentar o Desafio, durante os treinamentos ocorreu a interdição da Estrada de Manutenção da Imigrantes devido a um desastre natural ocorrido em fevereiro de 2013.

Estrada da Manutenção em 2013, depois de uma série de deslizamentos

Estrada da Manutenção em 2013, depois de uma série de deslizamentos

Como a descida para praia deveria ocorrer de qualquer maneira, o trajeto do dia da descida foi alterado para a Rodovia Oswaldo Cruz que liga as cidades de Taubaté até Ubatuba. Cerca de 120 ciclistas participaram dessa descida sendo que metade deles realizou uma verdadeira Cicloviagem partindo de São Paulo até Taubaté e no dia seguinte de Taubaté até Ubatuba.

Além da criação dos Guias, nesse DBM ocorreu a participação de dois hand-bikes que chegaram à praia

Além da criação dos Guias, nesse DBM ocorreu a participação de dois hand-bikes que chegaram à praia

Nessa edição nasceu também a categoria dos Guias, que foi criada para atender uma demanda dos ex-desafiantes que não queriam ficar de fora das futuras edições dos DBMs. O interessante da categoria de Guias é que eles não precisam ser experts no mundo da bike mas sim “experts em DBMs”. Quem melhor para orientar e dar aquela força para um Desafiante senão alguém que a poucos meses passou por situação parecida? Outra novidade foi a participação de dois “hand-bikes”, cadeirantes que usam uma bicicleta especial e para a felicidade do grupo ambos conseguiram chegar à praia.

O 4º e 5º DBM foram realizados testes para a montagem de grupos menores e onde foi inserida a Avaliação dos ciclistas. As avaliações são importantes para que os grupos sejam formados de forma coesa e homogênea. Também foi criada a categoria de Tutor, ciclistas mais experientes que são responsáveis por definir os trajetos dos treinos noturnos e principalmente motivar seus Desafiantes a chegarem à praia.

Encarando as subidas de São Roque, último treino antes do dia do Desafio

Já o 6º DBM houve outra novidade, ao invés de descermos a serra pela Estrada de Manutenção, conseguimos uma autorização e descemos pelo Caminho do Mar, também conhecida como Estrada Velha de Santos. O que aprendi com essa edição é que essa fórmula do DBM pode render dinheiro, consequentemente cobiça, o que pode levar a destruição do “Espírito do DBM”.

Dentro do Pouso Paranapiacaba, no alto da estrada Caminho do Mar

Dentro do Pouso Paranapiacaba, no alto da estrada Caminho do Mar

Desde o início me incomodei com a cobrança de inscrições, pois como cicloativista, acredito que devemos tirar do caminho dos ciclistas iniciantes tudo que for complicador, já basta nossas cidades para desestimular alguém a pedalar, o dinheiro não pode ser mais um, mas o próprio DBM tinha custos que precisavam ser bancados de alguma forma. Tanto é que nunca cheguei ao final de um DBM com dinheiro no bolso, um ótimo exemplo foi o 6º DBM, que me deixou com um prejuízo maior que dez mil reais, turbinados pela disputa de egos e cobiça.

Depois de tantos problemas, tomei uma decisão de que jamais organizaria outro DBM com cobranças, mas ai esbarrei diretamente na falta de um trajeto, em São Paulo, que nos leve ao litoral em segurança, a não ser passando por dentro dos Parques geridos pela Fundação Florestal, órgão ligado ao Governo do Estado de São Paulo. Depois de muitas conversas consegui as autorizações para passar por dentro do parque, pra isso somos obrigados a pagar, tanto o parque (cerca de 30 reais por pessoa) como um plano de contingência/emergência. A solução momentânea é cobrar o suficiente para cobrir com esses custos, no futuro, quem sabe, podemos batalhar um patrocinador que arque com todos esses custos, assim poderemos fazer um evento realmente gratuito. Mas pra isso é necessário que os próximos eventos realmente sejam um sucesso e é nisso que estamos trabalhando.

Também iremos trabalhar na produção de um aplicativo do DBM, a forma mais fácil de levar o DBM a qualquer pessoa, sem se limitar a cidade de São Paulo. A partir de julho de 2016, daremos início ao projeto Brasil em Ciclos, uma cicloviagem onde entre vários projetos, pretende levar o DBM a todas capitais brasileiras. Muito provavelmente, na mesma época em que estará acontecendo o DBM São Paulo, estaremos em Curitiba trabalhando também no DBM local, lá o Desafio será chegar em Morretes, pela Estrada da Graciosa.

Os próximos passos dessa história devem ser escritos em breve e espero não apenas voltar para escrever sobre a consolidação do DBM, como sua expansão a todo o Brasil.

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