Estive na inauguração do trecho dois da Ciclovia da Marginal Pinheiros em São Paulo no dia 10 de fevereiro de 2012. A Ciclovia ganhou mais 5 quilômetros e um novo acesso junto a cidade universitária. Vou então complementar a minha matéria, pois durante a inauguração recebi algumas informações importantes. Vou complementar esse texto com as novas informações, portanto vale a pena conferir as novidades.
Em setembro de 2011 publiquei nesse blog que essa segunda fase seria entregue em dezembro de 2011, teria mais acessos e iria até a Estação Jaguaré, com um acesso junto ao Parque do Povo. Ocorreram algumas mudanças, tanto em competências do projeto como nos prazos e vamos a elas.
Participação da Prefeitura de São Paulo na Ciclovia da Marginal Pinheiros.
Hoje a ciclovia tem dois pais, não apenas a CPTM como a Prefeitura de São Paulo também é responsável pela Ciclovia. Isso porque, devido a lei municipal do Polo Gerador de Tráfego, foi imposta a WTorre, que atualmente tem uma grande obra ao lado do Parque do Povo, o asfaltamento da ciclovia a partir da estação Hebraica até o Jaguaré e a construção de um novo acesso, ligando o Parque do Povo a Ciclovia.
O prazo total para execução do asfalto é de 3 meses, sendo que 30 dias era apenas o trecho até a Ponte Cidade Universitária, algo já finalizado desde o dia 01 de fevereiro. Isso nos leva a crer que até o final de abril, o asfalto até a estação Jaguaré também será entregue.
Já o acesso a ciclovia, junto ao Parque Villa Lobos ainda esta em fase de projetos e aprovações junto a prefeitura de São Paulo. Como o projeto final do acesso ainda não foi definido por questões burocráticas, a WTorre não pode apresentar imagens dele, tão pouco estipular um prazo, mas assim que tiver novidades atualizo o texto aqui.
Novos acessos
Nessa segunda fase da expansão da Ciclovia foi previsto cinco novos acessos, Santo Amaro, Morumbi, Parque do Povo, Cidade Universitária e Parque Villa Lobos. Dos cinco apenas dois estão finalizados, Santo Amaro, que já foi entregue no começo de janeiro e Cidade Universitária, que será entregue no dia 10 de fevereiro.
O acesso do Parque do Povo, responsabilidade da WTorre, como já disse acima, esta ainda em fases de autorizações e projetos, já o acesso junto a estação Morumbi da CPTM e o que ligará o Parque Villa Lobos a Ciclovia, ambos tiveram atrasos no projeto mas já estão sendo fabricados.
Toda a estrutura dos dois acessos são fabricadas fora e montada no local. Não me precisaram nenhum prazo, mas se nenhum problema novo ocorrer, tudo indica que até o final do primeiro semestre os novos acessos sejam implementados.
Informação nova: Na foto acima temos a Renata Falzoni conversando com o Walter Torre da WTorre. Ele nos disse que propôs a prefeitura, entre as diversas propostas, construir acessos a Ciclovia junto com TODAS as pontes do Rio Pinheiros, mas que essas propostas foram rejeitadas pelos técnicos da CET.
Desde que comecei a lutar por essa ciclovia, sempre pedimos para usarem as estações da CPTM e as pontes como forma de acesso a Ciclovia. Esse uso pode inclusive resolver o grave problema que os ciclistas e pedestres encontram para atravessar as pontes de São Paulo. A WTorre, apesar da obra que eles estão realizando ser uma compensação da Lei do Polo Gerador de tráfego, , ele havia proposto construir rampas em todas as pontes por conta, sem que fosse uma compensação.
Também reclamou pelo tratamento diferenciado que seu empreendimento está recebendo. Ele apontou 3 prédios ao lado do dele que não vão precisar fazer compensação nenhuma e que pela lei. Não reclama em fazer a compensação, mas reclama de ser o único empreendimento da região obrigado a fazer, o que eu também considero um absurdo.
Bases de Apoio
Seriam 4 novas bases, em Santo Amaro, Cidade Jardim, Cidade Universitária e Villa Lobos. A única que ainda não está pronta é a do Parque Villa Lobos que deve ser entregue quando o asfalto chegar ao final da Ciclovia.
Estou conversando com a CPTM sobre uma maneira de ceder as bases de apoio para Ongs que tenham algum envolvimento com bicicleta. Com isso elas poderão explorar as bases, não apenas prestar serviços aos ciclistas, como oferecer, alimentação, bebidas, para quem usa a Ciclovia. Isso é algo visto com bons olhos por parte da CPTM e estão estudando as questões legais para sua viabilidade.
Asfalto
Uma das maiores reclamações dos ciclistas era em relação a aderência do asfalto em dias chuvosos, pois a pintura usada na primeira fase da Ciclovia não é a mais adequada para ciclovias. Já nessa nova fase, usaram uma tinta certificada pela CET com antiderrapante.
Quando realizamos a última vistoria no início do mês, observamos a pintura e o técnico responsável mostrou inclusive um resíduo brilhante que era o antiderrapante. Eu não testei na chuva, mas um amigo ciclista disse que acessou a ciclovia logo após uma forte chuva e que o piso se mostrou bem mais aderente que o antigo.
Atualmente a CPTM esta a procura de patrocinadores que possam pintar o asfalto do trecho antigocom essa tinta certificada.
Iluminação
Esse é o ponto mais complicado, sei que a CPTM já possui um orçamento (ainda não sei o valor) para a instalação de cerca de 700 postes de iluminação, como aquele que foi colocado em fase de teste na estação Jurubatuba, movidos a energia eólica e solar.
O problema é que até onde sei, a CPTM está a procura de patrocinadores para a instalação dessa iluminação. Penso que se conseguirem patrocinadores, maravilha. Agora se não conseguirem, o governo tem que bancar a instalação dessa iluminação, pois isso trará um imenso ganho para a cidade, pois a Ciclovia poderá ser utilizada como lazer nos períodos noturnos e terá seu caráter de transporte consolidado em definitivo.
Segurança
Recentemente houve casos de assaltos dentro da Ciclovia e ocorreram num único ponto onde há uma falha na proteção, não apenas da Ciclovia como do sistema de trens. Junto a ponte Interlagos há uma forma das pessoas acessarem a linha do trem chegando muito próximo da Ciclovia. Alguns bandidos se aproveitaram da situação e realizaram dois assaltos e o foco deles eram bicicletas de estrada de alto valor. Uma das bicicletas roubadas custava 8 mil reais.
Os bandidos aguardaram a ronda passar e sabendo que levaria um bom tempo para ela percorrer a Ciclovia e voltar, assaltaram o primeiro ciclista que passou depois da ronda. Nem invadiram a ciclovia, pela grade, apontaram uma arma ao ciclista e fizeram ele jogar a bicicleta por cima da cerca.
Dias depois a Polícia Ferroviária colocou um policial a paisana que ao ser abordado agiu e prendeu dois de três bandidos, ocorreu inclusive troca de tiros. Hoje a Policia Ferroviária tem um esquema de segurança permanente no local para evitar novas ações de bandidos, enquanto não é realizada uma ação mais efetiva.
A solução a meu ver é criar uma equipe de segurança para cuidar exclusivamente da Ciclovia, pois hoje eles dividem suas tarefas com as estações de trem, dando prioridade quando há alguma ocorrência dentro do sistema. A criação de equipes diferentes que trabalhem em conjunto e a instalação de equipamentos de monitoria com câmeras dará muito mais segurança aos ciclistas que utilizam a ciclovia.
Novos acessos
Desde quando a Ciclovia da Marginal Pinheiros era apenas um sonho, a principal sugestão era o uso das estações da CPTM como uma forma de fazer o ciclista acessar a Ciclovia e sempre encontramos resistências quanto a essa possibilidade.
Ocorre que muito em breve teremos o primeiro teste de verdade. Atualmente na estação Santo Amaro, o ciclista precisa passar pelos bloqueios para chegar ao acesso da Ciclovia. Mas uma diferença fundamental é que em Santo Amaro os bloqueios estão na estação, sobre a plataforma. Já nas demais os bloqueios ficam na marginal, antes da passarela. Isso abre margem para um ciclista, agindo de má fé, tentar acessar o sistema da CPTM sem pagar.
Mas visando realizar um teste e apostar que a maioria de pessoas do bem não podem ser prejudicadas por má ações da minoria, em breve será testado um acesso junto a estação Morumbi da CPTM e caso não ocorra nenhum problema, o mesmo poderá ser repetido nas demais estações da CPTM, como Socorro, Granja Julieta e Hebraica.
Estamos também tentando aproveitar a estrutura existente da antiga estação Pinheiros da CPTM para que seja feito um acesso a Ciclovia. Atualmente os planos daquela estação são de ampliar a nova estação e demolir a antiga. Se conseguirmos mudar o projeto, muito em breve poderemos ter mais um acesso junto a essa estação.
Há ainda a possibilidade de mais um acesso junto a Ponte João Dias que foi proposto durante os estudos do Projeto Básico da Ciclovia do Capão Redondo, pela proposta o acesso seria mais ou menos como na ilustração abaixo.
A importância da Ciclovia da Marginal Pinheiros
Meu sonho é que a cidade inteira de São Paulo tenha um abrangente sistema cicloviário e apesar de termos muitos acidentes geográficos na cidade, quem pedala sabe que, além de subida não ser um grande problema. São Paulo é cortada por centenas de rios e áreas de várzeas, que poderia formar um grande sistema cicloviário principal que serviria de base para criação de outros sistemas secundários se interligando ao principal.
Nossas marginais são importantes eixos viários e se são bons para o transporte motorizado, porque não seriam para as bicicletas? Quando anos atrás lutei para que a Ciclovia da Marginal Pinheiros fosse entregue para a população apenas com os dois acessos existentes (Vila Olímpia e Miguel Yunes) era porque o mais importante no momento seria conquistar o espaço, pois a evolução seria a luta mais fácil.
Quando nos entregaram aquela ciclovia eu já sonhava com a construção de novos acessos e sua chegada até o Parque Villa Lobos. Hoje já sonho em ver essa ciclovia avançando sobre o Rio Tietê e se conectando com a Ciclovia do Parque do Rio Tietê que começa próximo ao Parque Ecológico do Tietê e segue por 25 quilômetros até Itaquaquecetuba. Sendo que essa Ciclovia tem projeto de chegar até a cidade de Salesópolis, onde nasce o Rio Tietê.
Também já consigo ver essa ciclovia em breve se interligando com o projeto da Ciclovia da Eliseu de Almeida e da Ciclovia do Capão Redondo, ambas que já tem seus projetos básicos prontos, só restando a abertura da licitação para as obras.
Essa Ciclovia não apenas é importante para os ciclistas, mas para toda a cidade, pois já provamos que a bicicleta pode não apenas ser parte da solução de mobilidade, bem como para uma mudança da cultura carrocrata que nos domina a tantos anos.
Nossa população esta mudando, a cultura do paulista em relação a cidade está mudando e muito se deve a esse movimento amplo de valorização da cidade capitaneado pelos ciclistas, onde a Ciclovia da Marginal Pinheiros é mais uma ferramenta para trazermos ainda mais pessoas para esse nosso mundo, por isso que mais uma vez estou feliz com essa conquista.
Pedalando muito, assim comemorei o aniversário de 458 anos da cidade de São Paulo. O dia começou cedo quando fui participar do WBT 2012 como Repórter Conviva e durante minha apresentação fiz esse vídeo abaixo. Nele você poderá conferir duas entrevistas, uma com o Secretário de Transportes de São Paulo, Marcelo Branco e outra com o Presidente do Metro, Sergio Avelleda.
Entre as novidades, nessa entrevista ele reforça a contratação do projeto funcional para a expansão da Ciclovia da Radial Leste, fazendo a tão sonhada ligação do Tatuapé com o Centro de São Paulo.
No início da tarde eu e o Willian Cruz do Vá de Bike ainda fomos fazer uma vistoria no trecho novo da Ciclovia da Marginal Pinheiros entre a Vila Olímpia e Cidade Universitária. A previsão de entrega desse novo trecho é para o dia 04 de fevereiro, falta muito pouco. Semana que vem faremos uma nova e mais detalhada vistoria e escreverei uma matéria detalhada aqui.
O dia de ontem foi muito positivo, São Paulo recebeu uma verdadeira invasão das bicicletas. Fiquei sabendo que mais de 4 mil ciclistas entraram no sistema da CPTM e do Metro. Foram 8 mil bicicletas entregues pelo Bike Tour sendo que tivemos impressionantes 370 mil inscrições, ou seja, dá para fazer um WBT por mês e não teremos bicicletas para todo mundo.
Parabéns a essa cidade caótica que tanto amo e que a cada dia que passa fica mais apaixonada por esse maravilhoso meio de transporte, esporte e lazer que é a bicicleta.
Êxtase, essa é a sensação do meu dia 23 de janeiro de 2012, dia que finalmente marcará o encerramento de um ciclo e o início de uma nova fase em minha vida. Apesar de tantas novidades, o que considero mais relevante é que finalmente consegui terminar de escrever meu livro sobre o Projeto Biomas. Agora o material será entregue a editora para revisões e edições finais. Quando ele estará pronto não sei, mas deve ser bem mais rápido do que os 11 meses que eu levei para escrevê-lo.
Mas porque a demora? Primeiro que eu não fiz a viagem com o objetivo de escrever um livro. Até tinha esse objetivo, mas devido à montanha russa de emoções que vivi na viagem, não havia descoberto a melhor forma de fazê-lo, qual a narrativa usar.
Levei alguns meses na busca dessa narrativa, tinha a preocupação de fazer dele um livro para-didático, até porque esse é o nicho da editora que vai produzi-lo, mas descobri que a melhor narrativa seria a mais simples, a que eu estou acostumada a fazer. Simplesmente escrever com como sempre fiz, contando o que eu vejo com meu olhar e meu coração.
O processo de criação da narrativa começou assim, primeiro juntei todos os posts que escrevi no blog durante a viagem (foram 90 artigos) e joguei num documento digital gerando um arquivo com 100 páginas. Depois separei as mais de 2800 fotos, organizei por categorias, legendei todas as escolhidas e ainda fiz uma seleção com 60 fotos. Nem dá para dizer que são as melhores, mas procurei escolhê-las de uma forma com que uma simples passada por elas transmitisse uma pequena sensação do que foi a viagem, despertando de alguma forma que a curiosidade das pessoas em relação a viagem.
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Depois de encontrar a narrativa, algo que ocorreu uns dois meses após o retorno da viagem, posso dizer que embarquei novamente na cicloviagem, voltei ao meu primeiro post e resgatei tudo que ocorreu naquele dia, principalmente minhas sensações. Revia as fotos e percebia que não havia conseguido passar tudo que senti e vivi naquele post do blog. Comecei a acrescentar mais detalhes e enriquecendo a narrativa. Isso dia a dia o que fazia a quantidade de páginas só aumentar, transformando aquelas cem páginas se tornarem quase trezentas agora, quando finalizei a reedição, chegando no meu último post a São Paulo.
O mais maluco foi que apesar de ter aprendido muito sobre mim durante a viagem, esses 11 meses escrevendo o livro me acrescentaram muito mais. Entrei em conflito por diversas vezes, pois tanto meus sentimentos quanto meus objetivos em relação ao futuro mudaram muito durante esse tempo. Apesar de ter decidido que viveria da bicicleta quando retornasse de minha viagem, 2011 foi um ano com muitas dificuldades, tanto financeiras como nas minhas relações sentimentais.
Demorou mas consegui conciliar minha mente e meu coração para que ambos tivessem objetivos comuns, algo que não ocorreu durante a viagem e principalmente nos primeiros meses quando comecei a escrever o livro. Isso é algo que será fácil de notar durante sua leitura.
Foram várias as encruzilhadas que encontrei durante esse processo, principalmente quando ocorreram claros conflitos de sentimentos. Ao reler um texto onde estava sofrendo por um amor que deixou de existir surgia a dúvida. O que devo escrever agora? O que eu sentia ou o que eu sinto hoje? Ser fiel ao sentimento do momento ou deixar claro a mudança significativa que ocorreu?
Mais uma vez a solução foi deixar o coração responder. Alguns dias os dedos era ágeis e páginas e mais páginas surgiam no meu documento. Em compensação em alguns momentos travava tudo e ficava dias sem conseguir avançar uma linha sequer.
Quando participei do Encontro de Cicloturismo em Santa Maria Madalena, tive contato mais próximo com grandes cicloturistas que deram a volta ao mundo ou realizaram grandes cicloviagens e a todos perguntei o quanto sofreram com a distância das pessoas queridas. Todos foram unânimes ao responder que sentiam saudades, mas nada que os fizessem sofrer.
Foi quando notei uma diferença fundamental entre minha viagem e a deles. Todos tinham por volta de 20 a 25 anos, não eram casados ou deixaram amores para trás. Nenhum tinham filhos e suas viagens foram motivadas apenas pela vontade de desbravar o mundo que assola 99 em cada 100 jovens.
Já a minha foi muito diferente, saí para pedalar em busca de um verdadeiro sentido para minha vida que naquele ponto era como se tivesse acabado. A bicicleta e o cicloturismo não passou de uma última esperança de viver, pois foram vários os momentos que achei que minha vida não tinha mais o menor sentido.
Principalmente pela saudade do meu filho e a sensação de que eu havia perdido para sempre. Saber que ele estava crescendo, vivendo longe de mim e que eu não poderia mais interferir em sua vida, que eu não era mais relevante para ele.
Mas não apenas fiz a viagem como posso dizer que sobrevivi a ela e hoje terei um produto que poderá ser um dia motivo de orgulho do meu filho e até uma forma dele, mais tarde, conseguir compreender os motivos que levaram seu pai a se afastar dele, justamente num momento difícil em sua vida.
Outra coisa que percebi é que apesar de ter realizado a viagem sem acompanhante real, virtualmente centenas de pessoas viajaram comigo e ao compartilhar suas emoções comigo em dezenas de comentários ou emails que recebi. Foi muito bom saber que foram tantas as pessoas que passaram por situações semelhantes a minha e resolveram dividir não apenas sua dor mas seu amadurecimento emocional comigo.
Consegui encerrar um ciclo e apesar de ser ateu, acredito em energia e sinto que nunca estive tomado por uma energia tão boa como agora. Muitas coisas boas estão acontecendo num curto espaço de tempo e a finalização do livro é apenas mais um detalhe. Meu olhar está mais feliz, meu coração mais leve e minha mente confiante de que meu futuro será promissor.
Quantas foram as vezes que tive vontade de desistir, até porque observava que a vida dava tantas oportunidades a quem não merecia, enquanto a mim só colocava mais dificuldades em minhas conquistas.
Hoje encaro tudo isso como um teste, uma provação para algo muito maior que está por vir. Chega de reclamar das dificuldades, pois sei que da mesma forma que terei muitos amigos me ajudando, haverá também muitas pessoas torcendo e “trabalhando” pelo meu fracasso.
Isso é do jogo e mais do que nunca, agora estou no jogo pra valer e a melhor lição que eu tirei de todas essas experiências que eu tive nos últimos dois anos é que o que não me mata só tende a me fortalecer. E fica o recado, não apenas aos meus inimigos, mas principalmente aos amigos que sofreram quando achavam que eu havia desistido, que as baterias estão recarregadas e estou pronto para encarar qualquer desafio. Não desistirei dos meus (e nossos) sonhos e que enquanto esse coração aqui no peito pulsar forte, estarei sempre pronto para todas as batalhas que virão.
Em Sorriso-MT, iniciando o ano de 2011 entrando na Amazônia
Não, não sigo o calendário Chinês (que nesse ano termina no dia 22 de janeiro, quando se inicia o ano do Dragão) é que ainda não consigo considerar o ano como encerrado, sem finalizar meu último projeto, o livro do Projeto Biomas.
O ano de 2011 não posso dizer que foi fácil, iniciei ele na cidade de Sorriso-MT e dormindo. Nada de comemoração, apenas depressão. O lado bom é que iniciei o ano pedalando, algo que não deixou de ser um sinal de que seria um ano com muito movimento.
Não dá para dizer que foi um ano para esquecer, algo que aprendi nessa minha curta vida é que as dificuldades nos ensinam muito mais do que as alegrias. E uma coisa é certa, aprendi muuuito em 2011.
Apesar de ter bons motivos para esperar de 2012 um ótimo ano, com muito mais alegrias, já passou da hora de me concentrar na finalização do meu livro e é isso que quero fazer antes de me focar num novo projeto.
Então fica aqui minha curta mensagem com uma pré-despedida de 2011, um ano que ainda não acabou pra mim.
Vou confessar, dei muitas risadas quando vi as matérias falando que o Ministério Público de Porto Alegre estava investigando a Massa Crítica da cidade. Para os desentendidos, Massa Critica, Critical Mass, Bicicletada é tudo a mesma coisa, não passa de uma coincidência organizada onde as pessoas se reúnem na última sexta feira do mês e se deslocam pelas ruas da cidade de forma não poluente.
Mas galera de Poa, será que vocês compreenderam realmente qual o significado da Massa Crítica? Quem entendeu, com certeza não está nada preocupado com a interferência do MP (que parece não ter muito o que fazer) e ainda esta rolando de rir com a tentativa do MP e da EPTC em tentar controlar a Massa Crítica. Agora os ciclistas que aceitaram um encontro com o pessoal da EPTC e MP para conversar sobre a Massa Crítica, estão cometendo erros gravíssimos.
Primeiro que nesse momento NINGUÉM tem que falar em nome da Massa Crítica. Se eu fosse de Poa até criaria um email fake e divulgaria a senha nas listas de discussão de vocês. O email poderia ser liderdamassacriticapoa@gmail.com, por exemplo. Então qualquer pessoa poderia usar o email e mandar mensagens para os “órgãos competentes”. Qualquer mensagem mesmo, seja uma sugestão de como deveria ser a ação da EPTC durante a Massa Crítica, ou mesmo mandar umas receitas de bolo da Ana Maria Braga.
A partir do momento em que uma pessoa responde o poder público, já está cometendo uma cagada gigantesca. Se alguém resolve sentar numa mesa com EPTC e MP, essa pessoa esta cometendo uma burrice sem tamanho!
Lembro do WNBR de 2008 em São Paulo, na época era responsável pelo site CicloBR e publiquei nele uma chamada para a Pedalada Pelada. Como muitos canais de mídia divulgaram meu link, recebi centenas de mensagens como se eu fosse o organizador do evento e até um email da PM pedindo mais “informações” sobre o evento.
Na época lembro que “o trouxa aqui” jogou a mensagem na lista da Bicicletada(SP) pedindo conselhos sobre o que fazer. Muitos disseram que era pra eu responder o email, dizendo que não era o organizador, que era um movimento horizontal, bla, bla, bla. “O trouxa aqui” fez exatamente isso. Respondi, troquei vários emails com os PMs, mensagens sem ameaças, bem simpáticas, sentia até que dava para confiar nos PMs (tolinho). Lembro que dias depois, quando já havia respondido o email, outro amigo disse que se fosse ele, teria ignorado, dito que ficou preso no anti-spam, mas jamais responderia. Era isso que deveria ter feito.
O PM pediu até para eu passar meu número de celular para conversarmos melhor e na maior boa vontade do mundo passei meu número. No dia da pedalada, o Major da PM me ligou, viu minha cara, conversou comigo na praça, venho com aquele papinho de puta pra delegado (que estavam lá para nos proteger, blá, blá, blá…) e o trouxa aqui caindo na conversa como um patinho.
Quando iniciou a pedalada, todo mundo começou a tirar a roupa e nada da polícia fazer algo. Já estávamos na Brigadeiro, uns 2 quilômetros da Praça do Ciclista e deveria haver uns 50 pelados no meio da massa. Como percebi que a PM não fazia nada, achei que estávamos em Londres, onde a PM acompanha a pedalada para proteger os ciclistas, então tirei minha tanga ficando como vim ao mundo e o que aconteceu logo em seguida? Não demorou cinco minutos e o Major Tomada aparecer em minha frente dizendo que eu estava preso, mesmo rodeado por uns 20 ciclistas nus. A Falzoni até disse “Se ele está preso eu também estou” e a resposta do Major foi “Você não!” Vejam os vídeos abaixo para entender o que aconteceu.
WNBR Parte 1
WNBR Parte 2
Meses depois a CET de São Paulo ainda mandou uma multa de R$1.200,00 para minha casa, só porque eles consideraram que eu fui o organizador do evento “não autorizado”. Claro que a multa foi cancelada, minha prisão não deu em nada e até que no final das contas, todos esses acontecimentos serviram para a prefeitura se tocar de que o melhor é estar do nosso lado do que ser contra.
Houve também uma tentativa torpe, até com a ajuda de setores da mídia convencional de tentar desqualificar o movimento, mas nesse mundo conectado em que vivemos hoje, as mentiras não duram tanto tempo assim, portanto não vejo isso também como um grande problema. Agora não sei se vale a pena passar por um desgaste tão grande e desnecessário como eu passei. Antes eu seguisse a ferro e fogo a principal diretriz da Bicicletada, a de que NINGUÉM pode falar em nome dela.
Se eu pudesse deixar um conselho para a galera de Poa seria uma só. Tirem onda da cara das autoridades sem dó. Esse povo de mente hierarquizada tem uma dificuldade enorme para compreender como um movimento horizontal consegue funcionar. Eles realmente acreditam que há alguém manipulando os ciclistas. Sim, eles criam suas teorias da conspiração, acham que é coisa do PT (se o governo é do PT acham que é do PSDB) e por aí vai, então deixem eles aprenderem na marra.
Uma ideia é fazer como na Bicicletada Interplanetária, a galera imprimiu várias camisetas de “vice-líder” e distribuíram entre os ciclistas. Imaginem a cena de alguém perguntando “Quem é seu líder” e a galera respondendo “Não sei, mas eu sou o Vice-Lider”. Daí outro “Eu também, eu também”…
Outra sugestão, podem seguir o exemplo da galera de Sampa e vocês podem eleger um líder da Bicicletada, aqui todo mundo sabe que o Líder da Bicicletada é o Joaquim. Não conhecem o Joaquim? A foto abaixo foi tirada em um Pedal Verde especial, contra a retirada das árvores da Marginal Tietê para a criação de mais uma pista de carros. Mandei essa foto no meu Twitter e escrevi “Prenderam o Líder da Bicicletada”.
A Bicicletada ou Massa Crítica não precisa de autorização para acontecer, bicicletas são veículos e pela lei podem circular, inclusive em massa, da mesma forma que os outros veículos poluidores podem. Aliás o CTB diz, além que os veículos maiores tem que proteger os menores, diz também que eles não podem interromper uma aglomeração, seja de pessoas ou “veículos”.
Aproveitando façam essa pergunta a EPTC, os milhares de motoristas que se manifestam diariamente nas ruas de Poa, causando paralisação da cidade, precisam pedir autorização para circular? Porque a Massa Crítica precisa?
Tirem onda galera, se divirtam com a cegueira das autoridades, um dia eles vão aprender que é possível haver uma organização ante ao aparente caos. Em diversas Critical Mass ao redor do mundo, a polícia acompanha a massa e só interfere quando algum “Neis” da vida atenta contra a massa. Em São Paulo é comum termos acompanhamento da PM em vários trechos, tanto ajudando nos bloqueios, ou nos protegendo, mas nunca tentando interferir no comportamento da Massa, até porque eles já aprenderam que qualquer tentativa de “guiar” a massa jamais funcionará.
Evitem personalizar a Massa Crítica, converse com as pessoas que na boa vontade tentam fazer isso, o melhor caminho é deixar a massa acontecer naturalmente, acreditem, um dia as autoridades locais vão se tocar e ver que é impossível controlar o incontrolável.
Iria escrever um texto sobre o natal e esse ano que passou, mas fui tristemente surpreendido pela morte do Fábio Cortês, um dos alunos da Escola Aitiara, que participaram do Cicloaitiara, uma cicloviagem de 10 dias que realizei em 2009, quando guiei um grupo com mais de 30 pessoas, entre alunos e professores dessa escola pelo litoral sul de São Paulo.
Uma morte que envolveu carro, bebidas e essa estúpida sensação de imortalidade que todos jovens sentem. Sei muito bem como é porque já tive essa idade e posso dizer que sou um sobrevivente.
Longe de querer encontrar culpados, até porque conheci a fundo cada um desses jovens e sei que nenhum deles iria tirar a vida de qualquer ser vivo de forma intencional. Sei o quanto eles eram unidos e imagino a dor que eles estão passando.
Não acredito em religião, não sei onde e como o Fábio está, mas sei que os que ficaram nesse mundo estão sofrendo e o máximo que posso fazer daqui é me solidarizar com a dor deles e compartilhar a minha.
Vou finalizar meu texto e incluir mais essa reflexão, pois hoje o meu sentimento é de que tudo que eu fiz por esse jovens foi em vão. Sentimento parecido com a perda da Marcia. Espero finalizar esse meu texto antes do Natal, texto que provavelmente será o último desse ano de 2011, que ainda não sei se é para esquecer ou para refletir.
Atenção, esse é um post longo, com detalhes de uns três anos de história ao menos. Se já conhece a história e está cansado de ouvi-la de mim, ou se for daqueles preguiçosos que acham 1500 caracteres suficientes para formar uma opinião, nem perca seu precioso tempo. Ah, se nos comentários eu perceber que você leu 3 parágrafos e já saiu falando merda, vou mandar se F%$# sem dó!
Minha primeira vez que tentei vencer a Serra do Mar de bicicleta foi em 1994. Dia de jogo do Brasil na copa do mundo. Depois do jogo eu e o Cláudio, meu amigo e parceiro nas primeiras pedaladas cicloturísticas, partimos da Vila Mariana, rumo a Estrada Velha de Santos. Tivemos que dormir escondido perto da guarita para, de forma subversiva, esperar o guarda dormir e invadir a estrada. (Detalhes dessa aventura estão narrados no meu primeiro livro)
Anos mais tarde, em dezembro de 2008, lá estava eu doando meu sangue para reunir mais de 300 ciclistas na Paulista prontos para tentar chegar à praia. Todos sabendo dos riscos mesmo assim prontos para, de forma pacífica, exercer seu direito de ir e vir, algo que á anos nos é negado.
Nessa aventura minha amiga Márcia Prado não pode participar, mesmo assim ela foi responsável por um email enviado pela Artesp, dizendo que tínhamos o direito de pedalar nas rodovias de São Paulo, com base no CTB. Email esse que trouxe uma enorme dor de cabeça para a Polícia e a Artesp.
Quem se lembra sabe que essa viagem foi abortada, mandaram até o Batalhão de Choque para impedir o acesso de perigosos ciclistas ao litoral paulista, mas essa foi uma manifestação importante, fez muita gente abrir os olhos e prestarem mais atenção em nossas reclamações. Apesar de alguns poucos terem conseguido chegar à praia, ainda que de forma subversiva, a maioria teve que retornar. Alguns descobriram que havia um caminho que levava os ciclistas até a estação Grajaú da CPTM no extremo da Zona Sul de São Paulo.
Meu amigo João Lacerda da Transporte Ativo retornou usando essa rota com um grupo de ciclistas da região. Ele nos relatou que além de bonito, era super tranquilo, com poucos carros, muito verde, com um único ponto um pouco mais tenso, na Avenida Belmira Marin já chegando na área urbana.
Imaginei que se essa rota fosse viável, poderia ser uma alternativa a inóspita Imigrantes e uma ótima maneira de forçar o estado a criar uma solução definitiva, mostrando que os ciclistas estavam fazendo concessões e que eles também poderiam fazer algumas para que todos saíssem ganhando. Assim ninguém mais seria obrigado a tomar atitudes subversivas para realizar o desejo de chegar a praia, hoje benefício exclusivo de quem tem carro.
Pesquisei o trajeto na internet, coloquei um GPS na minha bike e no dia 7 de janeiro de 2009 (uma quarta-feira) percorri a trilha sozinho na busca da melhor rota para acessar o parque. Saí perto do Mac Donalds da Imigrantes, a cerca de 6 quilômetros da Interligação, onde há um acesso ao Parque da Serra do Mar. Nesse pedal eu descobri aquele acesso antes do túnel que acabou sendo usado nos eventos da Rota Márcia Prado.
Cheguei em casa, joguei as informações na lista e fiz um convite para a galera, juntarmos um grupo de ciclistas para percorrermos esse trajeto, aproveitando para sinalizar com bicicletinhas o trecho dentro do Parque da Serra do Mar. Com isso, qualquer ciclista que conseguisse chegar ao parque, mesmo sem conhecer o caminho, saberia como cruzar as áreas dos túneis chegando ao pé da Serra do Mar em segurança.
Então no domingo, dia 11 de janeiro de 2009, as 8h00 da manhã, aproveitando o fato que as bicicletas serem liberadas nos trens do Metro e da CPTM, um grupo com cerca de 15 ciclistas se reuniu em frente ao Bicicletário da estação Grajaú (outra conquista dos ciclistas). Todos amigos e companheiros, tanto de pedais, botecos como de intervenções ”cicloativistas”. Entre todos aqueles amigos, lá estava ela, a Márcia Prado com seu capacete vermelho.
Já que ela não pode participar da Interplanetária em dezembro de 2008, pouco mais de um mês depois lá estava ela, não para ser protagonista de nada, mas para somar com tantos outros que sempre lutaram contra essa injustiça que é imposta a todos (não apenas aos ciclistas) por essa “carrocracia” que nos domina. O vídeo dessa maravilhosa aventura está aqui embaixo, se ainda não viu, pare a leitura, assiste e retorne.
Apenas 3 dias após essa descida, nossa amiga Márcia Prado foi mais uma vítima dessa carrocracia que tanto me enoja e sua morte foi uma paulada em todos que tanto se doaram nessa luta. Apesar de convivermos com o risco de forma eminente, sua morte foi prova cabal que o inimigo é sim cruel e que lutará com as suas armas para poder continuar exercendo o seu poder, sem medo de nos tirar nosso maior bem, nossa vida. Pior, tudo isso “de consciência tranquila”.
O ano de 2009 foi marcado pela mudança de direção desse movimento que nasceu entre os ciclistas. Eu e muitos outros sentimos a necessidade de uma organização, pois em diversos momentos sentimos falta de uma representatividade para realizarmos ações mais contundentes. Não bastava apenas reclamar, mas tínhamos que não apenas apresentar soluções, mas provarmos que eram factíveis.
Então passei a participar de reuniões com outros ciclistas a fim de criarmos uma entidade que nos representasse. Ocorre que meses se passaram e nada acontecia, enquanto isso minha impaciência me consumia. Desde aquela descida em Janeiro de 2009 eu mantinha o sonho de realizar uma descida organizada, um evento com mais de mil ciclistas, pois sabia que isso nos daria força para conversarmos com aqueles que podem resolver nossos problemas em definitivo. Claro que a Bicicletada Interplanetária teve seu papel importante, mas para avançarmos mais deveríamos evoluir em nossa forma de atuação.
Meses se passaram e eu vi que a tão sonhada Ong dos ciclistas de São Paulo levaria anos para acontecer, então mandei um email a quarenta ciclistas e disse que queria transformar o CicloBR, até então meu site pessoal, numa associação. Dos quarenta, vinte ciclistas responderam e apoiaram a ideia. Assim no dia 8 de Agosto de 2009 nasceu o Instituto CicloBR de Fomento a Mobilidade Sustentável.
Uma das maiores motivações para a criação da ong era justamente poder articular um evento para descermos até a praia em dezembro do mesmo ano, sem a necessidade de tentar uma outra descida de forma subversiva como a ocorrida no ano anterior. Nem bem registramos a Ong em cartório e lá estava eu percorrendo o caminho das pedras e tentando descobrir uma forma de realizar esse evento em dezembro do mesmo ano.
Primeiro passo foi conversar com o pessoal da Secretaria de Transportes Metropolitano de São Paulo, contato que já tinha estreitado graças ao meu trabalho voluntário de consultoria em vários projetos com bicicleta na secretaria, inclusive para a instalação de Bicicletários e os Paraciclos nas estações do Metro e da CPTM. Mostrei a importância de ter a participação oficial deles no evento, pois isso poderia abrir portas dentro do próprio governo, formando uma frente de apoio a criação da Rota, fazendo um contraponto a Policia Rodoviária Estadual e a Ecovias que desde i início se colocaram contra a ideia.
Também aproveitei meus canais que já possuía e consegui o apoio tanto da Secretaria Estadual de Transportes e a Secretaria do Meio Ambiente, responsável pela Estrada de Manutenção da Imigrantes, assim fomos formando uma frente para tornar o evento da Rota Cicloturística Márcia Prado algo realmente oficial.
Primeiro foi a luta para registrarmos o Instituto CicloBR em cartório, receita federal, etc. Depois caiu no meu colo (graças a indicação de uma amiga) uma campanha de divulgação do evento “Tô no clima” evento esse onde usei o pessoal do CicloBR pessoas que realizaram esse trabalho de graça, e com isso conseguimos 5 mil reais, dinheiro que acabou sendo usado para a rota (confecção de placas, camisetas, etc).
Detalhe é que as plaquinhas que sobraram desse evento acabaram sendo recicladas e viraram as placas utilizadas para sinalizar a primeira Rota Márcia Prado.
Feito isso realizamos o anúncio da Rota, criamos uma página no site do CicloBR e depois disso não havia como voltar atrás. Eu mesmo nunca havia realizado algo tão grande, só sabia que seriam inúmeras dificuldades e que precisava contar com a ajuda de amigos. Fiz várias reuniões, Ecovias, CPTM, Parque da Serra do Mar, manda email daqui, liga pra ali, fazia a assessoria de imprensa e de repente surge uma chamada para a Rota Márcia Prado na Home da Uol. E o CicloBR, que tinha cerca de 1000 acessos por dia bateu 50 mil e 4 horas. Pela quantidade de emails percebemos o tamanho da responsabilidade.
Muitas foram as correrias até que finalmente consegui um apoio da Artesp que autorizou a rota aos 45 minutos do segundo tempo. Para complicar na sexta feira, as 18h00 (nos descontos do segundo tempo da prorrogação), um dia antes da Rota, lá estava eu no meio da Serra do Mar pintando e sinalizando a estrada, quando recebo uma ligação de uma pessoa da Fundação Florestal (responsável pelo Parque da Serra do Mar) dizendo que não poderíamos realizar a descida no dia seguinte.
Imaginem o meu desespero e torna eu ligar para todo mundo. Liguei desesperado para uma amiga que na época trabalhava na Secretaria do Meio Ambiente e que no exato momento estava num jantar de confraternização “da firma” em frente ao Secretário. Depois de um enorme trabalho de bastidores em várias frentes (a essa altura nem mais pedindo ajuda e sim implorando), choveram ofícios na Secretaria do Meio Ambiente e conseguimos resolver mais esse problema. Claro que sozinho jamais seria responsável pela realização da rota, mas tenho certeza se não fosse pelos meus amigos de verdade e pela minha força de persuasão (melhor seria de pentelhação) tenho minhas dúvidas se o evento teria acontecido.
Bem, já eram duas horas da manhã de sábado, dia 18 de dezembro de 2009, enquanto a maioria dos mil ciclistas que percorreriam a rota logo cedo estavam dormindo, lá estavam eu, meu amigo Willian Cruz do blog Vá de Bike, o Felipe Aragonez que hoje é o atual Diretor Geral do CicloBR e o Aleba (que não percorreu a rota mas foi o responsável pelo silk das placas) no Canal 1 em Santos, colocando a última placa da Rota Márcia Prado.
Sei que tem muitos ciclistas que me odeiam e sinceramente alguns nem sei porque, pode ser porque acham que eu faço tudo isso só para aparecer, mas vou dizer o que realmente me move.
Quando estava eu lá na rota, fazendo a segunda palestra, antes do pessoal despencar ladeira abaixo, observava o olhar atento daqueles ciclistas que prestavam atenção em cada palavra que eu dizia. Assim que terminava minha palestra e os deixava seguir em frente, quase sempre eles abriam um sorriso e diziam.
“Obrigado André, graças a você eu estou realizando um sonho…”
Dinheiro? Poder? A merda tudo isso, só quem nunca sentiu na pele um trabalho árduo ser compensado com palavras como essas, só pessoas mesquinhas e materialistas é que acham que o que me move é outra coisa senão isso. Só mesmo sendo muito estúpido para pensar assim.
Mesmo assim, ficava envergonhado, pois lembrava de tantos outros que se doaram para que isso ocorresse e uma coisa que eu prezo é a lealdade, jamais esqueço daqueles que fizeram algo por mim na confiança, ou mesmo por uma causa, sem esperar nada em troca. Desde os ciclistas que ficaram entregando folhetos do “Tô no clima” durante uma semana na hora do Rush em São Paulo, ou daqueles que nunca pedalaram mas mesmo assim contribuíram de forma efetiva para que a Rota acontecesse, até mesmo da querida Márcia que mesmo sem sua presença física acabou sendo vital para tudo aquilo, então eu respondia:
“Por favor, não agradeça a mim, mas sim a todos que você encontrar de camiseta branca orientando os ciclistas. Eles no mínimo representam cada um que de alguma forma foram fundamentais para vocês estarem vivendo esse momento”
Posso ter tido um papel mais central, isso é natural, sempre alguém tem que colocar a cara para bater, alguém tinha que assumir a bronca caso alguma coisa desse errado e esse alguém era eu, que inclusive responderia legalmente caso acontecesse alguma merda.
A partir daquele dia, ao menos o Passeio Cicloturístico da Rota Márcia Prado deixou de ser um sonho e virou um direito adquirido. O caminho das pedras já havia sido percorrido e detalhado, portanto com as portas abertas, qualquer pessoa poderia seguir os passos e continuar realizando o evento, mas como sempre, nunca me contentei com esmola e lá fui eu novamente para a linha de frente colocar a cara a tapa.
Essa foi apenas mais uma batalha vencida, assim como foi a primeira Interplanetária. Devíamos continuar caminhando em busca da solução que agora nem era mais a realização do passeio, mas sim da obra para que qualquer pessoa pudesse percorrê-la a qualquer tempo, e não apenas uma vez por ano.
Apesar de termos vencido uma batalha, a guerra estava longe de ser vencida pois o inimigo ainda continuará lutando contra nós. Tanto é que meses depois fiquei sabendo que a Ecovias entrou na justiça, dias antes da realização da Rota, numa tentativa de barrá-la e me responsabilizar caso alguma coisa desse errado. Graças a lucidez de uma juíza a Ecovias, literalmente quebrou a cara, dando até um tiro no pé, pois em tese essa decisão aponta que temos mais direitos do que imaginamos. O número do processo é o 583.00.2009.227088-8/000001-000. Para ver os andamentos clique aqui e digite no campo “Ano” de processo 2009 e no campo “Número” 227088.
Realizada o primeiro passeio oficial qual o próximo passo para torná-la definitiva? Nada melhor do que usar a força de mil ciclistas! Depois da rota consegui diversas reuniões na Artesp, realizamos algumas vistorias na Imigrantes com membros de diversos órgãos envolvidos, prefeitura de São Paulo, Artesp, Parque da Serra do Mar e até Ecovias. Mas não bastaria apenas reuniões e boas intenções, até porque sei muito bem como a coisa funciona, pois os agentes contrários a rota usariam a tática da “engabelação”.
O famoso “Estamos estudando”, mesmo que esse “estudo” dure 100 anos. Não adianta mandar quem está contra algo fazer o trabalho. Um belo exemplo foi o que ocorreu na Ciclovia da Marginal Pinheiros, tanto é que a Emae já gastou milhões com dinheiro público encomendando projetos maravilhosos de ciclovias a beira do Rio Pinheiros e depois os projetos eram abandonados por inviabilidade. Foi necessário conseguir o apoio da CPTM para abrir a Ciclovia com os únicos acessos existentes para então vermos projetos de novos acessos e ampliações.
Comecei o ano de 2010 com as diversas reuniões onde elaboramos algumas propostas para estudo. Mais tarde fiquei sabendo que técnicos da própria Artesp, os mesmos que me acompanharam nas visitas técnicas, prepararam um parecer inviabilizando a obra. Seria necessário muitas manobras e dedicação para encontrar novos caminhos para fazer as coisas andarem.
Ocorre que, como é de conhecimento de todos que me acompanham aqui no blog, na metade de 2010 passei por um doloroso processo de separação e enquanto estava no meio do furacão emocional não encontrava forças para nada, muito menos para me envolver nas ações do CicloBR.
Então decidi realizar a viagem do Projeto Biomas e jogar a “bomba” da realização do Evento da Rota Márcia Prado nas mãos do pessoal do CicloBR. Mas mesmo de longe (enquanto a rota de 2010 estava sendo realizada eu cruzava o Pantanal), além de participar de toda articulação inicial e mostrar o caminho das pedras para a direção do Instituto, eu continuava ajudando o pessoal da maneira que podia, até porque ainda respondia legalmente pelo Instituto CicloBR e pelas prováveis cagadas dos seus membros, pois ainda era o seu Diretor Geral.
Aos trancos e barrancos a Rota aconteceu, cerca de 700 ciclistas conseguiram chegar a praia. Eu esperava um número bem maior e o próprio pessoal do CicloBR alegou que esse número não chegou aos 2000 esperados porque eu estava longe e não pude ajudar na divulgação.
Mas também durante minha viagem tive diversos atritos com algumas pessoas que fazem parte do Conselho e Direção do CicloBR. Já era de meu conhecimento que algumas dessas pessoas (poucos, não enchem uma mão) eram desafetos declarados meus, um deles inclusive disse numa Assembléia do Instituto que estava no CicloBR não pela causa, mas para ser a “mosca na sopa”, com claro objetivo de ir contra tudo que eu quisesse fazer dentro do Instituto.
Até para evitar um desgaste desnecessário, primeiro porque não quero estar num grupo onde claramente há pessoas lutando contra mim e consequentemente prejudicando o Instituto, até porque eu não precisava do CicloBR para meus projetos, resolvi renunciar do meu cargo de Diretor Geral do Instituto. A princípio queria me desligar totalmente, mas a pedidos de alguns membros do Conselho e Diretoria, aceitei um cargo de Diretor de Relações Públicas, até para que eu pudesse continuar falando em nome do Instituto e ajudando a Ong. Meu papel principal seria justamente na articulação com o poder público, no fomento de novos projetos e parcerias para a Ong.
Aceitei pois teria minhas responsabilidades reduzidas, consequentemente mais tempo para recomeçar a minha vida pessoal e profissional que, naquele momento, era vital para que eu até pudesse ser novamente útil, tanto ao Instituto como para toda causa que nos move.
Achava que toda minha história dentro do Instituto e até mesmo nessa luta que muitos chamam de “cicloativismo”, seria suficiente para que houvesse algum respeito por mim. Como fui tolo. Não demorou e começou ocorrer diversos boicotes, sendo que recebi a proposta totalmente indecorosa por parte da direção do Instituto de fechar a Ong (com a ajuda deles), que me devolveriam alguns projetos, como o Desafio Intermodal por exemplo, mas que “eles” criariam uma nova ong e ficariam apenas com a ação do SOS Bike na Ciclofaixa e com a Rota Márcia Prado. Nem vou entrar em maiores detalhes, até porque isso tudo será material para meu próximo livro que começarei a escrever logo após finalizar o da viagem do Projeto Biomas.
Bem, hoje sou apenas mais um dos associados do CicloBR e embora tenha minha participação no Instituto literalmente boicotada, sei que independente do Instituto, ainda posso fazer muito pela Bicicleta e inclusive pela Rota Márcia Prado. Deixei claro que queria participar da organização da RMP 2011, tanto é que já havia conseguido uma reunião com a nova Diretora da Artesp (não como CicloBR e sim como André Pasqualini) onde iria apresentar uma nova proposta de acesso ao parque, muito mais factível que os outros estudos realizados.
Obviamente comuniquei a atual direção do Instituto dessa minha reunião, reafirmei minha vontade de participar da organização da RMP de 2011 e que poderia até aproveitar essa reunião (que ocorreu mais de um mês antes da Rota) para começar a discutir apoio a Rota. Tenho até um email do atual Diretor Geral da Ong garantindo que eu iria participar da organização, dizendo que logo que fosse marcada uma reunião da diretoria para discutir o assunto eu seria convidado.
Queria mesmo muito ter participado da RMP, até fiz uma pesquisa na net e constatei que a muitos ciclistas preferiam que ela fosse no Domingo, o que eu particularmente achava ótimo, pois poderíamos contar tanto com o apoio da CPTM como do Metro, até mesmo da Ciclofaixa de Lazer onde o CicloBR participa fazendo o SOS Bike.
Dei até uma sugestão para eles me deixarem cuidando da parte burocrática (ofícios, apoios institucionais, autorizações) e o resto do pessoal cuidaria apenas da operação, o que por si só já dá um imenso trabalho. Queria muito participar até para solucionar vários erros que cometemos nas demais edições além de trazer novidades.
Tinha uma solução para evitar os comboios, algo que prejudicava o trabalho de conta-gotas no início da descida, necessário para a segurança dos ciclistas. Os ciclistas acessariam a pista da Imigrantes na contramão e seguiriam pelo acostamento protegidos por cones e iriam pedalando até a entrada do parque. Queria apresentar e testar soluções, conseguir algum apoio fora da rota para os ciclistas com dificuldades físicas, ou seja, algo da grandeza que o Instituto CicloBR se propôs um dia a ser.
Mas as promessas de que eu participaria da organização não passarem de mentiras. De repente vi que anunciaram a rota para o sábado dia 10 de dezembro e sequer me comunicaram que eu não iria participar da organização da Rota.
Dias depois da definição da data, lá estava eu em uma reunião com a diretora da Artesp apresentando uma proposta de acesso ao parque da Serra do Mar (para ver mais detalhes clique na imagem abaixo). Como não tinha autorização do Instituto nada pude fazer pela Rota, me concentrei apenas no que eu havia ido fazer lá, conseguir apoio para fazermos um projeto básico dessa proposta. Com os valores eu poderia correr atrás do dinheiro, que poderiam vir de outro órgão do estado ou até mesmo da iniciativa privada.
No sábado fiquei em casa me comunicando com algumas pessoas que lá estavam participando da Rota, acompanhando as notícias via twitter e facebook, morrendo de vontade de estar na festa e ao mesmo tempo me sentindo impedido de participar. Um amigo a quem eu lamentava disse “É como dar uma festa de aniversário e não chamar o aniversariante”
Não penso assim, mas faço um paralelo a um filho, que você sabe que não pertence a você e sim ao mundo. Mas você sempre irá querer o melhor ao filho, quer educá-lo, ficar perto dele, passar seus valores, mostrar os melhores caminhos. Mas a impotência de não poder mais educá-lo, influenciá-lo, mostrar seus erros, apontar outras soluções, tudo isso me consumia. Como toda criança rebelde que busca trilhar seu próprio caminho mas quase sempre acaba seguindo orientações de pessoas que claramente não querem seu bem, mas sim se aproveitam dele para tirar proveitos pessoais, com clara vontade de levá-lo a sua destruição. Até parece mesmo um filho que chateado porque eu o abandonei, resolveu se revoltar contra mim.
Naquele sábado chorei muito, para a alegria daqueles que tanto fizeram para me afastar do CicloBR. Essas pessoas tem claros motivos para comemorarem, a essas pessoas só deixo que o tempo as mostrem quem realmente são. Apesar da minha sensação ser de impotência, o melhor maneira que vejo de ajudá-lo, infelizmente é deixá-lo a própria sorte. Pior que a vida tem que continuar, maravilhosas possibilidades estão se abrindo. Com muita tristeza vejo que não posso mais colocar o CicloBR nessas oportunidades até porque eu sei que se isso acontecesse, algumas pessoas não economizariam energia enquanto não conseguissem inviabilizar esses projetos que beneficiariam milhares de pessoas, só pelo prazer de me ver fracassando em algo.
Hoje estou trilhando meu caminho e muito em breve (pra ser mais exato amanhã) o mundo da bike irá conhecer mais outra conquista na qual o Instituto poderia fazer (mas não fará) parte. Meu consolo é que existem outras pessoas maravilhosas no mundo com quem poderei contar e juntos poder fazer muito pela bicicleta. Lealdade é uma palavra que me move, podem me acusar de tudo mas nunca de desleal e é assim que sigo nessa luta, apenas me juntando a pessoas que tenho a certeza que serão leais sempre.
Poderia até tentar voltar ao CicloBR em 2013 quando acabar essa atual gestão, mas não posso garantir se ainda existirá essa motivação, até porque em dois anos muitas coisas podem acontecer. Aquele tão amado filho pode sucumbir ou nossas vidas tomarem um rumo onde algumas pessoas do passado não terão mais espaço. Uma pena, pois a morte do CicloBR, algo que até pouco tempo considerava impossível, hoje percebo que é algo factível, até porque é o claro desejo de algumas pessoas com muita importância dentro do Instituto, que em tese, deveriam lutar por ele.
Que sigamos a vida, eu ainda irei trabalhar muito para que tenhamos um trajeto definitivo da Rota Márcia Prado, até porque não dependo do CicloBR para isso. Irei continuar trabalhando muito pela bicicleta, além de continuar doando boa parte da minha vida para criarmos modelos de cidades humanas. Mas agora é o momento de me livrar das “moscas” e me juntar a quem realmente eu posso confiar. E bora colocar mais gente pedalando nas ruas, pois são milhares de pessoas clamando por isso.