Não se manifeste, vagabundo

Faz dois anos que publiquei em uma coluna que tinha todas as terças no Destak sobre as críticas de pessoas hipócritas, que simplesmente generalizam todos que se manifestam como vagabundo. Mas o tema está tão atual que resolvi reproduzi-la novamente no meu blog. Segue a coluna.

Alguém mandou essa mensagem pelo Twitter: “três coisas chatas pra car#@%: ateu empolgado, emo sofredor e ciclista militante”. 

Na minha opinião, “chato” é todo mundo que tenta impor uma doutrina ou estilo de vida a alguém, mas não considero chato quem defenda seu estilo de vida, não importa com que intensidade o faça. 

A criação do termo “ecochato” foi um pouco inspirada no “vagabundo” usado pela ditadura para reprimir qualquer tentativa de questionamento ou manifestação. Era uma máxima: “continue trabalhando e deixe que cuidemos dos vagabundos [na porrada se necessário] que insistem em atrapalhar a vida daqueles que trabalham para o país crescer.” O reflexo disso se vê até hoje. Repare que ao saber de uma manifestação são poucas as pessoas que dão valor aos motivos, a maioria (em muitas situações, até a imprensa) está mais preocupada em falar sobre o transtorno ao trânsito que a manifestação pode causar. 

Infelizmente, muitas pessoas acham que nosso papel de cidadão vale só na hora do voto e olhe lá. Não. Temos o dever de participar de todas as decisões públicas, assim como todos os políticos são obrigados a prestar contas à sociedade e não apenas à categoria que o elegeu. 

Como essa prestação de contas ocorre? Com as pessoas participando das decisões e, se necessário, com manifestações públicas de descontentamento, como aconteceu com as obras da Nova Marginal. Não fossem as fotos e vídeos das árvores cortadas, ações na Justiça, cruzes, manifestações, não haveria nem debates sobre o tema. 

Um amigo que mora em Hamburgo disse que o governo planeja construir uma linha de trem em 2014 e desde já faz consultas públicas para escolher até o banco do trem. Em São Paulo, só nos chamam para uma audiência pública quando o projeto já está pronto. Isso, quando chamam. A audiência da Nova Marginal saiu no Diário Oficial e numa notinha num jornal, que nunca encontrei. 

Eu não ligo para os ecochatos, veganoschatos, ciclochatos, motorchatos e zilhões de chatos que temos por aí. Mas incomoda demais os “passivoschatos” que se escoram na desqualificação e ironia para esconder a falta de argumentos. Já passou da hora de o brasileiro exercer a cidadania na plenitude da palavra, e, se os passivoschatos não querem fazê-lo, tudo bem, mas, por favor, não atrapalhem os que querem. Olha que somos muitos.

Dia Sem Carro. E daí (de novo)?

Minha coluna aqui está completando um ano e quero agradecer pelo espaço. Escrevo há quase dez anos, mas meu público sempre foi a turma das bikes. No Destak, tive a oportunidade de interagir com pessoas de todos os tipos, trazendo novas expectativas e mostrando o ponto de vista da galera que está fora desse nosso mundinho. Isso me ajudou muito; por isso, muito obrigado por esta maravilhosa oportunidade.

Mas quero falar sobre mais um Dia Mundial Sem Carro (DMSC), que ocorre no 22 de setembro. Aliás para que um DMSC? Segundo a pesquisa Origem e Destino, do Metrô, apenas 50% das famílias possuem carro. Sabendo que nem todos de uma família usam carro, podemos dizer que apenas cerca de 30% da população usa carros todos os dias. Portanto, o DMSC só existe porque essa minoria causa um transtorno enorme a todo o resto da população.

No Desafio Intermodal de São Paulo, realizado na última quinta, o carro foi mais lento do que moto, bicicleta, patins, skate e até do que uma pessoa correndo, sendo apenas mais rápido que o transporte público. Ou seja, além de ser responsável por 90% da poluição da cidade, o carro também atrapalha a vida da maioria da população, que depende do transporte público e para quem o DMSC é todos os dias.

O DMSC serve para tentar sensibilizar essa minoria que tanto impacta a vida de todos os moradores da cidade, mostrando o quanto somos dependentes do carro e o quanto essa dependência é exagerada. O DMSC serve para abrir os olhos dos motoristas que ficam felizes com o anúncio de tantas obras viárias sem se preocupar com o fato de que nem um décimo desse valor será investido em transporte público ou calçadas (nem falo de ciclovias).

Portanto, fica a dica: amanhã, prefeito Gilberto Kassab, em vez de ir de ônibus dos Jardins até a prefeitura, faça uma caminhada da sua casa até o Jockey Club. Veja a aventura que será atravessar a ponte Cidade Jardim e sinta na pele o quanto é ruim viver numa cidade que foi planejada pensando apenas em quem tem carro.

E você, leitor motorista, por que não aderir? Da mesma maneira que eu passei a prestar mais atenção em quem está fora do nosso mundo, experimente sentir o que sentimos todos os dias. Quem sabe você não mudará a forma de enxergar sua cidade? Pense nisso e feliz Dia Mundial Sem Carro para nós.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”. Clique e veja a coluna no site do Jornal.

Respeitem o meu caixote!

Minha "Bike Caixote" conhecendo o Museu do Olho em Curitiba

Muitos já devem saber do meu novo blog, o Bicicreteiro.org. Sim, com r mesmo. Minha principal motivação foi valorizar o ciclista mais humilde (que é maioria), muitas vezes discriminado até mesmo por outros ciclistas.

Ser “bicicreteiro” tem vários sentidos. No interior, é aquele cara que manja muito de bicicleta, o máximo de elogio que você pode receber. Sou bicicreteiro com orgulho, pois me identifico muito com a figura do especialista, com o mais humilde, já que, antes mesmo de adotar a bicicleta como estilo de vida, ela já era minha única opção de transporte.

Ao assumir de vez esse meu lado “bicicreteiro”, mudei meu modo de pedalar na cidade. Deixei de ver o trânsito como uma guerra, em que, para pedalar, teria de usar até armadura. Passei a encarar as pedaladas como algo simples e prático. Vou devagar para não transpirar, planejo minha rota evitando avenidas. Em grandes distâncias, integro minha magrela com o transporte público. Às vezes, uso o sistema de aluguel de bikes. Uso a bicicleta como usaria um carro. Você usaria luvas, capacete e roupas especiais para dirigir?

Como levar seu amigo até o Aeroporto de bicicleta

Buscando a praticidade, me inspirei nesses ciclistas que usam um caixote de plástico no bagageiro. Para tornar tudo mais prático, comprei um caixote e adaptei um sistema de engate rápido. Com um clique, coloco e retiro o caixote em dois segundos. Já usei no mercado, feira, carreguei sacos de cimentos e até outra bicicleta.

Cargueira

Mas, no meu primeiro dia com o caixote, num trajeto de 20 km, levei três finas. Numa delas, parei para conversar com o “monstrorista” e ficou claro que ele fez de propósito, apenas por me considerar mais um “bicicreteiro de m…”, e que talvez ele não fizesse isso se me julgasse um “ciclista de verdade”.

Imagino quantas pessoas foram assassinadas só porque um “monstrorista” resolveu fazer o papel de juiz. Semana passada, transcrevi o texto da minha amiga Falzoni, que sabiamente se colocou como praticante fervorosa do “não preconceito”. Quero seguir também essa religião e ficaria muito mais feliz se mais pessoas fizessem o mesmo, pois não é nada agradável estar na pele de alguém que sofre preconceito. Por isso, peço: pratique o não preconceito, pois ele pode fazer com que mais pessoas continuem pedalando, além de salvar vidas. E, por favor, respeite o meu caixote, tá?

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”. Clique e veja a coluna no site do Jornal.

Tempo ao tempo, e não ao preconceito

Hoje quero resumir um texto da Renata Falzoni, em resposta a uma coluna da Barbara Gancia, na Folha de S.Paulo, que citava a Medalha José de Anchieta que ela irá receber por sua luta por melhores condições para a bicicleta em São Paulo. É uma lição a todos.

Compartilhe sem preconceitos - Foto: Alexandre Cappi/brstock
Compartilhe sem preconceitos – Foto: Alexandre Cappi/brstock

“Reduzir-me a ‘medíocre’ não me atinge, pois essa é uma alcunha, dirigida a todos os visionários que nascem antes de seu tempo. Sempre fui e sou criticada por não ser homossexual. Sou julgada pelo meu ‘jeitão’. Evito essa tecla. Não vim ao mundo para discutir opção sexual, mas sim para praticar – e não discutir – o não preconceito.

O não preconceito a tudo, a opção sexual, a raças, a condição social e, em especial, ao modo como eu escolhi para me locomover nas cidades. Eu não somente falo do transporte em bicicleta, eu pratico. Assim busco um mínimo de sustentabilidade e praticar a tolerância.

E, todos os dias da minha vida, dou uma revisada na forma como interpreto as coisas ao meu redor, para identificar onde está o meu preconceito sobre qualquer assunto e cair fora dessa perigosa armadilha: A opinião pré-concebida sem filtros. Não professo religião, mas posso dizer que praticar o não preconceito é uma escolha espiritual.

Sofro pela minha opção sexual heterossexual; por ser uma videorrepórter e não uma repórter ao lado de um cameraman; pela minha preferência de locomoção não condizer com a minha posição social. Imagine o que é chegar a um restaurante “chique” de bicicleta! Preconceito à parte, ir de bicicleta é um direito constitucional. Assim como ir a pé, de trem, de ônibus e até de carro.

Quem pedala sabe que ir de bicicleta é viável – tanto que São Paulo tem 380 mil viagens de bicicleta por dia. Todos os ciclistas com um denominador comum: o bom senso.

Todas as grandes cidades do mundo caminham para retirar os carros das ruas e combinar soluções que somam transporte público à bicicleta. Por que São Paulo será diferente? Aqueles que não acreditam na bicicleta como parte da solução terão suas bocas caladas com o tempo.

Tempo ao tempo, e não ao preconceito. E dia 3 de setembro vamos buscar a Medalha José de Anchieta em homenagem a nossa causa”.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”.Clique e veja a coluna no site do Jornal.

Ciclistas folgados

Continuando na linha “ele é folgado, portanto tenho o direito de matá-lo”, hoje vou tentar explicar por que a maioria dos ciclistas não respeita várias leis de trânsito. Apesar de a letalidade que um ciclista pode causar ser muito baixa e estar longe de ser um problema de saúde pública (como é o caso dos carros), não dá para fechar os olhos para a questão.

Meu amigo teve um sobrinho atropelado por um ciclista. Na queda, a vítima sofreu traumatismo craniano. Por sorte, o garoto está bem. Minha avó foi vítima de um ciclista que descia uma ladeira na contramão. Após o acidente, nunca mais foi a mesma, vindo a falecer uns quatro anos depois. O ideal seria que todos respeitassem as regras de trânsito e, principalmente, que elas fossem justas. Mas não é o que ocorre no Brasil.

Uma concessionária realizou uma pesquisa com os ciclistas e constatou que 65% não tinham carteira de habilitação. É comum ciclistas novatos descobrirem nas nossas redes de relacionamento que não podem andar na contramão ou na calçada. Eu já fui “orientado” até por agente da CET a andar na calçada e na contramão! Se o motorista que fez “escolinha” não sabe que tem de reduzir a velocidade ao ultrapassar um ciclista (Art. 220), ceder uma distância de 1,5 m (Art. 201), dar preferência nas conversões (Art. 38) ou mesmo proteger os veículos menores (Art. 29), fica até difícil cobrar conhecimento de leis de trânsito de ciclistas ou pedestres.

Ciclistas e pedestres no Brasil são marginalizados. Políticos não andam a pé. É por isso que temos na Vila Olímpia mais helipontos do que pontos de ônibus. Daí, resta aos gestores de tráfego tentar impor a lógica do carro ao ciclista. Claro que não vai dar certo. Ciclista cansa, não adianta mandá-lo subir um morro para não pegar tal via, pois ele vai fazer o caminho mais curto e mais fácil. Ou vai abandonar a bike e ir para o carro ou a moto. É isso que queremos?

Minha intenção não é isentar os ciclistas de responsabilidades, mas sei que, no dia em que formos inseridos na lógica maluca desta cidade, ficarão cada vez mais raras as infrações de ciclistas, restando apenas alguns lunáticos que querem mesmo é viver numa terra sem lei. Mas, convenhamos, lunáticos assim temos em bicicletas, motos, carros e ônibus, e para esses não temos muito o que fazer, a não ser esperar que o Estado cumpra seu papel.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”.Clique e veja a coluna no site do Jornal.

Pedestre folgado

Sou um ferrenho defensor dos pedestres. Creio que mais até do que defendo os ciclistas. Primeiro, porque todo mundo é pedestre. Segundo, porque, quanto mais gente nas ruas, mais valorizado será o espaço público. Óbvio que nossa cidade não dá a mínima para o pedestre, mas me revolto quando alguém, para justificar sua estupidez, aparece com o ridículo argumento do “pedestre folgado”.

Quer dizer que, se um pedestre cometer uma infração, o motorista ganha salvo-conduto para “dar-lhe uma lição” ou mesmo matá-lo? Então, se um “pedestre folgado” der um tiro em cada motorista que estaciona na calçada, ele estará no seu direito! Pior é que esse comportamento assassino não passa de reflexo da impunidade que impera no trânsito brasileiro. Enquanto um cara que é acusado de matar uma mulher – cujo cadáver nem existe ainda – vai preso (não que eu ache que ele não deva ser preso), outro que atropelou e matou um garoto, com carro modificado, que subornou um PM, não deve dormir um único dia na cadeia. Duvido que o garoto que atropelou o filho da atriz Cissa Guimarães vá preso.

Tem também a omissão dos agentes de trânsito, às vezes nem por culpa deles. No domingo, conversei com um agente da CET, e ele me disse que não pode multar o motorista que tira fina do ciclista. Até me mostrou a relação das multas que pode aplicar, e essa não está lá. Apenas a PM pode aplicar essa multa.

Cansei de ver motoristas cometendo as mais bizarras infrações de trânsito na frente de PMs, e raros são aqueles que colocam a mão no talão de multa. Já os amarelinhos que até querem autuar não podem. Aliás, até podem realizar algumas punições, mas se concentram no rodízio, algo que impacta diretamente na fluidez. Por que não priorizar o desrespeito à faixa de pedestres? Ordens de cima? Já que o poder público se concentra nas infrações que atrapalham a fluidez e ignora as que faltam com o respeito à vida e à cidadania, o ciclo se inicia. O motorista estressado assume o papel de juiz e executor. Coitado do pedestre que está na hora e no lugar errados. Pouco importa se ele atravessa fora da faixa porque não há faixa perto ou, quando há, a travessia nela é mais perigosa, devido ao fato de os motoristas fazerem conversão em terceira marcha. O que importa, pensa o motorista, é que “sou mais forte, tenho mais dinheiro, mais direitos”. No fundo, ele está certo. Pois, se der sorte de não atropelar alguém famoso, dificilmente terá problemas se matar um pedestre.

Link para a coluna no Destak