O dia do meu pai

Oi, meu nome é Marcos, tenho 5 anos e vou contar um pouco sobre o final de semana que passei com meu pai. Fazia tempo que eu não via ele, não consigo ainda entender direito porque ele fica tanto tempo longe de mim, lembro que ele morava na minha casa com minha mãe, que a gente dormia juntos quase todos os dias, mas parece que ele brigou com minha mãe e foi embora de casa, depois disso não consigo mais ver ele bastante, antes ele até aparecia em casa, me levava para a casa dele, ficava lá uns dois dias e ele me trazia de volta, agora nem isso acontece mais.

Teve um dia que eu estava num ônibus com meu pai, indo para a casa da minha mãe. Eu estava deitado com minha cabeça na perna dele e ele me perguntou por que estava triste, então eu disse que iria demorar muito tempo para ver ele novamente. Percebi que meu pai ficou triste também, então ele disse que iria conversar com minha mãe para arrumar um jeito da gente se ver mais vezes. Não sei o que ele falou pra minha mãe, mas depois desse dia ficou ainda mais difícil ver meu pai. Ele aparecia uns dias na minha casa pra me ver e quase sempre minha mãe e minha avó acabavam discutindo com ele. Eu chorava porque não gosto de ver meus pais brigando, só sei que depois da última briga meu pai não voltou mais pra me pegar em casa.

Na escolinha me disseram que estava chegando o dia dos Pais e pediram para a gente fazer os presentes dos papais. Fiz dois desenhos, um coloquei numa bolsa, colocamos num saco com uma fita, o outro desenho coloquei numa carta. A gente tá aprendendo a falar inglês na escolinha, falar em inglês é a mesma coisa que falar em português, só que as palavras são diferentes, por exemplo, em inglês eu chamo meu papai de “Dad”. Fiz os presentes mas não sabia se iria entregar para meu pai porque fazia muito tempo que ele não vinha me ver, mas estava em casa vendo Discovery Kids quando tocou a campainha e ouvi a voz do meu pai. Peguei meu presente, corri para o portão, abracei ele bem forte e entreguei meu presente para ele que ficou muito feliz. Perguntei quando é que ele iria me levar para a casa dele e ele me disse – “Vou te levar agora!”

Que legal, nem sabia que iria poder ficar sozinho com meu pai, ninguém tinha me falado nada, foi uma surpresa gostosa. Até esqueci quando foi a última vez que eu fui na casa do meu pai, mas ele me disse que fazia 10 meses. Não sei direito quanto tempo é isso, mas acho que é bastante. Ele me colocou no carro e me levou no Shopping, disse que a gente iria ficar lá jogando no Hot Zone até a namorada dele chegar. Ele parecia nervoso, disse que tinha medo de eu não gostar da namorada dele, mas eu falei para ele não ficar nervoso porque eu gosto de todo mundo mesmo.

No carro entreguei para ele a carta que tinha feito pra ele, nela eu escrevi “Dad I Love You!” a professora disse que é a mesma coisa que “Papai eu te amo!” e como eu amo meu pai escrevi assim mesmo. Também fiz um desenho meu jogando videogame e ensinando meu pai a jogar. Desenhei também minha vó Cida (que é a mãe do meu pai) vendo a gente jogar. Quando ele viu a carta ele até chorou, achei que ele não tinha gostado, mas ele disse que era de felicidade.

Depois do Shopping fomos pegar a Thelminha, meu pai chama ela assim porque ele diz que ela é pequenininha, mas ela é bem mais maior que eu (meu pai falou pra eu não falar “mais maior”, que é só maior). Ele me levou até a casa dele e lá vi de novo a Nataly, minha prima que eu não via desde que meu pai disse que iria conversar com a minha mãe. Também vi minha vó Cida, comemos pizza, brinquei muito com ela. Depois fiquei sozinho com meu pai jogando no computador até a gente ficar bem cansado e dormir.

No dia seguinte acordei do lado do meu pai, do jeito que eu acordava quando ele ainda morava na minha casa, dei um abraço nele e disse “Eu te amo”. Ele chorou de novo, acho que não vou mais falar eu te amo pra ele para ele não chorar mais.

Depois que tomei café, meu pai me chamou para cortar o cabelo dele. Um dia meu pai me disse que iria cortar o cabelo careca, mas eu disse pra ele não fazer isso porque eu não iria reconhecer ele. Então ele disse que quando pudesse me levar pra casa dele, que eu iria cortar o cabelo dele, assim eu iria saber que ele era ele. Fazia tanto tempo que ele disse isso que ele já tava com um cabelo grandão, maior que cabelo de menina. Então peguei a máquina que ele comprou e comecei a cortar o cabelo dele, foi bem legal. Depois minha vó continuou cortando até ele ficar careca. Foi engraçado cortar o cabelo dele, mas só não gostei dele careca, achei que ficou feio. Mas ele disse que seu cabelo vai crescer rapidinho.

A namorada do papai chegou e a gente foi para um restaurante, era uma festa de uma amiga da namorada do papai. A gente comeu, meu pai dançou comigo e foi bem legal. Só uma hora ele ficou bravo porque eu não quis comer toda a comida que ele colocou no prato. Ele disse que a gente tem que comer de tudo porque nem sempre a gente pode escolher. Meu pai sempre ficava bravo quando eu comia tudo, mas depois que ele foi embora de casa, ninguém mais reclama quando deixo comida no prato e me deixam comer o que eu quiser. Lá eu comi bastante batatinha (adoro batatinha) e uns pasteis. Tinha um que não gostei, era um pastel de pomada, mas meu pai disse que era de queijo.

Depois meu pai deixou a Thelminha num lugar pra ela trabalhar e me levou no parque, disse que iria alugar uma bicicleta pra gente andar. Fiquei bem feliz porque fazia tempo que não andava de bicicleta com meu pai, mas um homem que emprestava as bicicletas disse que não podia mais alugar uma bicicleta para a gente porque estava tarde. Fiquei triste e comecei a chorar, daí o homem me viu chorando e perguntou se servia uma bicicleta grande com volante, disse que sim e fui pedalar com meu pai.

A gente deu duas voltas de bicicleta no parque, na primeira meu pai ficou pedalando e eu dirigindo, na segunda eu ajudei meu pai a pedalar e chegamos bem rápido no final da ciclovia. Foi bem legal andar de bicicleta com o papai, mas ele disse que no dia seguinte seria melhor ainda porque a gente ia andar na bicicleta dele e com a minha cadeirinha. Adoro pedalar com meu papai na minha cadeirinha.

No dia seguinte meu pai me acordou bem cedo, mas eu estava com muito sono e não queria acordar. Ele disse que iria pedalar sozinho, então eu levantei rapidinho. Tomei meu chocolate e já saímos, meu pai disse que a gente estava atrasado, mas eu queria dormir um pouco mais. Fomos eu, meu pai e a namorada dele até uma ciclovia, meu pai disse que isso é o nome de uma rua para bicicletas. Quando chegamos lá tinha um monte de amigos do papai de bicicleta também, estavam só esperando a gente.

Meu pai me contou que já tinha me trazido nessa ciclovia, falou que tem umas capivaras e daí eu me lembrei. Capivara é um bicho grande, parece um ratão grandão, só que é marrom e não tem rabo. Eles moram ali na beira do rio e ficam comendo só grama. Não vi nenhuma capivara, a gente só viu um monte de cocô delas.

Ainda estava com um pouco de sono e no meio do caminho falei pro meu pai que queria voltar pra casa da vovó Cida pra brincar com a Nataly. Meu pai ficou bravo de novo comigo (não gosto quando meu pai fica bravo), disse que a gente tinha acabado de sair de casa e falou que não ia mais me levar para andar de bicicleta com ele. É que naquela hora estava meio chato e não sabia se ia ficar legal, mas acho melhor não falar mais pro meu pai que quero ir embora senão ele não me leva mais para pedalar.

Ele disse que a gente iria parar num lugar bem legal para fazer um piquenique. Eu adoro piquenique, disse que o nome do lugar é Solo Sagrado e que tinha uns pilar grandão, parece aquelas torres que a gente tem que derrubar no joguinho do celular do Thiago, o amigo do papai. A gente estava em um monte de ciclistas e para ajudar meu pai eu fui tirando fotos para ele da minha cadeirinha.

Meu pai tira um monte de foto dos passeios de bicicleta e coloca na internet, eu gosto de ajudar meu pai e tirei um montão de fotos dos amigos dele. Disse pra ele pegar essas fotos e fazer um livro e ele disse que vamos vender e ganhar um montão de dinheiro, daí vou poder comprar um monte de joguinho de vídeo-game.

Continuamos pedalando e a gente chegou no lugar do piquenique, um lugar bem bonito, tinha bastante flores e muitas árvores. Meu pai me mostrou um negócio que chama “espelho d’água”, perguntei se podia colocar a mão e ele disse que se a gente colocasse a mão ela desintegraria. Ele colocou a mão e começou a gritar, me assustei um pouquinho só, mas vi que meu pai estava brincando porque a mão dele ficou normal, depois ele falou que era só água. Coloquei minha mão e foi bem legal, ainda fiquei brincando bastante naquela água enquanto a namorada do papai tirava um monte de foto.

Depois a gente foi até os pilar grandão e é muito grande mesmo, nem meu pai consegue alcançar lá em cima. Tiramos umas fotos mas eu queria mesmo era fazer o piquenique porque minha barriga estava doendo de fome. Meu pai me colocou na cabeça dele, tenho medo de altura, mas eu gosto de ficar na cabeça do meu papai, dá pra ver tudo lá de cima. Ele me levou até o gramado que fica na beira de um mar, mas meu pai disse que aquilo não é mar e sim uma represa, falou que a diferença é que a água ali não é salgada como no mar que daria até pra beber. Só não dava porque a água é meio suja porque tem muita gente que joga lixo na rua. Ele disse que  quando chove, todo o lixo da rua vai parar na represa ou no rio. Eu vi quanto lixo tinha naquele rio do lado da ciclovia, falei pro meu pai que é feio jogar lixo no chão e que eu só jogo lixo no lixo.

Meu pai achou seus amigos e a gente sentou na grama. Quer dizer, ele sentou na grama e eu no colo dele, daí a Thelminha fez pão com polenguinho pra mim e ficou bem gostoso, mais gostoso que o pastel de pomada que eu comi no restaurante. Depois que comi, peguei a máquina fotográfica do meu pai e fui tirar foto pra ele, precisava tirar bastante foto pra gente colocar no nosso livro. Tirei fotos de todos os amigos do papai, eles eram bem legais, ficavam brincando comigo e fazendo pose. Tirei fotos de umas pessoas pulando na grama, meu pai disse que eles estavam jogando capoeira, não vi eles jogando poeira pra cima, mas mesmo assim foi bem legal.

Depois que a gente comeu chegou a hora de ir embora, meu pai me colocou de novo na sua cabeça e me levou até onde deixamos as bicicletas. Um amigo do meu pai me deu uma mexerica e meu pai disse para comer enquanto ele estivesse pedalando. No caminho ele jogou as cascas junto com as árvores, achei estranho pois é feio jogar lixo no mato, mas meu pai disse que comida não é lixo e que se jogarmos perto da raiz das árvores, que a comida vai pra dentro da terra e a árvore como a comida pela raiz. Eu não conseguia entender como a árvore come pela raiz se nela não tem boca, mas meu pai disse que a comida vira nutriente bem pequenininho, que entra na raiz e depois a árvore come. É meio esquisito, mas ele disse que quando ficar maior vou aprender isso na escola vendo essas comidinhas pequenininhas no microscópio.

A gente continuou pedalando mas o pneu da bicicleta do papai furou e ele teve que parar para arrumar. Enquanto isso fiquei tirando mais fotos dos amigos dele, tinha um com umas tatuagem no braço, mas gostei mais da bicicleta dele e tirei muitas fotos.

Meu papai arrumou a bicicleta e voltou a pedalar, mas nessa hora fiquei com muito sono. Meu pai pediu para eu não dormir até chegarmos no Mac Donalds, mas eu não consegui ficar acordado e dormi na cadeirinha mesmo. Depois meu pai me acordou, disse que a gente estava quase chegando e pediu que naquela parte eu não podia dormir, então ele me deu a máquina para tirar mais fotos. Falei pro meu pai pra ele separar as fotos e fazer dois livros, um só com as fotos ruins e outra com as boas, mas para deixar as melhores fotos no final.

Uma hora a gente parou, meu pai disse que a gente estava perto do Mac Donalds e se deu tchau para os amigos dele. Tirei mais uma foto dos amigos dando tchau, alguns deles disseram que gostaram de mim e que é pro meu papai me levar em outros passeios com eles. Tomara que meu pai não se lembre de quando disse que não me levaria mais pra pedalar com ele, porque foi bem divertido pedalar com os amigos do papai, quero ir de novo.

Depois a gente foi no Mac Donalds, meu pai disse que o vovô Roberto, o pai dele, ia encontrar a gente lá. Pedi um Mac Lanche Feliz e fui brincar nos brinquedos e lá já fiz um monte de amiguinhos. Logo o vô Roberto chegou e meu pai me chamou para comer, comi meu lanche mas pedi pro meu pai levar o brinquedo pra casa dele, daí quando for de novo dormir lá a gente monta o brinquedo junto. Ficamos mais um pouco no Mac Donalds e depois fomos embora.

Já estava escuro, perguntei pro meu pai quantas horas a gente estava pedalando e ele disse que já tinha passado 13 horas. Nossa, quanto tempo fiquei pedalando com meu pai e nem pareceu muito. Meu pai me disse que estava me levando de volta pra casa da minha mãe, mas queria ficar mais tempo com ele, falei pra ele ligar pra minha mãe e pedir pra ela deixar eu dormir na casa dele, mas ele falou que não ia ligar pois sabia que minha mãe não ia deixar.

Meu pai ficou sério e parecia meio triste, ele disse que queria ficar mais tempo comigo mas  não queria brigar com a mamãe. Falei pra ele que iria ficar falando para a minha mãe sem parar, “quero dormir no meu pai, quero dormir no meu pai, quero dormir no meu pai” que iria ficar falando até ela deixar.

Antes de chegar em casa a Thelminha disse que eu tenho um coração grande, mas eu disse que meu coração é pequeno pois eu sou pequenininho ainda. Mas ela disse que eu vou crescer e meu coração vai crescer mais ainda. Nossa, não quero que meu coração cresça não, pois ele vai estourar minha barriga!

A gente continuou pedalando até chegar na casa da minha avó, meu pai me deixou lá e foi embora. Eu gostei muito de dormir na casa do meu pai, queria ficar mais tempo com ele,  espero que ele combine direito com minha mãe pois não gosto de ficar tanto tempo longe dele. Meu pai disse que eu fui o melhor presente que ele já ganhou ele disse que prefere ficar comigo do que ganhar presente, eu já gosto dos dois. Tomara que eu volte a pedalar com meu pai de novo porque quero tirar bastante foto pra ele fazer um livro bem legal.

Obviamente que esse texto não foi escrito pelo meu filho, mas é uma livre adaptação de um pai apaixonado que viveu intensamente cada minuto que pude com meu filho depois de uma saga que durou 10 meses e infelizmente esta longe de acabar.

Clique aqui para ver mais fotos desse treino tiradas por mim e pela Thelma, mas não deixe de ver o imperdível álbum de fotos do meu Bicicreteirinho preferido.

E para mais informações sobre o 2º Desafio Bicicletas ao Mar, clique aqui.

André Pasqualini

Mensagem de pai para filho

Mais uma vez fujo do assunto bike e continuo usando esse blog como o meu espaço, onde eu escrevo meus pensamentos, algo que fiz diversas vezes, principalmente enquanto realizava a viagem do Projeto Biomas. Agora quero dar um recado ao meu filho, mas serve também para todas as pessoas que, infelizmente, ainda não tem a menor noção do que é ser pai.

Na natureza é assim, a preocupação do macho é espalhar seus genes pelo maior número de fêmeas possível. Já a fêmea, em geral, busca um macho que possa lhe dar segurança e uma prole saudável. Infelizmente esses instintos falam mais forte na grande maioria dos humanos (homens e mulheres), por isso inventaram essa máxima de que a mãe é tudo, uma pessoa indispensável, deixando o papel do pai como algo secundário e irrelevante. A mãe tem seu papel, mas achar que ela se basta é a maior “tiro no pé” que uma mãe pode cometer.

Soma-se isso a irresponsabilidade (as vezes por necessidade) de muitos pais que abandonam seus filhos para viver sua vida, ou mesmo aqueles que abandonam a família sem sair de casa. A preocupação de levar conforto a família é tão grande que muitos esquecem do quão é importante gastar aquele precioso tempo com nossos filhos. Pior é que a grande maioria dos homens cometem os mesmos erros que seus pais cometeram, erros que tanto condenaram quando crianças. Dar carinho, atenção, educar vivenciando e conhecendo nossos filhos é muito mais importante do que a gana de buscar o máximo de conforto para eles. Será que eles precisam assim de tanto conforto? Nós tivemos todo esse mesmo conforto? Será que a falta desse relativo conforto não nos fez a pessoa que somos hoje?

Infelizmente muitas mães se aproveitam dessa enganosa máxima de que são o centro do universo dos nossos filhos e da fraqueza da maioria dos homens, para cometerem essas atrocidades. Se dizem auto-suficientes, enxergam o pai como um inimigo e fazem de tudo para afastá-lo da vida dos seus filhos. Deixam de enxergar um pai e passam a ver um concorrente, ficam cegas por causa desse sentimento novo (que é o amor incondicional que temos por um filho) e destroem um casamento por causa dessa cegueira imbecil, achando que terão os filhos para sempre, sob suas asas. Além de serem tolas e egoístas, não tem a menor noção do mal que fazem para nossos filhos. A cegueira é tanta que a maioria delas coloca a vontade de punir o pai acima da dor que seu filho está sentindo, nessas horas até  questiono se é realmente “amor” o que elas dizem sentir por eles.

Eu não apenas quis ser pai, mas sempre sonhei em ser pai. Tive um pai ausente, desses que sentia ausente mesmo o vendo todos os dias. No meu caso a culpa não foi da minha mãe, ela nada fez para afastá-lo de mim, a responsabilidade foi toda dele. Não quero aqui culpar meu pai, infelizmente ele não é uma pessoa com sensibilidade suficiente para perceber o que seus filhos queriam ou sentiam, aliás esse é o mal da maioria das pessoas, a dificuldade em compreender o sentimento dos seus filhos, melhor, a dificuldade de simplesmente compreender nossos filhos. Foram tantos problemas em sua vida, muitos devido a sua criação, que chega a ser covardia culpá-lo pelo meu sofrimento quando criança, adolescente e até agora na vida adulta.

Mas eu sempre fui uma pessoa observadora. Ao invés de guardar rancor pensava no que fazer para não cometer os mesmos erros com meu filho. E comigo foi assim, antes mesmo do meu filho nascer já planejava meu comportamento, como ser aquele super-herói que  eu tanto esperei do meu pai (que em vários momentos ele foi), como me comportar para criar um vínculo indestrutível, para que mesmo quando o destino nos separar, ele continuasse me admirando, tendo orgulho de mim, que eu sempre fosse uma referência para ele. Uma das coisas que sempre senti falta foi do contato físico do meu pai, então jamais iria deixar de realizar demonstrações de carinho com meu filho.

Ele nasceu e minha vida mudou completamente. Todos os sentimentos que eu já tive em minha vida ficaram pequenos perto do que senti ao ver meu filho nascer. Lembro de que ele foi para o berçário e lá fui eu esperar, do outro lado da janela, para poder registrar seu primeiro banho. Lá se foi um bebe, depois outro, depois outro…

Todos haviam tomado banho menos o meu, então perguntei para a enfermeira o porquê da demora, ela venho até o lado de fora e disse:

“Ele está respirando com certa dificuldade, vou esperar ele chorar um pouco para limpar o pulmãozinho e depois dou banho. Melhor esperar lá no quarto que eu te chamo quando ele estiver pronto”

O que? Eu sair de lá? Nem em sonho! Fiquei encostado como um vegetal, com a cara colado no vidro, sem conseguir virar o rosto de forma que ele saísse do meu campo de visão. Nem percebi que fiquei na mesma posição por uma hora. Pela primeira vez em minha vida eu senti medo de verdade. A possibilidade de perder meu filho, dele ter algum problema, alguma dificuldade, a imobilidade que sentia pois não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-lo me aterrorizava. Lá ficamos nós, nos encarando e fortalecendo um aquele vínculo que já havia nascido quando ele ainda tinha menos de 2 mm e eu ouvia seu coraçãozinho bater a mais de 200 bpm.

O tempo foi passando quando, de repente, ele começa a chorar. Eu também chorei, aliás continuo chorando sempre que relembro aquela cena, aquele alívio de vê-lo lutando para descongestionar seu pulmãozinho, de vê-lo vencendo sua primeira batalha, nasceu um guerreiro…

Logo depois lá estava ele tomando seu primeiro banho e eu feliz, vendo meu guerreiro do outro lado do vidro, observando a única coisa na face dessa terra que me traz alegria de viver, aquela coisinha maravilhosa que faz a vida ter algum significado.

Sou filho e sei o papel que cada um tem em nossas vidas, nunca tive a pretensão de ser mais importante que a mãe, seria idiota em pensar assim. Cada um tem seu papel e jamais um irá substituir o outro. Mas sempre tive a preocupação de ser o pai que eu sempre quis ter. Nunca bati em meu filho e nunca irei bater, mas isso não quer dizer que não o ensinarei a respeitar as pessoas, principalmente seus pais. Como qualquer criança ele já me testou, tentou me enfrentar, mas eu segui minha filosofia a risca, agindo sempre com razão, aliás ele é a única pessoa que faz eu agir sempre com razão ante a emoção.

Sempre tive muito mais medo do meu pai do que respeito ou orgulho. Não queria isso para mim. Portanto adotei uma filosofia, um modo de educar meu filho de maneira que ele jamais queira me decepcionar e isso tem funcionado até então. Certo dia, minha mãe dava bronca em minha sobrinha, pedindo para ela guardar seus brinquedos, mas minha sobrinha não dava a mínima para sua avó. Foi quando meu filho intercedeu:

“Vó, faz que nem meu pai, olha feio para ela (franzindo a testa) que ela vai te obedecer…”

A minha felicidade é que, apesar ser forçado a ficar longe dele, de ter realizado aquela torturante viagem, nosso vínculo ainda está muito forte. Apesar dele ser pequeno, de tentarem enrolar meu filho quando ele demonstra minha falta, sei que eles terão uma tarefa muito difícil.

Mas preciso demais do meu filho e tenho certeza que ele também precisa de mim. Apesar do medo de que ele um dia pense que tentei abandoná-lo, confio na sua inteligência. Logo a idade irá chegar, uma melhor compreensão do mundo e das pessoas que o rodeiam chegará também, pois é difícil apagar a verdade. Ele irá perceber que, infelizmente, algumas pessoas que ele pensava querer o seu bem, não passam de pessoas fracas e egoístas, que ao invés de pensar nele, preferiram fazê-lo sofrer me tratando como um inimigo, lutando para tentar me apagar de sua vida, gastaram muita energia tentando destruir nosso vínculo. Tolos…

Eu luto contra tudo, me dôo, me entrego e mesmo com tudo conspirando contra, mesmo com a depressão querendo me dominar, mesmo com os súbitos desejos de dar fim a essa dor, meu filho sempre será minha âncora, meu norte. Diferente de muitas mães estúpidas, que tem a falsa pretensão de que terão seus filhos eternamente sob suas asas, sei exatamente qual meu papel em sua vida. Irei fazer o possível para prepará-lo para a vida, para ser uma pessoa boa, justa e pronta para os desafios que encontrará, ainda mais envolto nesse universo, onde ele irá descobrir que há ao seu redor diversos lobos vestindo peles de cordeiro.

Infelizmente ele terá uma vida muito dura, sofrerá para encontrar as respostas, mas as encontrará. Mesmo longe lutarei para transformá-lo num homem bom e preparado para fazer a diferença, que possa seguir seu rumo, lembrando da minha imagem, das minhas mensagens, enquanto estiver trilhando sua vida nesse planeta.

Filho, nunca te abandonei. Seu pai teve seus motivos para se afastar e não foi culpa sua, acredite sempre nisso. Se houve algum culpado foram algumas pessoas que, de forma desequilibrada, acharam que você era propriedade deles e de maneira covarde, utilizando a sua inocência, tentaram me afastar de você, chegando ao cúmulo de desejar a morte do seu pai só para você ser apenas “delas”.

Ninguém é dono de você, ninguém tem o direito te privar do contato das pessoas que você ama. Hoje você é muito novinho para entender essa mensagem, mas um dia você terá maturidade para compreender exatamente tudo que ocorreu ao seu redor. As mascaras cairão, você terá a inteligência e sabedoria para tirar suas próprias conclusões. Não só desejo como lutarei para um futuro onde não exista mais nenhuma barreira entre nós. NINGUÉM irá me substituir, idiotas aqueles que acham que isso pode acontecer.

Só peço desculpas por ter feito você sofrer com minha ausência e com toda essa situação. Mas o futuro também lhe mostrará que fiz tudo que estava ao meu alcance para poder evitar essa sua dor. Acredito muito nesse sentimento, nessa nossa ligação e confio no seu julgamento. Serei sempre aquele pai que canta para “meu anjo que venho do céu”, que tenta te levar paz, que quer estar ao seu lado nos piores momentos. Você saberá que sou a única pessoa que você poderá recorrer na certeza de ser compreendido, na certeza de ter a melhor orientação.

Tenho certeza que você irá me perdoar, que compreenderá todas as besteiras que cometi. A única pessoa nessa vida que irei batalhar pelo seu perdão é você. O resto… Que se exploda.

Sei que você irá lutar por nós da mesma maneira que eu luto por você. Hoje nossas armas são fracas, mas não imagina como fico forte ao ouvir seus apelos para me ver, isso só me fortalece para as batalhas que estão por vir. Te amo meu bebê, nossa luta para ficarmos juntos não termina aqui. Tenho certeza que ninguém irá conseguir me tirar do seu coração, nem que o desejo dessas pessoas (de me ver em outro plano) se realize, sei que não existe nada na face da terra com força para destruir nossa história, nossa ligação, nosso vínculo, nosso amor.

CHEGUEI!

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Foto: Daniel Guth

Estou em São Paulo. Cheguei e o momento que mais sonhei nesses últimos 3 meses aconteceu exatamente como imaginava. A distância que me atormentava não existe mais entre eu e meu filho.

Hoje peço desculpas pois vou deixar para amanhã o relato dessa emocionante saga que foi nossa chegada a São Paulo. Hoje meu dia é do meu maior e único amor dessa minha vida e quero curtir cada segundo como se fosse o último.

Abraços e até amanhã.