Um Bicicreteiro em Poa

Terça foi o dia de descanso, da geral na magrela, nas malas e o de conhecer essa famosa cidade de Porto Alegre pedalando. Apesar de haver inúmeras possibilidades, fiz o básico que é pedalar as margens do Rio Guaíba. No Google Maps vi que lá pelo bairro de Ipanema, há uma praça com nome do Senador Alberto Pasqualini, muito conhecido no Rio Grande do Sul.

Minha família não tem nenhuma ligação direta com esse braço gaúcho, mas parece que meu Bisavô era irmão do pai desse Alberto. Na verdade eu só queria um motivo a mais para pedalar.

A cidade de Porto Alegre não é plana como imaginava, tem vários morros (ou lombas como dizem por aqui). Mas grande parte do seu relevo é plano. O clima frio favorece ainda mais o ato de pedalar, portanto o potencial de termos no Brasil uma Copenhagen é gigantesco.

Saí do bairro de Santana e segui rumo a Beira Rio, pode até haver ruas mais tranquilas, mas como não conheço a cidade procurei as avenidas de tráfego bem pesado, infelizmente é exatamente assim que age um ciclista iniciante. Peguei a Avenida João Pessoa e depois a Avenida Ipiranga e de cara deu para notar que se existe alguma dificuldade para o fomento da bike em Porto Alegre não é falta de espaço, pelo contrário. Calçada irregulares, mas largas, avenidas com canteiros centrais amplos, ou seja, é muito fácil investir em bicicleta na cidade.

Os motoristas, em geral, andam mais rápidos que os Paulistas, mas isso é compreensível, pois aqui não há congestionamentos. Um gargalo aqui, outro ali, mas nem 10% da realidade de São Paulo. Achei os taxistas em geral (aqui são carros vermelhos) pouco educados, a maioria das finas que levei foram de taxis. Os ônibus maiores até que não tive muitos problemas, mas os Micro-ônibus, que chamamos em Sampa de Vans ou Lotações, com eles o compartilhamento foi bem tenso.

Quando cheguei na Avenida Beira Rio havia um calçadão e não sabia se era uma ciclovia, calçada, só sei que vi vários ciclistas e segui por ali. Ele está em obras e deve ficar melhor perto da Copa, mas poderia haver o mínimo de ordem ali.

Segui beirando o Guaíba, passei em frente ao Estádio do Beira Rio e na beira do Rio Guaíba há várias escolinhas do Inter e do Grêmio. Encontrei uma ciclovia com tijolinhos e não consigo entender porque insistem nessas porcarias de tijolos e não asfaltam de vez. Com certeza, quem decidiu pelo tijolo não pedala. Esse trecho, provavelmente os tijolos foram retirados para alguma obra e o pedreiro não teve paciência para montar o quebra-cabeça.

Era fim de tarde e logo após o estádio do Beira Rio era esse meu visual.

Pedalei até o bairro de Ipanema, deixei de beirar o Rio Guaíba e encarei a primeira lomba, na avenida levei várias finas, principalmente das Vans, tentei cortar caminho por dentro de um bairro, mas encarei só ruas de paralelepípedos e muita subida, não foi uma boa ideia.

Cheguei até a praça do meu Tio-avô, não havia nada de especial nela e comecei a voltar, pois queria ver aquele pôr do sol na beira do rio. Era umas 17h15 e comecei meu retorno, mas logo um covarde de uma Van (número 161), buzinou e jogou seu carro contra mim, mesmo havendo muito espaço para me ultrapassar. Ele parou no ponto e parei ao lado dele para tentar descobrir porquê ele fez aquilo, mas ele começou a andar e mandou eu entrar na frente dele, num claro sinal de que se eu fizesse isso ele faria comigo o mesmo que o psicopata do Neis fez a Massa Critica.

Fiquei revoltado e comecei a chamá-lo de covarde, então ele jogou seu carro contra mim e acelerou. Pedalei forte, mas como disse lá no começo, aqui não tem congestionamento e não consegui alcançá-lo. Ah se isso houvesse ocorrido daqui a uns dois anos, prazo que eu dou para essa cidade ficar igual São Paulo se mantiverem essa política carrocrata absurda…

Voltei pela Beira Rio e fui até a Rua da República com a José do Patrocínio encontrar a Livia (@bikedrops) minha anfitriã na cidade, pois queria saber mais sobre o que ocorreu no dia em que o Ricardo Neis atirou seu carro contra a massa de ciclistas.

Fomos até a Praça Zumbi dos Palmares, ponto de concentração da Massa Crítica e ela contou os detalhes do que ocorreu no dia. Sempre que a massa saí da praça, ela entra nessa José do Patrocínio e naturalmente ocorre uma contenção dos carros que seguiam a rua, até toda a massa sair da praça, bem naquele dia, o primeiro carro da contenção era desse Neis.

Praça Zumbi dos Palmares – Concentração da Massa Crítica

Como já ocorreu comigo em algumas bicicletadas, alguns motoristas ficam inconformados por serem obrigados a esperar 1 minuto a massa passar e esse Neis, simplesmente forçou a passagem, derrubando e machucando uma ciclista que havia parado em frente ao seu carro.

Local da contenção e do primeiro contato com o Neis

Imediatamente, muitos ciclistas da massa foram conversar com ele para acalmá-lo, sem violência e isso é a prática, por motivos óbvios. Um motorista carrega uma arma de 1 tonelada e podemos até tentar bater nele (vontade muitas vezes não falta), mas procuramos acalmá-los, até para evitar que eles acelerem e avancem sobre os ciclistas a frente, principalmente quando ele esta atrás da massa.

O máximo que ocorreu, segundo a Livia, que estava no dia e viu tudo, desde o início, foram tapas no carro para ele não jogar o carro contra a garota que ele havia derrubado. Seu filho, a todo o momento pedia para seu pai ficar calmo, mas ele ignorou o garoto.

Quando a massa entrou na rua, o pessoal foi se afastando e deixando ele lá atrás, mas ao invés dele seguir a massa lentamente, ele ficou parado, deixando a massa ir embora. Mal a galera sabia que ele estava apenas, de forma covarde, tomando distância para acelerar. Apenas duas quadras após o primeiro atrito é que ele varreu a massa.

Ponto exato da tentativa de assassinato

Agora falando um pouco da cidade, é triste saber que tudo isso poderia ser evitado caso Porto Alegre tivesse implantado seu Plano Cicloviário que está pronto a uns 6 anos. Que eu saiba, apenas Porto Alegre e Brasília tem planos cicloviários, a base para qualquer investimento em mobilidade por bicicleta, mas porque Poa não implanta? Porque seus governantes não acreditam na bicicleta como uma opção e seguem o mesmo exemplo de São Paulo, endeusando os motoristas como se eles fossem os únicos com direto a se deslocarem com o mínimo de dignidade pela cidade.

Triste ver uma cidade tão bonita, com tanto potencial, ignorar de forma tão vergonhosa os cidadãos que querem se deslocar de bicicleta. E não apenas os ciclistas são tratados com essa repugnância, mas tanto os pedestres como os usuários de transporte público são colocados a margem da sociedade em Porto Alegre, não muito diferente do que ocorre na maioria das cidades brasileiras, infelizmente isso é regra e não exceção.

O transporte público é tão ruim como o de qualquer cidade brasileira, há alguns corredores de ônibus na cidade, parece que até há metro, mas sequer passei perto de alguma linha ou estação. Cidade com ônibus bons é onde a população prefira usá-los e não uma cidade que usa o transporte público como uma ferramenta de exclusão social.

Se eu fosse morador de Poa eu estaria acampado lá na prefeitura, até o prefeito assumir um compromisso, com reserva de dinheiro e prazos, para a implantação do Plano Cicloviário já existente. Dinheiro para pontes inúteis esses caras arrumam, mas para investir em bicicleta não?

Vi muitos ciclistas em Poa, mas grande parte deles se deslocando em calçadas, que apesar da maioria ser de péssima qualidade, são bastante largas. Com esse plano cicloviário implantado, esses ciclistas iriam para as ruas e um verdadeiro boom ocorreria na cidade. O prefeito que tivesse culhão para implantar esse plano cicloviário, poderia até receber uma pressão no começo, mas logo seria considerado um visionário e causaria uma verdadeira revolução na cidade. Não demoraria para ele viajar o mundo, dando palestras, como o Penalosa ou o Jaime Lener.

É  tanta semvegonhice a forma que tratam os ciclistas na cidade que beira a burrice. Se a cidade fosse caótica como São Paulo até daria para entender, mas há espaço, há dinheiro, só não há inteligência, pois uma simples canetada tiraria o Plano Cicloviário do papel.

Se eu fosse dar algum conselho aos ciclistas de Poa, diria que cobrem de todos os candidatos um compromisso com prazos para a implantação do Plano Cicloviário na íntegra. Se eles acham ruim (o que não é verdade) que executem e depois melhorem. Agora se continuarem tratando os ciclistas como idiotas, aí galera… Vocês sabem muito bem o que fazer.

Porto Alegre é linda, uma das capitais brasileiras mais belas que já pedalei, mas isso tem prazo para acabar se a cidade seguir essa linha, em breve será apenas uma mancha caótica como São Paulo e é isso que vocês querem? Sinceramente, não dá para aceitar uma cidade que tem um pôr do sol como esse, deixar ser dominada pela injusta carrocracia que domina esse país.

A chegada em POA (Porto Alegre)

Antes de começar, não deixem de entrar no Catarse do meu livro e dar uma força, estou contando com a ajuda de vocês.

Saímos no dia 24 do Parque Aparados da Serra onde acampamos, embora fosse proíbido. Peço já desculpas pela transgressão, mas estava ficando tarde e não deixamos nenhum rastro de que passamos por lá.

A minha noite foi péssima, a barraca estava molhada das noites anteriores e como meu pé encosta no extremo da barraca, senti meus dedos congelarem, mesmo com 3 meias. Não entendia o motivo, mas de manhã, percebi que a ponta do saco de dormir molhou só por fora e o frio externo foi o suficiente para quase congelar meus pés. De manhã acendi o fogareiro e fiquei quase meia hora fazendo massagem para meus pés esquentarem e voltarem ao normal.

Dia 24 de junho no Brasil é dia de São João, mas também o dia de Quebec, a Vanessa estava toda feliz, disse que a noite iríamos comemorar, pedalou até com a bandeira de Quebec. Em Quebec é feriado, comemoram també o dia de São João e fazem uma imensa fogueira. Pelo jeito as nossas festas juninas e a festa de Quebec tiveram a mesma origem.

Acordamos com uma forte névoa, mas não demorou para o vento levá-la. O dia estava lindo, nenhuma núvem no céu, a partir desse dia seguiríamos só por asfalto, queríamos muito chegar a Gramado nesse dia, mas o ritmo deles é muito lento devido ao peso que carregam.

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O dinheiro de ambos havía acabado e só conseguímos parar para comprar comida em São Francisco de Paula, a 40 kms de Gramado, já eram mais de 16h00 e teríamos que acampar logo que saíssemos da cidade.

Encontramos uma dessas florestas de pinheiros de reflorestamento, havia uma Simbra (porteira de arame) e achamos um bom local para acampar. Como era dia de festa, queríamos fazer uma fogueira, mas como fazer um fogo controlado para não tacar fogo na floresta?

Primeiro achamos o local da fogueira e limpei a área que estava forrada dos ramos do pinheiro, na verdade acho que são as folhas, mas não parecem nada com as folhas que vemos por aí. Depois cavei um buraco de 30 cm e fizemos o fogo dentro, ficou muito bom. Daí só faltava a cerveja, mas olha no que dá deixar um gringo comprar nossas cervejas…

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Deixei a Itaipava com a Vanessa, a Bavaria com o Bertrand e fiquei com a dor de cabeça, como era apenas uma, não tive problemas. Ainda assamos linguiças, comemos pão com gorgonzola, foi uma bela comemoração, até porque seria nosso último dia de pedal juntos.

No dia seguinte queria chegar em Poá, mas eles iriam até Gramado, pois queriam entrevistar o pessoal que organiza o festival de cinema da cidade. De manhã, sob uma forte neblina, me despedi deles já com saudades, espero ter ajudado-os de alguma forma enquanto pedalamos juntos.

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Segui forte rumo a Gramado, queria passar antes deles no Centro de Informações ao Turista (CIT) da cidade, para adiantar ao pessoal o objetivo dos meus amigos canadenses. A neblina era muito forte, as vezes não via mais do que 10 metros, liguei meu pisca e torci para não termos problemas.

Antes passei por Canela, outra cidade turística da região, mas nem tirei fotos, por causa da neblina não via nem minha canela, quanto mais a cidade. Sete quilômetros a frente já estava em Gramado, fui ao CIT e depois ao banco. Lá uma galera de Caxias deu a dica de almoçar num CTG (Centro de Tradições Gaúchas) da cidade, pois no resto da cidade era tudo caro.

Cheguei lá e o buffet livre era 10 reais, boa comida, com direito a sopa, churrasco e sagu de sobremesa. Ótima dica, vou até procurar uns CTGs em São Paulo para experimentar a comida deles. E quando estiver pedalando por terras gaúchas, vale a pena almoçar nos CTGs.

Durante o almoço fiquei conversando com o pessoal de Caxias e eles me sugeriram pedalar até Nova Petrópolis, de lá descer a serra. Teria algumas subidas até 2 Irmãos e depois seria plano até Poa. São 120 kms de Gramado até Poá, já havia pedalado 40 e precisava escolher a melhor rota, a com menos subidas. São várias, então escolhi a indicada pela galera de Caxias.

Logo que saí de Gramado desci de 900 para 500 metros, então peguei um longo vale. Se ficasse assim até Nova Petrópolis, a 30 km dali, seria perfeito, mas chegando na cidade encarei uma longa subida e cheguei a quase 700 metros.

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Essa foi só a primeira roubada, quando entrei na BR-116, despenquei numa longa serra e ao final estava a 80 metros. Achei o máximo, deveria pegar só alguns morrinhos e depois só reta. Mas olhava a minha frente e via uma grande montanha, procurava um vale, ou um espaço mais baixo para atravessar e não encontrava. Não deu outra, foram 6 quilômetros subindo onde cheguei a mais de 500 metros, como xinguei a galera de Caxias, rs.

Xinguei naquelas, eles não são ciclistas e não conseguem avaliar uma subida de carro, e diferente das serras catarinenses, ou mesmo das paredes que ficam entre a Serra do Mar e o litoral, essa serra a caminho do sul vai diminuindo aos poucos, então num trecho de 60 quilômetros, tem muitas montanhas no caminho e elas vão ficando menores, conforme se aproximam de Porto Alegre.

Depois de Dois Irmãos ainda peguei uma longa subida, eram 17h30, já havia pedalado 110 kms e ainda restavam 50 kms até Poá. Iria pedalar de noite mesmo e como a fome estava apertando, parei numa Lancheria (como os gaúchos chamam as lanchonetes) comi um sanduiche com queijo e uma torrada. Torrada é uma espécie de misto quente no pão de forma, mas turbinado, com alface e ovo, muito comum no Rio Grande do Sul. Claro que a coca não pode faltar.

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Ainda ganhei um café quentinho do seu Nilton, dono da lancheria e segui forte até Poa. Pedalando de noite na BR e claro, apesar da velocidade máxima ser 80 km/h na expressa e 60 km/h na local, poucos eram os carros que andavam dentro dos limites, todo cuidado era pouco.

Pra piorar, peguei um caminho errado e fiquei pedalando num trecho de 5 Km de BR sem acostamento, tendo um muro da linha do trem ao meu lado, sendo que do outro lado do trem havia uma pista mais tranquila. Aqui como em qualquer cidade brasileira, eles ligam o foda-se para o ciclista e o pedestres nas rodovias, então tive apenas que me concentrar no pedal e torcer para nenhum Neis da vida passar por cima de mim.

Sobrevivi e quando ví já estava as margens do Guaíba, cheguei em Poa por volta das 21h00. Fui recebido pela Livia (@bikedrops), ciclista gaúcha que conheço há um bom tempo apenas pela internet, mas finalmente nossa amizade evoluiu do virtual para o real.

Hoje é dia de arrumar as coisas, lavar roupas, dar uma geral na bike antes do retorno e conhecer a cidade, não vou deixar de dar um belo passeio por Porto Alegre e amanhã encerro a viagem com minhas impressões daqui.

Mensagem para a Massa Crítica de Poa

Vou confessar, dei muitas risadas quando vi as matérias falando que o Ministério Público de Porto Alegre estava investigando a Massa Crítica da cidade. Para os desentendidos, Massa Critica, Critical Mass, Bicicletada é tudo a mesma coisa, não passa de uma coincidência organizada onde as pessoas se reúnem na última sexta feira do mês e se deslocam pelas ruas da cidade de forma não poluente.

Mas galera de Poa, será que vocês compreenderam realmente qual o significado da Massa Crítica? Quem entendeu, com certeza não está nada preocupado com a interferência do MP (que parece não ter muito o que fazer) e ainda esta rolando de rir com a tentativa do MP e da EPTC em tentar controlar a Massa Crítica. Agora os ciclistas que  aceitaram um encontro com o pessoal da EPTC e MP para conversar sobre a Massa Crítica, estão cometendo erros gravíssimos.

Primeiro que nesse momento NINGUÉM tem que falar em nome da Massa Crítica. Se eu fosse de Poa até criaria um email fake e divulgaria a senha nas listas de discussão de vocês. O email poderia ser liderdamassacriticapoa@gmail.com, por exemplo. Então qualquer pessoa poderia usar o email e mandar mensagens para os “órgãos competentes”. Qualquer mensagem mesmo, seja uma sugestão de como deveria ser a ação da EPTC durante a Massa Crítica, ou mesmo mandar umas receitas de bolo da Ana Maria Braga.

A partir do momento em que uma pessoa responde o poder público, já está cometendo uma cagada gigantesca. Se alguém resolve sentar numa mesa com EPTC e MP, essa pessoa esta cometendo uma burrice sem tamanho!

Lembro do WNBR de 2008 em São Paulo, na época era responsável pelo site CicloBR e publiquei nele uma chamada para a Pedalada Pelada. Como muitos canais de mídia divulgaram meu link, recebi centenas de mensagens como se eu fosse o organizador do evento e até um email da PM pedindo mais “informações” sobre o evento.

Na época lembro que “o trouxa aqui” jogou a mensagem na lista da Bicicletada(SP) pedindo conselhos sobre o que fazer. Muitos disseram que era pra eu responder o email, dizendo que não era o organizador, que era um movimento horizontal, bla, bla, bla. “O trouxa aqui” fez exatamente isso. Respondi, troquei vários emails com os PMs, mensagens sem ameaças, bem simpáticas, sentia até que dava para confiar nos PMs (tolinho). Lembro que dias depois, quando já havia respondido o email, outro amigo disse que se fosse ele, teria ignorado, dito que ficou preso no anti-spam, mas jamais responderia. Era isso que deveria ter feito.

O PM pediu até para eu passar meu número de celular para conversarmos melhor e na maior boa vontade do mundo passei meu número. No dia da pedalada, o Major da PM me ligou, viu minha cara, conversou comigo na praça, venho com aquele papinho de puta pra delegado (que estavam lá para nos proteger, blá, blá, blá…) e o trouxa aqui caindo na conversa como um patinho.

Quando iniciou a pedalada, todo mundo começou a tirar a roupa e nada da polícia fazer algo. Já estávamos na Brigadeiro, uns 2 quilômetros da Praça do Ciclista e deveria haver uns 50 pelados no meio da massa. Como percebi que a PM não fazia nada, achei que estávamos em Londres, onde a PM acompanha a pedalada para proteger os ciclistas, então tirei minha tanga ficando como vim ao mundo e o que aconteceu logo em seguida? Não demorou cinco minutos e o Major Tomada aparecer em minha frente dizendo que eu estava preso, mesmo rodeado por uns 20 ciclistas nus. A Falzoni até disse “Se ele está preso eu também estou” e a resposta do Major foi “Você não!” Vejam os vídeos abaixo para entender o que aconteceu.

WNBR Parte 1

WNBR Parte 2

Meses depois a CET de São Paulo ainda mandou uma multa de R$1.200,00 para minha casa, só porque eles consideraram que eu fui o organizador do evento “não autorizado”. Claro que a multa foi cancelada, minha prisão não deu em nada e até que no final das contas, todos esses acontecimentos serviram para a prefeitura se tocar de que o melhor é estar do nosso lado do que ser contra.

Houve também uma tentativa torpe, até com a ajuda de setores da mídia convencional de tentar desqualificar o movimento, mas nesse mundo conectado em que vivemos hoje, as mentiras não duram tanto tempo assim, portanto não vejo isso também como um grande problema. Agora não sei se vale a pena passar por um desgaste tão grande e desnecessário como eu passei. Antes eu seguisse a ferro e fogo a principal diretriz da Bicicletada, a de que NINGUÉM pode falar em nome dela.

Se eu pudesse deixar um conselho para a galera de Poa seria uma só. Tirem onda da cara das autoridades sem dó. Esse povo de mente hierarquizada tem uma dificuldade enorme para compreender como um movimento horizontal consegue funcionar. Eles realmente acreditam que há alguém manipulando os ciclistas. Sim, eles criam suas teorias da conspiração, acham que é coisa do PT (se o governo é do PT acham que é do PSDB) e por aí vai, então deixem eles aprenderem na marra.

Uma ideia é fazer como na Bicicletada Interplanetária, a galera imprimiu várias camisetas de “vice-líder” e distribuíram entre os ciclistas. Imaginem a cena de alguém perguntando “Quem é seu líder” e a galera respondendo “Não sei, mas eu sou o Vice-Lider”. Daí outro “Eu também, eu também”…

Outra sugestão, podem seguir o exemplo da galera de Sampa e vocês podem eleger um líder da Bicicletada, aqui todo mundo sabe que o Líder da Bicicletada é o Joaquim. Não conhecem o Joaquim? A foto abaixo foi tirada em um Pedal Verde especial, contra a retirada das árvores da Marginal Tietê para a criação de mais uma pista de carros. Mandei essa foto no meu Twitter e escrevi “Prenderam o Líder da Bicicletada”.

A Bicicletada ou Massa Crítica não precisa de autorização para acontecer, bicicletas são veículos e pela lei podem circular, inclusive em massa, da mesma forma que os outros veículos poluidores podem. Aliás o CTB diz, além que os veículos maiores tem que proteger os menores, diz também que eles não podem interromper uma aglomeração, seja de pessoas ou “veículos”.

Aproveitando façam essa pergunta a EPTC, os milhares de motoristas que se manifestam diariamente nas ruas de Poa, causando paralisação da cidade, precisam pedir autorização para circular? Porque a Massa Crítica precisa?

Tirem onda galera, se divirtam com a cegueira das autoridades, um dia eles vão aprender que é possível haver uma organização ante ao aparente caos. Em diversas Critical Mass ao redor do mundo, a polícia acompanha a massa e só interfere quando algum “Neis” da vida atenta contra a massa. Em São Paulo é comum termos acompanhamento da PM em vários trechos, tanto ajudando nos bloqueios, ou nos protegendo, mas nunca tentando interferir no comportamento da Massa, até porque eles já aprenderam que qualquer tentativa de “guiar” a massa jamais funcionará.

Evitem personalizar a Massa Crítica, converse com as pessoas que na boa vontade tentam fazer isso, o melhor caminho é deixar a massa acontecer naturalmente, acreditem, um dia as autoridades locais vão se tocar e ver que é impossível controlar o incontrolável.

Boa Massa Crítica a vocês.

André Pasqualini