Ciclistas folgados

Continuando na linha “ele é folgado, portanto tenho o direito de matá-lo”, hoje vou tentar explicar por que a maioria dos ciclistas não respeita várias leis de trânsito. Apesar de a letalidade que um ciclista pode causar ser muito baixa e estar longe de ser um problema de saúde pública (como é o caso dos carros), não dá para fechar os olhos para a questão.

Meu amigo teve um sobrinho atropelado por um ciclista. Na queda, a vítima sofreu traumatismo craniano. Por sorte, o garoto está bem. Minha avó foi vítima de um ciclista que descia uma ladeira na contramão. Após o acidente, nunca mais foi a mesma, vindo a falecer uns quatro anos depois. O ideal seria que todos respeitassem as regras de trânsito e, principalmente, que elas fossem justas. Mas não é o que ocorre no Brasil.

Uma concessionária realizou uma pesquisa com os ciclistas e constatou que 65% não tinham carteira de habilitação. É comum ciclistas novatos descobrirem nas nossas redes de relacionamento que não podem andar na contramão ou na calçada. Eu já fui “orientado” até por agente da CET a andar na calçada e na contramão! Se o motorista que fez “escolinha” não sabe que tem de reduzir a velocidade ao ultrapassar um ciclista (Art. 220), ceder uma distância de 1,5 m (Art. 201), dar preferência nas conversões (Art. 38) ou mesmo proteger os veículos menores (Art. 29), fica até difícil cobrar conhecimento de leis de trânsito de ciclistas ou pedestres.

Ciclistas e pedestres no Brasil são marginalizados. Políticos não andam a pé. É por isso que temos na Vila Olímpia mais helipontos do que pontos de ônibus. Daí, resta aos gestores de tráfego tentar impor a lógica do carro ao ciclista. Claro que não vai dar certo. Ciclista cansa, não adianta mandá-lo subir um morro para não pegar tal via, pois ele vai fazer o caminho mais curto e mais fácil. Ou vai abandonar a bike e ir para o carro ou a moto. É isso que queremos?

Minha intenção não é isentar os ciclistas de responsabilidades, mas sei que, no dia em que formos inseridos na lógica maluca desta cidade, ficarão cada vez mais raras as infrações de ciclistas, restando apenas alguns lunáticos que querem mesmo é viver numa terra sem lei. Mas, convenhamos, lunáticos assim temos em bicicletas, motos, carros e ônibus, e para esses não temos muito o que fazer, a não ser esperar que o Estado cumpra seu papel.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”.Clique e veja a coluna no site do Jornal.

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