Na minha vez, não quero uma Ghost Bike

Atendi ao telefone e um amigo jornalista me disse que ficou aliviado, pois sempre que ele recebe notícias de ciclistas mortos em São Paulo, no mesmo momento fica apreensivo, com medo de ser eu. Fico imaginando que o mesmo deve ocorrer com meus pais, meus amigos, meu filho quando ficar maior.

Sempre que um ciclista cai morto eu fico derrubado. Por mais que seja nítida a melhora, sei que ainda está muito longe do ideal, como sei que ainda mais ciclistas perderão a vida no trânsito de São Paulo, enquanto estivermos vivendo essa transição. Antigamente eu xingaria Deus e o mundo, mandaria empalarem o Kassab, iria para as ruas protestar, externaria minha revolta do jeito mais fácil, gritando.

Mas confesso que mudei, não sou mais o mesmo Pasqualini de antes e muito se deve a minha viagem. Os mais de 100 dias sozinhos na estrada, foram giros de pedais de muita reflexão. Não apenas ajudou a superar uma separação traumática como me fez entender um pouco melhor o que meu coração tanto quer dizer. Minha forma de me relacionar com as pessoas mudou sensivelmente, hoje posso dizer que sou muito mais tolerante e consigo visualizar melhor as causas dos problemas e com isso ser mais pontual.

Falando da morte desse ciclista na Eliseu de Almeida, pedalo por essa via há muitos anos, desde que morava em Embu das Artes e trabalhava no Parque Dom Pedro em 1995. Ali por inúmeras vezes vi a história da minha vida ser contada como um filminho e desde que me conheço por gente ficava imaginando aquele canteiro central sendo usado como uma ciclovia.

Devia ser o ano de 1996, estava voltando com meu irmão de um desses pedais dominicais quando uma tempestade fez aquele córrego do Pirajussara, que contra sua vontade foi impedido de respirar, mostrar que quando ele quiser, não será o ser humano que irá dizer por onde ele deve correr. Trânsito totalmente parado, a rua virou um rio e lá fomos eu e meu irmão, pedalando com a água na altura do pedivela. Seguimos até o canteiro central e a mais de um metro de altura sentimos o que seria pedalar se ali houvesse uma ciclovia.

Em 2007, num evento no estádio do Morumbi, quando foi anunciado que seria a sede de São Paulo na Copa do Mundo, entre a apresentação de um monotrilho ligando com a estação do Metro, estacionamento coberto para não sei quantos milhares de carros, lá estava a apresentação do sistema cicloviário do Butantã, com promessa de entrega para 2010.

Desde então acompanhei cada passo dessa empreitada e da mesma forma que eu vi gente na prefeitura fazendo o possível e o impossível para ela sair do papel, vi também muito fdp fazendo corpo mole, como sempre ocorreu por parte de inúmeros funcionários públicos que estão na máquina não para servir o interesse público, mas para encostar a bunda, ganhar bem trabalhando pouco. Eu sempre digo que não adianta o prefeito querer algo, pois se o funcionário público não quiser, ele enrola o prefeito e não faz.

Vi uma licitação para o Projeto Básico dessa ciclovia zerar, ou seja, não aparecer ninguém interessado em realizá-la. Também vi esse prazo de 2010 ir para o vinagre, principalmente porque a obra de recuperação da calha do córrego Pirajussara (que está debaixo da via) atrasar dois anos (previsão era de 2008 e terminou só em 2010).

Assim que entregaram a obra, em agosto de 2010, não perdemos tempo e fomos inaugurar a Cicloterra, uma forma de pressionar a subprefeitura do Butantã para eles agilizarem o processo já moroso como é qualquer processo licitatório.

No começo desse ano fiquei sabendo que uma empresa havia finalizado o projeto básico dessa ciclovia e que restava apenas licitar a obra. Mas porque ainda não foi licitada? Porque infelizmente, a máquina pública por dentro é uma bagunça, é grande, inchada, morosa e um parto para descobrir quem está sentando no projeto.

Sim, qualquer processo dentro da prefeitura tem diversas obrigações legais e tem que passar por diversas mãos. Se um funcionário quiser encostar um processo na sua mesa e deixá-lo lá por anos, ele consegue. Foi isso que ocorreu, por exemplo, com um projeto de uma Ciclovia na Carlos Caldeira (ligando o Capão Redondo com a Marginal Pinheiros) que apresentamos em 2007. Em 2010, um desses cicloativistas da prefeitura descobriu que um funcionário sentou no projeto e deixou parado por quase dois anos em sua mesa. Precisamos descobrir quem era esse cara, mandar um ofício de um secretário direto ao chefe dele para a coisa andar.

Como resolver isso? Apenas quando a prefeitura colocar sobre a mesma pasta a gestão de todos os projetos cicloviários. Hoje a CET apenas aprova ou não os projetos que são administrados pelas Subprefeituras, isso quando os projetos chegam a eles. Um exemplo é a Ciclovia que fizeram as margens da Guarapiranga, junto a Robert Kennedy, tocado pela sub Capela do Socorro. A CET já pediu uma cópia do projeto para planejarem uma sinalização do entorno e proporem uma integração maior, inclusive com a Ciclovia da Marginal Pinheiros, mas até hoje não receberam sequer uma cópia do projeto.

Voltando a falar da Eliseu, ali é uma via onde já sabia que cedo ou tarde uma tragédia poderia ocorrer. Não só ali como sei que se nada for feito na Paulista e em diversos outros pontos da cidade mais vidas perderemos.  Lembro que em 2008, quando recebi os dados com mortes de ciclistas em São Paulo, só na Radial Leste haviam morrido 3 ciclistas em dois anos. Depois que construíram a ciclovia as mortes zeraram.

E finalmente, depois de anos implorando, me passaram os dados com as mortes de ciclistas e com eles em mãos, ao invés de sair divulgando esses números na mídia, vou preparar um estudo e apontar os lugares que elas ocorreram e propor  a Prefeitura soluções. Com esse estudo ela poderá direcionar investimentos para praticamente zerar essas mortes.

E é nesse trabalho que irei me concentrar pois sei que de nada vai adiantar pedir o empalamento do prefeito ou mesmo xingar a CET. Até porque esse xingamentos não vão afetar aqueles que são contra a bicicleta, mas abalar emocionalmente ainda mais os que lutam por melhores condições para nós e que ficam tão destruídos como eu quando recebem uma notícia como essa. Em respeito a essas pessoas, a esses cicloativistas dentro da CET (e de toda máquina pública) que vou poupá-los dos meus xingamentos.

Mas vou aproveitar e fazer um pedido público ao Secretário Marcelo Branco, uma pessoa injustamente ofendida por muitos ciclistas. Apesar de saber que ele não vai conseguir acelerar os projetos cicloviários que temos aí, algumas coisas ele pode sim fazer. Primeiro avançar na realização de uma Pesquisa Origem e Destino de ciclistas. Temos que aproveitar esse ótimo estudo que o Cebrap realizou com o mapeamento das rotas no Centro Expandido e além de mapear as ciclorrotas pelo resto da cidade, ampliar o projeto e realizar um trabalho de pesquisa, realizando contagem fotográficas, entrevistas, analises topográficas. Esse estudo será fundamental para a criação de um abrangente plano cicloviário.

Outra coisa que ele pode fazer imediatamente é reduzir a velocidade de diversas vias de São Paulo onde comprovadamente há tráfego intenso de ciclistas, a começar pela Paulista. Não é só porque uma avenida é larga e bem asfaltada que a CET tem a obrigação de manter uma velocidade elevada. O melhor e mais rápido tratamento cicloviário que você pode dar para uma avenida é a redução da velocidade dela.

Na Eliseu de Almeida há muitos abusos e mesmo a velocidade de 60 km/h é elevada demais. Esse infeliz que matou o ciclista ontem, além de estar com a habilitação vencida (não deveria estar ali), com certeza estava em altíssima velocidade, pois mesmo na velocidade limite, jamais iria arremessar o ciclista a mais de 50 metros. Pedalei muito por ali e sei que são muitos os irresponsáveis que colocam nossa vida em risco diariamente. Nessas vias, lombadas, radares, redução da velocidade, tudo isso é pouco, mas algo tem que ser feito.

E assim que terminar esse meu estudo com os dados das mortes de ciclistas, os levarei para a SMT e juntos com os “cicloativistas” de lá, vamos continuar nossa batalha para não só zerarmos esse número de tragédias, bem como aumentar cada vez mais a sensação de segurança dos ciclistas.

Pra encerrar, mais uma vez não farei coro com muitos ciclistas, alguns grandes amigos meus, de ficar responsabilizando esse ou aquele. Eu era assim, mas hoje sei que sou muito mais útil buscando soluções e não culpados.

Tenho plena consciência de que estamos vivendo um forte processo de mudança e toda mudança é conturbada, toda mudança deixa seqüelas e que infelizmente ainda perderemos algumas vidas enquanto as soluções definitivas não chegam.

Meus amigos me perdoem, mas não irei mais a nenhum protesto ou instalação de Ghost Bikes pela cidade. Não sei ainda como agirei se perder mais um amigo para esse trânsito assassino. Espero que isso não ocorra, mas entendam que para mim, a instalação de qualquer Ghost na cidade é como uma imensa derrota, mais uma vida que não consegui salvar e não quero mais vivenciar isso.

Não condeno quem o faz, me solidarizo com todos que trocaram um descanso merecido após um dia de trabalho pela manifestação de ontem. Mas se por acaso o merecedor de uma Ghost for eu, imploro para que ela não seja colocada. Imploro também para que não divulguem fotos minhas com o crânio aberto, pois imagino a dor do meu filho ao ver o pai dele daquela forma.

Se um dia esse trânsito assassino me vencer, quero que a última imagem que meu filho tenha de mim é dos meus momentos com ele, dos nossos passeios de bicicleta, da minha luta por ele e por melhores condições para ele e para todos moradores dessa cidade se deslocarem com segurança. Encarem isso como uma espécie de testamento e também como uma explicação para a minha mudança de atitude de uns tempos para cá.

Ainda me indigno, me revolto, muitas vezes brigo, xingo uns motoristas irresponsáveis, mas tudo isso só faço no calor do momento, quando descanso minha cabecinha e penso no que fazer para resolver um problema, não consigo mais me ver sendo útil estando na linha de frente, disposto a levar borrachada.

É isso, espero que compreendam, sei que meus amigos de verdade vão me compreender e sei que eles farão o possível para, caso a vítima seja eu, que meu desejo seja levado em consideração. Agora me dêem licença pois vou voltar para meu trabalho que é acabar com essas mortes estúpidas na nossa cidade.

André Pasqualini

10 thoughts on “Na minha vez, não quero uma Ghost Bike

  1. Alex Sousa

    Moro em Taboão da Serra sempre percorri a Eliseu de bike, trabalhava na Vila Madalena e ao menos 4 x por semana ia de bike, já passei por altos bocados nela.
    Como fiquei contente quando soube que ai haver uma ciclovia ali, e como fiquei decepcionado quando vi que não fizeram nada depois do término da obra, que se arrastou por longos anos, nessa obra havia alguns trechos interditados para carros que eu e vários ciclistas utilizavam, dava uma segurança e eu imaginava a ciclovia…
    Será se um dia pedalarei pela ciclovia da Eliseu?

  2. svicente99

    Como vc eu espero nunca fazer parte destas estatísticas fatais no trânsito feroz desta cidade. É importante termos MUITA mas MUITA atenção mesmo para escapar das minas que estão nesse “campo” que são as ruas de Sampa. Nossa atitude deve ser sempre defensiva e não de confronto com os motorizados. Defender a nossa vida e dos que dela dependem.

  3. chronos

    Texto mais que excelente. Acho que é o ponto de vista correto a ser seguido, mas ao mesmo tempo as ghost bikes sao importantes, para conscientização.

    Abc!

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