Encontro de ciclistas com motoristas de ônibus

Desde 2006 vinha tentando, junto com a prefeitura, elaborar algum curso para ser ministrado aos motoristas de ônibus para que eles aprendessem a compartilhar a via com os ciclistas. Em 2008, muito devido a articulação do André Goldman da Secretaria do Verde e Meio Ambiente, conseguimos uma reunião na SPTrans e a partir dela o curso definitivamente sairia papel.

Ficou decidido que eu iria elaborar esse treinamento e seria repassado a todos os multiplicadores das mais de 50 garagens de ônibus da cidade. Com base nesse material, seria produzido um curso pela SPTrans que passaria a ser obrigatório a todos motoristas de ônibus de São Paulo.

Ainda sequer tinha formatado em minha mente como seria esse curso quando minha amiga Márcia Prado foi atropelada por um ônibus em plena Avenida Paulista, em janeiro de 2009.

Nem preciso dizer o quanto eu fiquei arrasado e principalmente pressionado, já que após o acidente, como a prefeitura precisava dar uma resposta a sociedade, o pessoal da SPTrans ficou em cima de mim para produzir esse material. Eu produzia o curso em minhas horas vagas, até que em junho de 2009 finalizei o curso e realizei o treinamento com os multiplicadores.

Após o treinamento, os multiplicadores receberam esse material e passaram a

replicar o curso nas garagens. Em pouco mais de 6 meses, mais de 30 mil motoristas passaram pelo treinamento. Não demorou para, como ciclista, notar a mudança de comportamento por parte dos motoristas.

Lembro que pedalava em plena Marginal Pinheiros quando fui ultrapassado por um desses ônibus bi-articulado. Ele fez exatamente o que descrevi no curso, mudou de faixa e ficou me acompanhando pelo retrovisor enquanto voltava para a pista.

Diminuiu consideravelmente aquelas fechadas que recebíamos quando eles paravam nos pontos. Passei a reparar que muitos passaram a tomar atitudes defensivas em relação a nós, seja nas paradas nos pontos de ônibus, seja nas conversões ou ultrapassagens. Não foi apenas uma percepção minha, pelas redes sociais, vários eram os ciclistas que estavam notando essa melhora.

Os números também demonstraram isso, de 12 ciclistas mortos em acidentes com ônibus em 2009, esse número caiu para 6 em 2010 e 4 em 2011.

Mas todo o processo era embrionário, sabíamos que precisávamos evoluir e novamente, antes mesmo da fatalidade que ocorreu com a Julie na Paulista, estávamos discutindo como seria a segunda fase desse treinamento, já que nosso objetivo é que as fatalidades chegassem a zero, patamares europeus.

Claro que depois da morte da Julie a pressão aumentou e passamos a correr com esse treinamento. Mas o que fazer? Qual formato de treinamento que teríamos que adotar para ele ser ainda mais eficiente?

Foi quando decidimos não passar todos novamente pelo mesmo treinamento, mas sim elaborar uma espécie de reciclagem a ser realizada nas garagens, aproximando ainda mais os ciclistas dos motoristas de ônibus.

E para conseguirmos material e ideias para a realização dessa reciclagem, resolvemos bolar uma dinâmica separando-os em três grupos, um apenas com os multiplicadores, quinze instrutores que aplicaram o treinamento nas garagens, um grupo com 10 motoristas de ônibus pegos de forma aleatória e um terceiro grupo, também com dez motoristas de ônibus mas com uma particularidade, todos os dez, além de motoristas de ônibus, também eram ciclistas que usavam sua bicicleta como meio de transporte.

Grupo dos multiplicadores

O resultado dessa dinâmica foi simplesmente sensacional!

Grupo dos motoristas de ônibus

Todos responderam perguntas básicas, como eles viam o ciclista no trânsito, quais os aspectos positivos sobre andar de bicicleta, os maiores problemas para eles realizarem o compartilhamento da via com segurança e um pedido de sugestões de como contribuir para melhorar o treinamento e evitar novos acidentes.

Grupo dos motoristas ciclistas

Alguns pontos importantes.

Tanto motoristas de ônibus como os multiplicadores, inconscientemente dividiram a culpa dos acidentes com os ciclistas.

Já os motoristas ciclistas, em nenhum momento consideraram o compartilhamento um problema, ou algo complicado de ser realizado. A todo momento falaram apenas sobre a ótica do ciclista e da necessidade de protegê-los, ressaltando sua fragilidade a todo momento. Um desses ciclistas até se exaltou quando um dos motoristas disse que via alguns ciclistas como “folgados” e sinceramente achei o máximo, até me diverti com aquilo, pareciam muitos ativistas que vemos por aí.

Antes do início da dinâmica, falei sobre a bicicleta e das minhas sensações, em certo momento falei que não sentia medo de compartilhar o espaço com carros, mas disse que morria de medo de dividir espaço com ônibus.

Devido a esse comentário, um dos motoristas de ônibus (não ciclista) deixou claro que nenhum motorista levanta de manhã para trabalhar com a vontade de tirar a vida de alguém e que se sentiu mal ao ouvir que eu sinto medo de ônibus. Que aquilo o incomodou e o grupo dele disse que fariam o possível para mudar esse sentimento de medo que nós temos em relação a eles. Fiz uma analogia ao meu filho, quero que ele me respeite, que me admire, mas se um dia eu souber que ele tem medo de mim ficarei muito mal. Quando fiz essa analogia eu percebi nos olhos deles que compartilhavam com essa sensação.

Outra lição importante aprendida na dinâmica é que os motoristas que pedalam, que conhecem nossa realidade, não vêem dificuldades em compartilhar a via com os ciclistas. Portanto se conseguirmos passar nessa reciclagem um pouco das nossas sensações e contaminarmos os motoristas de ônibus com um pouco da cultura da bicicleta, com certeza conseguiremos deixar ainda mais humano essa relação dos motoristas de ônibus, não apenas com os ciclistas, mas com todo o trânsito da cidade.

Mais uma fez saio de uma ação feliz e otimista. Agora vou montar esse plano de treinamento que ainda não esta garantido, pois  depende de um patrocinador. Ocorre que as conversas estão bem adiantadas e as chances dele sair do papel são enormes. Se tudo correr bem, até o final de maio já teremos o treinamento finalizado e poderemos seguir rumo as garagens para levar essa reciclagem aos 30 mil motoristas de ônibus da cidade.

E bora lutar diariamente para tornarmos nossa cidade  cada vez mais humana.

André Pasqualini

25 thoughts on “Encontro de ciclistas com motoristas de ônibus

  1. Tiê Pordeus

    Em primeiro lugar, parabéns por essa Vitória, André.
    o trabalho de formação realmente faz a diferença é pela educação e por uma metodologia eficiente que se faz a mudança.

    Vc teria como compartilhar esse material? estou interessando de aplicar essas questões aqui em Vitória-ES.
    Seu texto me deu esperança e vontade de agir.

  2. Pingback: Treinamento dos Motoristas de ônibus em Parceria com o Conviva | O Bicicreteiro

  3. hiratawagner

    Fico feliz que as mudanças que temos visto no trânsito de anos para cá vem também de iniciativas como essa.
    Apesar disso ainda existem muitos motoristas que querem nos “educar” assutando e ameaçando, arriscanddo nossas vidas.
    Acho muito bom que esse projeto tenha continuidade..

    abraços…

  4. Pingback: Conheça os textos das faixas da campanha de respeito ao ciclista em São Paulo

  5. Pingback: Agentes da CET farão fiscalização de bicicleta em São Paulo | O Bicicreteiro

  6. Mayumi Ikenaga

    Mto bom!!! Mas ainda sofremos MUITO em manaus, ate que ela os onibus nos respeitam mais do que os carros, mas devido ao tamanho sem duvida onibus e caminhoes sao os mais intimidantes… espero que nossa realidade mude e que o nosso transito se torne menos violento

  7. rudigonery

    Grande Pasquaman! Como sempre, fazendo a diferença! Exemplos como o seu confirmam que mais vale a iluminação de um do que ignorância de milhões. Esse um poderá, com sua iluminação, transformar milhões. Milhões de ignorantes só produzem mais ignorância. Grato man!

  8. Cristina Zordan Fraracio

    Olá André!

    Há um tempo tenho pensado numa ação super-simples, trabalho de formiguinha mesmo:
    pensei em fazer alguns panfletos informativos sobre ciclistas e segurança no trânsito, bem simples, para entregar aos motoristas de cada ônibus que tomarmos.

    E junto com o panfleto um bom dia/ boa tarde/ boa noite, um sorriso, uma conversinha simpática, para registrar neles um sentimento positivo.

    Então, descobri seu trabalho e achei simplesmente genial!

    A minha ideia é bastante “rudimentar” comparada à ação que você já realiza, mas de todos modos eu gostaria, junto com outros colegas ciclistas, de colocá-la em prática, porque pode chegar a motoristas que não passaram por estas palestras.

    Você tem algum material que eu poderia utilizar para montar o panfleto?

    Agradeço muito e te parabenizo por seu trabalho!

    Abraço,

    Cristina

    1. bicicreteiro

      Cristina, nesse projeto que estamos elaborando, uma coisa é certa, qualquer ciclista que quiser participar e ajudar de alguma maneira terá essa oportunidade.

      Mas ainda estamos na fase de montagem, depois vem o patrocinio e só depois a execução. Acompanhe o blog que quando o treinamento estiver pronto vou divulgar aqui e dizer como a galera poderá participar.

      Abs

      André

  9. Eugenio

    Seria legal também leva-los para andar de bike pela cidade, em corredores de ônibus 🙂
    O que o amigo Wadilson falou sobre microônibus eu já senti na pele tambem!
    Parabéns por tudo. Abraços.

  10. fernandasalles

    Parabens, tenho certeza que esse treinamento é importantíssimo. Eu não ando de bicicleta em São Paulo, pois tenho medo, mas o transporte principal do meu marido é este, de forma que não é raro ele circular, inclusive, com nossos dois filhos na garupa para percorrer pequenos trajetos. Sempre gostei de andar a pé e de transporte público e comecei a perceber que a construção da cidadania passa pelo compartilhamento dos espaços públicos (tenho um blog no qual escrevo sobre esse assunto – zona10.blogspot.com) . Assim, fui percebendo que se houvesse um projeto envolvendo os motoristas de ônibus, muito poderia ser feito para melhorar a qualidade da circulação das pessoas pela cidade. Eis que vejo alguem fazendo isso – é uma grande saitsfação. Adoraria poder apoiar esta iniciativa de alguma forma.

    um abraço,

    Fernanda Salles

  11. izabel

    sensacional! parabéns por essa vitória.
    eu moro e pedalo em são paulo, mas tou fazendo um estágio em londres e é inacreditável a diferença.
    e uma das coisas que me chamam a atenção é que não há uma briga polarizada bikers x não bikers. e, aí, os bikers também assumem as responsabilidades ao compartilhar as vias.
    eu vi este video com dicas de segurança da tfl (tipo a CET daí) sobre caminhões e pontos cegos. é impressionante. recomendo e sugiro que seja repassado a outros ciclistas (ao assistir, é bom lembrar que o motorista tá no lado direito do caminhão).

    1. bicicreteiro

      Que louco esse vídeo, muito bom! Por isso que eu sempre procuro o motorista olhando no retrovisor para ver se ele realmente esta me olhando. Vou divulgar sim entre os ciclistas

  12. fabs balvedi

    Enquanto isso, aqui em Curitiba não existe vontade política para que ações deste tipo vinguem, vide há quanto tempo tentamos replicar sua proposta por estas paragens e… nada. Quantas tragédias ainda serão necessárias para que a URBS ceda às nossas pressões para que esta conscientização possa ser feita e situações como as descritas no link abaixo fiquem no passado?

    http://bicicletadacuritiba.org/forum/ocorrencias/forum/topic/ciclofaixa-marechal-floriano

  13. naomesiga,i'm lostoo (@wadilson)

    André, parabéns, meu caro!
    É um belíssimo trabalho!

    Eu, como usuário de bicicleta praticamente todos os dias (quase exclusivamente uso a bicicleta) percebi uma mudança sensível após o seu primeiro treinamento, em 2009. Foi muito visível a mudança dos motoristas de ônibus.

    Praticamente em poucos meses, os ônibus deixaram de ser uma grande preocupação quanto ao comportamento de seus motoristas. Claro, exceções sempre há.
    Agora, somente taxistas e badboys estavam na lista de ‘perigo’. Badboys, como eu classifico, são boysinhos, rapazes quase jovens, as vezes marombados, enfim, um perfil que conhecemos. Esse nunca, nunca respeitam. Diferentemente dos taxistas, que creio nem chegam à maioria de maus motoristas.

    Sinto falta de atenção, no entanto, dos motoristas de micro-ônibus. Esses parecem que são uma classe diferente. Não tiveram o treinamento em conjunto? Esses ônibus pequenos continuam agindo como os ônibus normais antigamente: com prepotência, acintosa e muitas vezes violenta, gratuitamente.

    Siga o seu trabalho. Sabemos que a continuidade e essa reciclagem trarão mais paz às nossas ruas e o compartilhamento que tanto desejamos.
    Sucesso!

    1. bicicreteiro

      Wadilson, também sinto a mesma coisa, na verdade sinto que algumas garagens fizeram um trabalho maravilhoso e já outras nem tanto. Como agora pretendemos nós irmos até as garagens, creio que poderemos ter contato direto com todos esses motoristas, principalmente os de cooperativas e vans. Será um trabalho árduo, trabalhoso, mas com resultados compensatórios, tenho certeza disso.

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