Completando a metade do meu ciclo de vida

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A dois mil anos atrás eu seria considerado um idoso já que a expectativa de vida naquela época não passava de 40 anos. Ou será que dá para imaginar um Judeu com minha atual idade pedalando mais de 100 quilômetros de Jerusalém até Nazaré milênios atrás? Mas vão dizer que dá para imaginar o grego Feidípedes correndo mais de 40 quilômetros de Matatona até Atenas para salvar suas mulheres 400 anos antes.

Diz a lenda que como os Persas haviam prometido violar as mulheres gregas ao final da batalha de Maratona e se elas não fossem avisadas da vitória dos Gregos em 24 horas, as ordens eram de matar seus filhos e depois se suicidassem. Os Gregos venceram, mas como a batalha durou mais de 24 horas, mandaram Feidípedes correr até Atenas para avisá-las a tempo do desastre. Ele conseguiu avisar a tempo, em compensação morreu logo em seguida.

É assim que eu chego aos meus 40 anos, tentando descobrir pra que minha vida serviu até então e imaginando como serão os 40 anos que ainda me restam, já que nossa expectativa de vida dobrou nesses dois mil anos. Esse é um problema para a maioria dos “sem religião” como eu, pois para os que possuem tal “dádiva”, na dúvida basta perguntar aos livros ou para seus padres, bispos, anciões, mestres, ou sei lá o que, já que alguém fez seu trabalho e decidiu por você o que é certo e errado, mesmo você tendo aquela sensação de que certo para alguns é completamente errado para outros. Nessas horas eu percebo que quem inventou a primeira religião tinha um desses dois objetivos. Ou o de poder dominar as demais pessoas ao seu redor se aproveitando do benefício da sua lábia, ou por preguiça pra tentar entender o porquê estamos aqui, o famoso “ser ou não ser”.

O que eu fiz até agora foi certo papai? Sim e não, pois enquanto não entendermos que esse conceito de certo e errado varia de acordo com o “lado” que você está, nunca encontraremos uma resposta convincente. É certo construir ciclovias pela cidade? Se perguntar para alguém como eu, que pedalou por mais da metade de sua vida e que sabe que só está vivo por perícia e muita sorte, claro que ele irá achar certo. Mas se perguntar para aquele cara que “perdeu sua vaga gratuita de carro” em frente da sua casa verá que não. O que fazer então, respeitá-los ou confrontá-los?

Ouvi de um desses pensadores que nem nós (ciclistas) estamos sendo beneficiados por essa infestação de tinta vermelha (petistas) em nossa cidade e que estamos sendo enganados. Como assim cara? Você não pedala, não conhece minha realidade e com qual convicção pode fazer uma alegação desta? Esse mesmo que alegou que o vermelho das ciclovias não passa de propaganda política do PT não viu o Serra inaugurando a Ciclovia da Marginal Pinheiros pedalando sobre as cores do inimigo. Aliás a conversa se encerrou quando disse que tanto o Maciel como o Lauro seriam duas pessoas felizes com as ciclovias caso o governo anterior (que esse cidadão tanto apoiou) tivesse cumprido sua promessa de entregar a Ciclovia da Eliseu de Almeida em 2010, ciclovia essa entregue pelos “malditos petralhas” só nesse ano.

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Se sua leitura até aqui já te fez chegar a conclusão de que esse post não passa de uma panfletagem partidária, vá a merda não importa o seu lado, tanto faz ser petralha ou coxinha, pois escrevi esse post para os seres humanos que já descobriram essa coisa de lado só serve para alienar mentes fracas como a sua.

Mas vai entender, será que eu realmente estou certo quando cobro uma cidade tão justa e acessível para o ciclista como já é para quem tem carro, uma cidade igual a todos não importa sua cor, raça ou condição social? Quando exijo um transporte público decente e barato, quando me indigno com a vontade de sair de casa reprimida pelo medo de encontrar inúmeras dificuldades só porque sou um desprivilegiado sem carro? Porque não ser como muitos que simplesmente aceitam e se adaptam a realidade, adequando o relógio de suas vidas de modo a viver até o próximo happy-hour?

Nessas horas que minha cabeça entra novamente em turbilhão pelo simples fato de não haver uma religião dizendo o que fazer ou um lado para seguir, situação que estou tão certa de que continuarei vivendo, assim como estou certo de quais são meus maiores amores e principalmente ao saber que minha paixão pelas magrelas só se encerrará quando meu fim chegar.

Esse era um momento para realizar uma reflexão do ano que se passou, mas graças a minha idade atual, fica inevitável não estender essa reflexão para minha vida inteira. O que eu fiz de bom até então e se eu acho que sou um cara bom, porque ainda sim sou tão odiado por algumas pessoas? O que eu realmente fiz para elas?

Se tem uma coisa que me tranquiliza é que a maioria desses que me odeiam tem seus lados bem definidos e quase todos encaram a vida como uma eterna luta entre o bem e o mal. O engraçado é esses “inimigos” estão dos dois lados e da mesma forma que se acham anjos, mal sabem que são vistos como demônios. Prefiro os Dirceus e Malufs da vida aos falsos moralistas, pois deles ao menos sei exatamente o que esperar.

Outra coisa que percebi é que muitos dos “discordantes da minha existência” só pensam assim pois sabem que não estou do lado deles e pior, acham que eu estou do lado do inimigo deles! Ou seja, sou odiado tanto pelo coxinha que considera a ciclovia coisa de petralha, como pelo “ciclochatista” que vê em mim um tucanalha que só usa a bicicleta para enganar as pessoas e fazer papel de santo, ou de “anjo”, escondendo assim meu lado diabólico.

Se olharmos com profundidade ao ser humano veremos que estamos longe de estarmos prontos para viver em sociedade, pois sequer conseguimos conviver em harmonia com os que pensam diferentes, quanto mais em harmonia com nosso mundo. Vejo essa luta entre os lados como algo para desviar o foco dos nossos reais problemas, basta meia hora de Facebook para encontrar petralhas criticando a tucanalha pela falta de água enquanto os mesmos se calam ao ver a petralha mor apadrinhando uma devastadora na maior cara de pau.

Cada dia que passamos na terra deixamos a sensação de que a maior parte de nós nada faz para que o ciclo da sustentabilidade se feche, enquanto eles brigam nos sobra esse enorme passivo que irá cobrar muito caro, talvez ainda de nós, mas principalmente das próximas gerações. Que atire a primeira pedra aquele que não comete nenhum ato insustentável!

Vai uma soja aí?

Vai uma soja aí?

Escrevi em 2010 que só então consegui entender o que leva tantas pessoas a se suicidarem no Natal e quando passo momentos como esses quando estou sozinho, afastado da minha mulher, ou sem dar ao meu filho as condições que realmente gostaria, pensamentos que tentam descobrir os meus “porquês” retornam com força em minha mente, pensamento que deve passar longe da cabeça dessa maioria dos “odiadores do pasqua”, mas foda-se eles e sabe por quê?

Porque eu sei exatamente qual escolha fiz para a minha vida e quer saber? Estou muito satisfeito com ela. Apesar dessa minha escolha ter trazido inúmeras dificuldades, ela também me encheu de centenas (porque não milhares) de momentos de intensa satisfação. Seja na doação de uma bicicleta, seja na satisfação momentânea de alguém que está realizando algo gratificante que só aconteceu devido a minha insistência, seja nas inúmeras e anônimas mensagens que recebo de pessoas que de alguma forma os ajudei, muitas vezes até sem essa intenção.

Por isso que mesmo com todas as dificuldades sei que estou bem melhor do que estaria, tanto se tivesse escolhido abraçar um lado, como se ainda estivesse preso a Matrix, vivendo aquela pseudo felicidade que jamais me preencheria. E para meus próximos 40 anos (no mínimo, espero), fica meu compromisso de continuar plantando, mas sabendo que chegou o momento de colher os frutos.

De dogma seguirei apenas um, jamais ceder e caminhar para um “lado” e sempre que alguém me criticar a primeira coisa que avaliarei é se a mesma pessoa não está sendo egoísta com sua postura. Pois dá mesma forma que não dá para levar a sério alguém que seja a favor de ciclovias “desde que longe da minha rua”, tenho que ignorar o ciclista que continua vendo os que não pedalam da mesma forma que eramos (ainda somos) vistos pelos motoristas que nos viam como obstáculos aos seus deslocamentos, o mesmo aqueles “cicloativistas” que só aplaudem algo feito em prol da causa desde que seja realizado pelos “amiguinhos”. Aliás 2015 promete, pois será o ano que irei colocar alguns pingos nos “is“ que alguns ativistas “esqueceram” de falar, mas não me impedirá de continuar pescando pessoas realmente justas e livres de preconceitos sem distinção do lado que estão.

Pra encerrar, agora chegou o momento de pegar minha bicicleta, colocar meu filho na garupa e sair por aí. Entrarei o ano de 2015 “literalmente” pedalando, o que vai acontecer depois não sei, pode ir desde uma fuga alucinada em busca da felicidade plena, ou um caminhar para a tão sonhada estabilidade que só me dará base para continuar vivendo minha causa com mais intensidade do que tenho vivido até então, consequentemente estando ainda mais a disposição da minha causa. Uma coisa é certa, aconteça o que acontecer, minha vida continuará sendo em torno da minha tão amada bicicleta.

André Pasqualini

One thought on “Completando a metade do meu ciclo de vida

  1. arnoudbr

    Parabéns Pasqualini! Somos quase do mesmo dia, apesar de eu estar um pouco além “da metade”.

    Entendo em parte o que você sente, apesar de eu ser bem menos polêmico que você.

    Enfim, o mundo também precisa de pessoas polêmicas.

    Abraços dO Natal!

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