A Rota Márcia Prado Pirata!

proibido

Tá rolando uns eventos no Facebook convocando a galera para o evento da Rota Márcia Prado 2015. Por mais que em alguns deles tenham lá seus organizadores, mesmo assim muitos nos procuram achando que é o Instituto CicloBR que está por trás desse evento. Ainda existe uma página no Facebook com o nome Rota Márcia Prado e pior, com o logo do CicloBR. Acontece que ninguém do CicloBR (pelo menos ninguém que seja ligado a direção da ong) é responsável pela página e até o momento ninguém sabe quem é, apesar de uso não autorizado do logo do CicloBR.

Pra piorar, rolou uns boatos de que eu poderia ser o responsável por essa página ou os eventos, só quem não me conhece para acreditar que eu seria capaz de um ato tão covarde e tão irresponsável. E só mesmo um tremendo canalha pra dar início a esse boato.

Escrevi esse post para, além de deixar claro que não tenho nada a ver com os eventos, ou mesmo a página pirata, sou completamente contra a organização de um evento de forma clandestina e minha opinião é que os organizadores escondidos estão cometendo uma enorme irresponsabilidade, até porque é fácil se aproveitar da onda que outras lutaram tanto para criar. Difícil é dar a cara a tapa quando ninguém tinha coragem de fazer.

De forma resumida vou contar aqui um pouco da história da Rota Márcia Prado (que chamarei de RMP daqui pra frente). Tudo começou em 2008, inspirados na Ciemonna de Roma, também conhecida Critical Mass Interplanetária, um evento anual onde milhares de ciclistas pedalam de Roma até o litoral. Porque não realizar algo assim aqui em São Paulo e aproveitar para realizar um protesto contra a proibição do acesso do ciclista paulistano ao litoral? Assim nasceu a Bicicletada Interplanetária em dezembro de 2008.

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Ali sim era claramente um protesto, todo ciclista sabia que passar pelo sistema Imigrantes pedalando era praticamente impossível, chegar a praia pedalando era não apenas um ato clandestino, mas uma aventura. Isso porque a Polícia Rodoviária Estadual, junto com a Ecovias (responsável pela concessão da estrada), ao invés de arrumar uma forma segura de chegarmos a praia, simplesmente resolveu proibir nossa passagem, ou seja, só os bem-aventurados donos de carro tinham seu direito de ir e vir garantidos.

Com o Código Brasileiro de Trânsito debaixo do braço, cerca de 500 ciclistas se reuniram as 7 da manhã do dia 06 de dezembro de 2008 na Praça do Ciclista e seguiram rumo ao mar. Mal acessamos a Imigrantes ali pelo Jabaquara e já havia um bloqueio da Polícia Rodoviária. A massa conseguiu avançar, mesmo com batalhão de choque, mas o máximo que conseguimos foi pedalar uns 40 kms até a Interligação. Enquanto a polícia batia na tecla de um evento não autorizado, nós alegávamos apenas o direito de passar com base no código de trânsito.

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Naquele dia me disseram que uns ciclistas pegaram uma estrada ali na altura do pedágio voltaram por um caminho até a Estação Grajaú da CPTM. Pensei, se conseguirmos criar uma rota que pegue o mínimo de Rodovia dos Imigrantes aí não terá desculpa para nos proibir, pois eu particularmente, mesmo sendo permitido pedalar no acostamento, não acho nada seguro pedalar numa auto-estrada, ainda mais num evento com tantos ciclistas, muitos inexperientes.

Em janeiro de 2009 mapeei essa rota e convidei uma galera da lista da Bicicletada para pedalar num domingo pela rota, saindo do Grajau. Foram 15 pessoas e entre elas nossa querida Márcia Prado. No vídeo abaixo você verá nossa aventura, a Márcia tem um capacete vermelho.

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Infelizmente, 4 dias após esse passeio, a Márcia foi assassinada por um motorista de ônibus em plena Paulista.

Em 2009 fundamos o Instituto CicloBR e a primeira coisa que fizemos foi, já que a reclamação era que o evento não era autorizado, então vamos lá solicitar uma autorização. Antes disso já havíamos batizado a Rota de Márcia Prado de forma informal, aliás acredito que ela iria adorar a homenagem.

Já falando em nome do Instituto CicloBR, procuramos a Ecovias e partimos atrás de todas as autorizações necessárias, tivemos o apoio da CPTM, da Prefeitura de São Paulo, do Parque da Serra do Mar (que mantêm a Estrada de Manutenção) mas não da Ecovias. Continuamos nossa luta até conseguirmos o apoio da Secretaria Estadual de Transportes, da Artesp, da Polícia aí a Ecovias não teve o que fazer a não ser liberar nossa passagem. Com isso, cerca de 1000 ciclistas participaram da 1ª Edição do evento da Rota Márcia Prado.

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Antes desse evento a discussão era “pra que fazer uma infraestrutura cara para meia dúzia de ciclistas?”. Depois que provamos que a demanda existia, começou a discussão para a criação da Rota permanente, criando a infra necessária para que o ciclista passe pelo pequeno trecho de Ecovias com segurança e acesse a Estrada de Manutenção.

Em 2010 estava afastado do CicloBR por problemas pessoais, quando ocorreu o evento da RMP daquele ano, eu estava pedalando no meio do Pantanal na viagem que batizei de Projeto Biomas, por causa disso não participei da organização do evento.

Em 2011 me afastei da direção do CicloBR e a partir de então não me envolvi mais com a organização do Evento da RMP. Até tentei colaborar, mas a direção anterior não aceitou minha ajuda. Já em 2012 ocorreu aquele mega evento com cerca de dez mil ciclistas, a partir de então a Ecovias veio com tudo para barrar o evento.

Rmp2012

Em 2013 o CicloBR até tentou organizar o evento, mas desistiu no último momento por causa de um surto do diretor anterior. Já em 2014 a direção do CicloBR abriu mão da organização do evento e literalmente ligou o foda-se pra Rota. Ao invés de lutar para a criação da rota de forma separada ao evento, as gestões posteriores a minha, no máximo tentaram organizar o evento e abandonaram o objetivo inicial.

Cabe lembrar que a principal motivação do evento era a de demonstrar demanda apenas, já que o objetivo principal sempre foi a oficialização da Rota. Portanto o papel do CicloBR seria lutar pela oficialização, se necessário, apresentando propostas para essa solução, algo que nunca foi feito, agora não sei dizer se por falta de vontade ou incompetência mesmo.

Acontece que nesse ano (2015) teve uma nova eleição no CicloBR, fui convidado a participar de uma chapa e acabamos saindo vitoriosas, hoje sou Vice-Presidente do Instituto CicloBR. Mas apesar de afastado do CicloBR, nunca parei de lutar pela Rota, tanto é que consegui realizar diversas reuniões com a Ecovias e juntos preparamos uma proposta que resolveria definitivamente os problemas da RMP e tornaria possível sua oficialização.

Tanto é que no dia 09 de dezembro de 2015, realizaremos uma reunião aberta, onde será apresentada essa proposta, ouviremos as opiniões dos ciclistas presentes e sairemos de lá com uma proposta oficial do CicloBR para a RMP.

Já o evento, decidimos que não iremos organizá-los até que conseguíssemos ter condições de dar toda a infraestrutura necessária para um evento desse porte. Pois os problemas não se resumem a Ecovias, não podemos esquecer a necessidade de resolver a questão das balsas do Bororé, ainda temos que pensar na área do Parque da Serra do Mar. Muitos não se dão conta, mas a Estrada de Manutenção está numa Área de Proteção Ambiental e temos que mensurar o impacto criado pela passagem de milhares de ciclistas num único momento.

Muitos não sabem, mas depois do evento de 2012 (dos dez mil ciclistas), nos dias seguintes vários animais apareceram mortos e muitos deles por terem ingeridos lixos atirados pelos ciclistas, como os saches de gel por exemplo. SIM, nem todos os ciclistas querem salvar o mundo e existem sim ciclistas escrotos e irresponsáveis, portanto para organizar um evento desse porte, devemos ter algum controle sobre os participantes.

Ou seja, primeiro que não falando apenas em nome do CicloBR, mas da nossa causa, não precisamos mais realizar o evento para provar que é necessário resolver a questão, estamos no momento de lutar pela sua oficialização e nesse momento falta muito pouco para isso se tornar uma realidade.

Agora se é para realizar o evento da RMP, que ele seja bem feito. Nas discussões internas do CicloBR estamos pensando em organizar esse evento ainda no primeiro semestre de 2016. Será um evento gratuito, mas provavelmente com limite de inscrições e funcionará como um teste da nossa proposta, pois após esse evento, mediremos principalmente o impacto desses ciclistas dentro da área do parque.

O obviamente, será um evento organizado com todas as autorizações necessárias, inclusive faremos questão de contar com apoio do Estado, dos Municípios por onde a RMP passa, da Fundação Florestal e principalmente da Ecovias.

Por isso, caso você queira participar desses eventos que estão pipocando nas redes sociais, meu conselho, não participe, pois isso irá mais atrapalhar do que nos ajudar nesse momento. Até porque infelizmente existe uma liminar proibindo a organização de qualquer evento, como cabe ainda recurso, queremos primeiro explicar ao Judiciário que por trás do evento existe algo muito maior e qualquer manifestação nesse momento só irá atrapalhar ainda mais. Agora se quiser descer na clandestinidade como vimos fazendo até hoje, organize um grupo pequeno e vá pedalar, mas não nesse dia pois do contrário você estará até mesmo sendo usado por pessoas que não estão preocupadas com qualquer coisa, mas não a causa.

André Pasqualini

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