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Durante o Carnaval, enquanto a maioria estava “pulando” eu fiquei terminando de editar meu livro e recebi uma proposta para escrever um artigo para o Jornal da Tarde que acabou sendo publicado no domingo, dia 26 de fevereiro. Abaixo segue o artigo como publicado (cliquem na imagem para ampliar) e a transcrição do que enviei para o jornal. Essa é a minha opinião, mas gostaria de saber a de vocês também.

Não gosto dessa contabilidade de quilômetros de ciclovias para classificar uma cidade boa ou não para se pedalar. O lado bom de ser cicloturista é que tenho a oportunidade de pedalar em várias cidades. Nos últimos 20 anos pedalei por umas 300 cidades brasileiras, sendo 8 capitais e posso garantir que São Paulo é uma das melhores cidades para se pedalar.

Mas como? Rio tem mais de 200 quilômetros de ciclovias, Curitiba 150, Santos uns 40, porque São Paulo é melhor? Primeiro porque nenhuma cidade dessas tem mais do que 1% das vias com ciclovias, portanto o compartilhamento com os carros será inevitável. Sempre que isso ocorreu nessas cidades, senti uma tensão é enorme. Já em São Paulo, como não temos ciclovias, nossos motoristas estão aprendendo a compartilhar o espaço, tanto é que ao menos no centro expandido, os índices de fatalidades com ciclistas não ficam muito atrás dos índices Europeus.

Toda cidade considerada segura para o ciclista, tem sim investimentos em infraestrutura cicloviária, mas ela é baseada na premissa de que SEMPRE o motorista vai proteger o mais fraco, não por medo de punição, mas porque ele dirige visando proteger a vida fora do carro. Do que adianta uma Ciclofaixa se o motorista a invade ou estaciona sobre ela?

O processo de construção de ciclovias é lento, complicado e não garante a segurança do ciclista, até porque a maioria dos acidentes ocorrem em cruzamentos ou em conversões. Por isso elas são comumente instaladas em orlas ou na beira dos rios. Ciclovias são como vias expressas para carros, geralmente são construídas para o ciclista ganhar tempo num deslocamento maior.

Em áreas urbanas (Moema, por exemplo), quando o fluxo de carros grande, a Ciclofaixa pode ser uma boa alternativa, mas ela não passa de uma forma de organizar os espaços no viário. A faixa para a bicicleta é menor até porque, diferente do carro, ela não precisa de muito espaço para ter fluidez.

Apesar de vermos poucas obras sendo feitas para o ciclista de São Paulo, confesso que estou otimista, pois em tudo que acompanhei ser projetado, estava seguindo a premissa de que a infraestrutura será feita para proteger e incentivar o uso da bicicleta e não para fazer com que a bicicleta não atrapalhe a fluidez motorizada, como ocorre em Santos, por exemplo, com ciclovias estreitas (muitas vezes perigosas), em canteiros centrais e nem sempre levando a lógica de como nós nos deslocamos.

Dentro do planejamento de rede cicloviária, em algum momento o gestor terá que optar pela segurança do ciclista ou pela fluidez motorizada. Nos projetos cicloviários atualmente em andamento, quando essa dúvida surgir, tudo me leva a crer que São Paulo dará a preferência a vida, torço para quem essa minha sensação se confirme.

André Pasqualini – Ciclista especializado em mobilidade humana