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Geralmente quando vejo um caminhão vindo no mesmo sentido, vou para a contramão pra ele não precisar fazer uma manobra de ultrapassagem, já carros eu deixo eles ultrapassarem normalmente.

Estava em um trecho de terra, atrás vejo um caminhão, 300 metros a frente uma curva a direita. Vou para a contramão e fico bem no canto, pois se vier um carro depois da curva ele consegue passar.

De repente uma enorme carreta surge na curva muito rápida, creio a uns 70 km/h no mínimo. Era um desses caminhões que transportam duas carretas. Quando o motorista me viu, ainda na curva, se assustou e tacou o pé no freio. Vejo a segunda carreta sair de lado formando o temível “L”, abrindo na curva e vindo em minha direção.

Na hora pensei em me jogar no barranco, mas o motorista parou de frear, acelerou, conseguiu estabilizar a carreta e passou por mim.

Temo que se eu tivesse ficado no meu canto, o outro caminhão iria abrir pra me ultrapassar e o desastre seria bem maior. Não sei também se caso a carreta não conseguisse segurar e tombasse, se teria tempo de pular no barranco para me salvar.

Não quero buscar culpados para a quase tragédia, mas tenho certeza que em todas as cruzes de estrada que passei, alguém estava abusando da velocidade no momento do acidente.

Ontem foi um dia onde a cabeça pesou mais que as pernas. Não tinha a potência dos demais dias, pedalava só por pedalar mesmo. Ontem foi o dia que acordei com a obrigação de pedalar, mas o que eu mais queria era deitar minha cabeça no colo de uma pessoa querida e receber um carinho.

Ontem lembrava a toda hora das tantas vezes que eu tinha esse carinho mas até mesmo negava. De tantas vezes que estava com pessoas queridas, mas no fundo parecia não querer estar ali, mesmo percebendo o quanto elas estavam felizes por ter a minha companhia.

Ontem lembrava muito das oportunidades que perdi de retribuir o carinho que recebi. De quantas vezes me achei o centro do universo, egocêntrico e mesmo as vezes percebendo meu desconforto, elas continuavam ali, felizes por estar comigo.

Ontem me lembrei da última vez que vi meu filho, tinha que passar na minha sogra e ir depois para uma bicicletaria. Meus planos era passar na hora em que ele estivesse na escolinha, mas atrasei e ele já estava lá quando cheguei. Ele queria brincar comigo, ficou pulando em mim enquanto falava no celular e quando disse que tinha que sair ele falou.

“Mas papai, você não quer comer? Vem comigo pra cozinha pra comer uma coisa…”

Insisti que tinha que sair (e tinha mesmo), ele começou a chorar e me deu um abraço. Sentir aqueles bracinhos me envolvendo trucidou meu coração, perceber que estava fazendo ele sofrer com toda aquela situação (que eu criei) e não poder fazer mais nada, não poder voltar atrás, não conseguir amenizar sua dor.

Falei que iria correndo na loja do amigo do papai e quando voltasse, iríamos no shopping, assim poderia passar um tempo com ele.

Saí como um louco, fiz o que tinha que fazer e em menos de 1 hora estava de volta, mas ele havia adormecido e não consegui acordá-lo.

Ontem foi o dia que os músculos não foram problema e sim o dia que tive que lutar contra a minha cabeça.

Pedal de ontem sem grandes novidades, um pequeno trecho de serra, chuva o trajeto inteiro e por isso poucas fotos.

Numa cicloviagem temos que pedalar um dia por vez e ontem parece que pedalei uma vida em um dia. Ao menos terminei mais um dia.