Canso de ouvir que em São Paulo não dá para andar de bicicleta. Quando me dizem isso me questiono se sou uma pessoa comum ou um super-heroi.
Canso de ouvir que é impossível ficar sem carro em São Paulo e principalmente que aqui não é a Holanda com suas milhares de ciclovias e trânsito harmonioso. Quando me dizem que aqui não é a Holanda, eu respondia que anos atrás, a situação da Holanda não era muito diferente da nossa, mas poucos acreditavam, até porque era complicado comprovar.
Foi quando assisti no blog do Vá de Bike essa maravilha, um documentário produzido e narrado pelo Joni Hoppen, da Holland Alumni Network, explicando com detalhes a história do surgimento das Ciclovias Holandesas. Impossível assistir o vídeo e não fazer um paralelo com a situação que vivemos.
Se mesmo após assistir esse vídeo, você continuar é achando impossível minimizar o papel dos carros em nossa sociedade, aí vou ter que achar que você tem um poço de petróleo na Bacia de Campos, só pode ser.
Faz dois anos que publiquei em uma coluna que tinha todas as terças no Destak sobre as críticas de pessoas hipócritas, que simplesmente generalizam todos que se manifestam como vagabundo. Mas o tema está tão atual que resolvi reproduzi-la novamente no meu blog. Segue a coluna.
Alguém mandou essa mensagem pelo Twitter: “três coisas chatas pra car#@%: ateu empolgado, emo sofredor e ciclista militante”.
Na minha opinião, “chato” é todo mundo que tenta impor uma doutrina ou estilo de vida a alguém, mas não considero chato quem defenda seu estilo de vida, não importa com que intensidade o faça.
A criação do termo “ecochato” foi um pouco inspirada no “vagabundo” usado pela ditadura para reprimir qualquer tentativa de questionamento ou manifestação. Era uma máxima: “continue trabalhando e deixe que cuidemos dos vagabundos [na porrada se necessário] que insistem em atrapalhar a vida daqueles que trabalham para o país crescer.” O reflexo disso se vê até hoje. Repare que ao saber de uma manifestação são poucas as pessoas que dão valor aos motivos, a maioria (em muitas situações, até a imprensa) está mais preocupada em falar sobre o transtorno ao trânsito que a manifestação pode causar.
Infelizmente, muitas pessoas acham que nosso papel de cidadão vale só na hora do voto e olhe lá. Não. Temos o dever de participar de todas as decisões públicas, assim como todos os políticos são obrigados a prestar contas à sociedade e não apenas à categoria que o elegeu.
Como essa prestação de contas ocorre? Com as pessoas participando das decisões e, se necessário, com manifestações públicas de descontentamento, como aconteceu com as obras da Nova Marginal. Não fossem as fotos e vídeos das árvores cortadas, ações na Justiça, cruzes, manifestações, não haveria nem debates sobre o tema.
Um amigo que mora em Hamburgo disse que o governo planeja construir uma linha de trem em 2014 e desde já faz consultas públicas para escolher até o banco do trem. Em São Paulo, só nos chamam para uma audiência pública quando o projeto já está pronto. Isso, quando chamam. A audiência da Nova Marginal saiu no Diário Oficial e numa notinha num jornal, que nunca encontrei.
Eu não ligo para os ecochatos, veganoschatos, ciclochatos, motorchatos e zilhões de chatos que temos por aí. Mas incomoda demais os “passivoschatos” que se escoram na desqualificação e ironia para esconder a falta de argumentos. Já passou da hora de o brasileiro exercer a cidadania na plenitude da palavra, e, se os passivoschatos não querem fazê-lo, tudo bem, mas, por favor, não atrapalhem os que querem. Olha que somos muitos.
Como muitos já devem saber, estou escrevendo um livro sobre a viagem do Projeto Biomas. Já passei de 70% do livro, mas confesso que está difícil de finalizá-lo. Depois do texto que publiquei no post anterior, sobre os livros e as cicloviagens dos quatro grandes cicloturistas, impossível não tentar fazer um paralelo da aventura deles com a minha. Não que uma seja melhor do que a outra, uma avaliação impossível de ser feita (até quando me perguntam o melhor lugar que passei não consigo responder), mas uma diferença fundamental é que as viagens de todos eles foram realizadas sem uma carga emocional tão intensa quanto a minha.
Os quatro eram jovens, menos de 30 anos, solteiros e deixaram apenas os laços familiares para trás (pais, irmãos, etc). Não que nossas famílias não tenham importância, mas todos que já tiveram filhos sabem o que quero dizer. Mudamos por completo a nossa forma de ver o mundo depois que nossos filhos nascem. Até então eu achava que não havia algo nessa vida que me vinculasse a alguém ou a um local, mas o nascimento do meu filho foi um chacoalhão em tudo, valores, referências, sentimentos, absolutamente tudo passou a ter outro sentido.
Enquanto a viagem deles foi motivada mais pela aventura e vontade de desbravar o desconhecido, algo comum a maioria dos jovens (quem nunca pensou em colocar um mochilão nas costas e sair sem rumo?), a minha foi uma busca de algo, de uma luz, de uma perspectiva, pois realmente eu passava por um momento difícil. Uma crise dos 30 com bastante atraso, somada a grandes perdas, afastamentos, depressões. De todas as viagens que citei no post anterior, a que mais se aproximava da minha realidade foi a do Olinto que literalmente estava na dúvida entre casar ou comprar uma bicicleta. Coitada da noiva dele…
Todos sem exceção disseram que ao escrever o livro eles viajaram novamente. Comigo não está sendo diferente, além de viajar eu resgato todas as fortes emoções que senti, com isso fico variando entre momentos de euforia e depressão, tudo que me dominou durante a viagem.
Estranho rever aquele André que tanto mudou em tão pouco tempo. Estou relendo os textos que publiquei no blog, revendo as fotos e relembrando tudo que passou comigo. Ocorre que muito dos meus sentimentos mudaram de forma drástica em muito pouco tempo. Complicado relembrar os sentimentos que você escreveu sobre uma pessoa e confrontar com sua atual realidade. Como deixar o texto fiel ao que você sentia e deixar claro que no momento que você escreve o livro, aquele sentimento mudou?
Foram menos de quatro meses de viagem, mas minha aventura no teclado já dura mais de oito meses. Estou numa luta interna para tentar finalizar o livro, sinto que essa é mais uma página que preciso virar e a finalização do livro marcará o encerramento de um ciclo que literalmente “foi bom enquanto durou” e o início de um novo ciclo, de uma nova era, a saída do limbo e a entrada no caminho que quero trilhar.
Na mesma linha do que muitos acompanharam durante minha viagem, meu livro esta indo muito além dos relatos das aventuras e das paisagens exuberantes. Meu livro está repleto de momentos de reflexão, um livro literalmente aberto, aliás como minha vida sempre foi.
As vezes penso a quem interessa alguns detalhes, muitas vezes tão íntimos? Detalhes do meu sofrimento, das minhas reflexões? A resposta vem nos comentários, tenho certeza que muitos são os que se identificam com minhas situações e sinto que eu os ajudo a colocar para fora um sentimento comum. A relação que eu tenho com muitos internautas que me acompanham é muito parecida com meus encontros durante a viagem. Bastava dizer que estava viajando devido a uma separação, a uma busca de um sentido para a vida, para as pessoas abrirem seus corações e contarem suas experiências.
Creio que muitas das histórias que ouvi, seus autores sequer haviam contado a alguém. Histórias de uma intimidade profunda, sendo que muitas delas estão narradas em meu livro. O que faz uma pessoa abrir seu coração a um estranho que nunca viu na vida e mal sabe se um dia o verá novamente? Aí vem a motivação de continuar sendo eu, de abrir minhas experiências, meus sentimentos, pois não sou apenas eu quem está encontrando sentido para a vida com tudo isso, mas centenas de pessoas que por diversos motivos, guardaram suas angustias e encontram nesse blog e futuramente em meu livro, uma forma de compartilhar sua dor e aprender junto comigo.
Quanta complexidade, não era mais fácil simplesmente escrever com a cabeça? rs
Mas estou escrevendo com o coração, não tenho pretensão de fazer um livro comercial, que venda milhões de exemplares, quero apenas fazer algo fiel a tudo que eu vivi e senti, por isso tanta demora, pois a cabeça do fulano aqui não é nada simples.
Continuo caminhando, apesar das dificuldades vou vencendo batalhas (perdendo algumas mas faz parte). Fiel a máxima que viver não é fácil, mas pior é fugir da batalha e entregar os pontos. Vamos ver se em dezembro começo o mês com novidades, prometo que vou tentar, embora ciente de que a cabeça do ciclista aqui é muuuuuuito complicada…
Bora escrever então!
André Pasqualini
Ps: Eu já tenho um livro que escrevi em 2003 e disponibilizei em pdf para quem quiser baixar. Para acessar o livro clique aqui.
Fui convidado a participar do 10º Encontro Nacional de Cicloturismo que ocorreu entre os dias 12 e 15 de novembro de 2011, em Santa Maria Madalena-RJ. Além de ir para prestigiar o encontro que nunca pude ir por problemas de minha agenda, fui para participar de um debate sobre Cicloturismo e Mobilidade Urbana, além de conhecer e rever a nata dos Cicloturistas brasileiros. Fui (de carro) com meu amigo Leandro Valverdes, que iria participar do mesmo debate.
Bem, só nossa aventura para chegar à cidade já daria uma bela palestra, mas posso dizer que os 600 quilômetros que nos separavam se tornaram quase 800, com direito a pista interditada por causa do tombamento de um caminhão de gás, pedágio de dois reais numa estrada de terra em Areal, por ser “propriedade do Dr. Sinval” e mesmo saindo as 8h00 de São Paulo, chegamos só as 23h00 em Santa Maria Madalena. Acabamos perdendo a chance de participar do debate que ocorreu na terra da Dercy Gonçalves.
Sobre o encontro nem falarei muito até porque só curti um dia, mas quero me concentrar em alguns livros que todos os cicloturistas (ou simpatizantes) deveriam ler. Vou confessar que não li nenhum deles ainda e só irei ler depois que terminar o meu livro, do Projeto Biomas. Porque não li? Não sei, pode ser para não perder o foco, pois tenho certeza que quando ler qualquer um desses livros irei mergulhar em cada aventura. Já conhecia pessoalmente (ou sua história) três dos quatro Cicloturistas que citarei logo abaixo, apenas o Arthur conheci apenas no dia da sua palestra. Mas vou deixar claro que não é uma avaliação dos livros, apenas conterei um pouco das expectativas que os autores me deixaram e com base nelas, tenho certeza que cada leitura será válida.
No Guidão da Liberdade: Antônio Olinto
Lembro do Olinto quando, em 97, depois da minha primeira Cicloviagem pelo Tietê. No mesmo ano, meu parceiro dessa viagem conheceu o Olinto em uma feira e comprou seu livro. Preciso até achar essa foto, pois estamos falando de uma época em que máquina digital era coisa do século 21. Agora imaginem o que é pegar uma bicicleta em 1992, quando não havia internet e que a única forma de manter correspondência com sua raízes era através de cartas que levavam 4 meses para chegar no destino. Orientação com bussolas, mapas mal feitos, pouco acesso a informações sobre um país ou região.
A leitura do seu livro mostrará que se o cara conseguiu dar uma volta ao mundo de bike naquela época, nenhuma das suas desculpas para não cair na estrada irão colar novamente. Todas as dificuldades só valorizam ainda mais sua aventura. Apesar de começarmos no Cicloturismo praticamente juntos (ele em 92 e eu em 94), de saber muito bem um do outro pelos boatos e histórias do mundo da bike, apenas durante o Encontro de Cicloturismo de 2011 nos conhecemos pessoalmente e foi uma experiência muito bacana.
Olinto vive apenas do material que ele produz, em seu site você encontra não apenas o livro “No Guidão da Liberdade”, mas também outros livros, guias e DVDs sobre rotas cicloturisticas. Portanto para cada centavo que você gastar comprando algum produto dele, indiretamente estará contribuindo para termos mais cicloturistas pedalando pelo Brasil.
Site:www.olinto.com.br Livro:No Guidão da Liberdade – R$38,90 Onde Comprar? Direto no site do Olinto, ele mesmo irá responder os emails e indicar a forma de pagamento.
Caminhos: Argus Caruso
Não lembro a data nem a forma exata, mas entrei em contato com o Argus pouco antes de ele sair pedalando para sua volta ao mundo em 2001. Ele havia mandado um email, provavelmente para alguma das listas que eu participava solicitando apoio para manter seu site atualizado durante a sua viagem. Mandei um email me colocando a disposição e trocamos algumas idéias, até pessoalmente. Lembro de ter recebido um email do seu pai agradecendo o apoio que nem precisei dar ao seu filho, pois parece que ele encontrou uma agência de internet para fazer a parceria.
Argus realizou o projeto Pedalando e Educando e ao final escreveu um livro de fotos, com algumas pílulas com experiências que ele viveu em sua viagem. Hoje Argus continua trabalhando normalmente na sua profissão de arquiteto, mas sem abandonar sua paixão pela bicicleta.
Agora sua nova piração é uma bicicleta a vela. Recentemente ele realizou uma viagem pelo nordeste brasileiro com essa bicicleta e seu novo projeto é criar uma bike anfíbia, um veículo híbrido, onde ele possa pedalar e navegar.
Arthur é um dos 3 cicloturistas que deram uma volta ao mundo de bicicleta e que participaram de um super bate papo no segundo dia do encontro. Uma terceira geração, podemos considerar o Olinto da primeira que mal tinha mapas, equipamentos ou dinheiro, conseguindo dar uma volta ao mundo com apenas 10 mil dólares no bolso. Já o Argus seria da segunda geração, assim que voltou da viagem disse: “Google Maps, que fantástico! Porque não inventaram isso antes de eu viajar!”. Já o Arthur é da geração online, conseguiu manter um diário durante toda a viagem, levou notebook, GPS e tinha muitas referências a disposição antes de embarcar nessa sua volta ao mundo.
A palestra do Arthur é bem divertida e seus textos, pelo pouco que percebi não são nada polidos, contando detalhes e principalmente suas impressões sobre cada país que ele passou. Vale a pena conferir a história das bruxas australianas que ele narra em seu livro.
Thiago, natural de Ourinhos, interior de São Paulo e sempre sonhou em percorrer o continente Sul americano de bicicleta. Planejou sua viagem, treinou e partiu. No segundo dia ele teve uma queda, fraturou o braço e teve que retornar para sua casa para alegria de sua mãe.
Mas esse contratempo só o fez adiar sua viagem, o início que era para ser no dia 07 de setembro (Dia da Independência), passou para o dia 02 de novembro (dia de finados). Ironias a parte, é com muito humor que é marcada a palestra desse grande aventureiro.
Já assisti duas palestras do Thiago e se o livro tiver a mesma energia, no mínimo o leitor dará muitas gargalhadas. Li alguns trechos e percebi que é de leitura leve e divertida. Já as imagens são um show a parte, a que mais me marcou foi o céu estrelado do Atacama. Vale a pena ler alguns relatos dos diários que ele escreveu em seu blog durante a viagem.
Incrível como é nossa justiça esta longe de querer fazer justiça, eu nem sei mais para que (ou quem) ela serve. Lembro do episódio da Nova Marginal, da impermeabilização de mais de 18 hectares de áreas de várzea, do desrespeito a lei que obrigava o estado a construir uma Ciclovia na Nova Marginal, do corte de árvores indiscriminado, do EIA-RIMA cheio de falhas, do fato dele ter sido feito pelo município quando deveria ser feito em nível estadual, mas naquele episódio, como traria benefícios ao Deus carro, a justiça nada fez para parar ou sequer adequar a obra as leis, simplesmente passou por cima das leis e de diversos pareceres técnicos independentes (e sérios).
Agora quando é uma obra que vai beneficiar a população, melhorar a vida de milhares de pessoas que não usam carros, aí ela mostra o seu poder para impedir a obra e deixar a população na mesma merda de sempre. Há, e duvido que ela vá se colocar contra aquele túnel de 2 bilhões que a prefeitura pretende fazer na Águas Espraiadas, prometo que se ela tentar impedir essa obra, eu compro um carro.
Escrevi esse texto não só em solidariedade ao Sérgio Avelleda, atual presidente do Metrô de São Paulo. Muitos já sabem que desde que nos conhecemos durante as negociações da Ciclovia da Marginal Pinheiros, quando ele ainda era presidente da CPTM, surgiu mais uma das grandes amizades que eu acabo criando graças a esse meu envolvimento no mundo da bike. Fui bike-anjo dele, já fizemos viagens de bike e conversamos muito sobre tudo, bicicleta, a vida, pessoas e principalmente sobre mobilidade urbana. E uma das coisas que mais gostei nele foi sua seriedade, sua idoneidade e por ele ponho a mão no fogo sem titubear. Por isso esse meu texto, não apenas em solidariedade mas também para levar as pessoas que me acompanham, detalhes que não vemos na mídia, sobre os fatos que envolvem esse caso da linha Lilás do Metrô de São Paulo, vamos aos fatos.
Para quem não se lembra, no ano passado (abril de 2010), um jornalista da Folha de São Paulo registrou 6 meses antes o resultado com os vencedores da licitação da linha Lilás do Metro. Vídeo que teve sua divulgação em outubro de 2010. Notem, todo o processo ocorreu em 2010, nessa época o Sérgio Avelleda era o presidente da CPTM e não teve nenhuma participação no processo licitatório.
Antes de entrar no mérito da reportagem, vamos primeiro explicar o porquê ocorreu essa licitação dessa maneira. Foi uma opção do Metrô dividir a obra em 8 lotes diferentes e com uma regra de que uma empresa não poderia participar de mais de um lote. Essa escolha foi uma forma de proteção que o Metro encontrou, para minimizar os riscos de atrasos nas obras, como ocorreu durante as obras da linha amarela do Metro. Lembrem-se que o prazo inicial para ela ser completamente entregue era o ano de 2010 e até hoje não está finalizada.
Infelizmente, com essa escolha, ficou o risco de não termos o preço mais baixo e por motivos óbvios. Uma empresa sabendo que só poderia pegar um lote, daria o preço justo em todos os lotes na certeza de conquistar um apenas. Se a mesma empresa pudesse pegar vários lotes, é fato que quanto maior a obra, mais chances de problemas e se faz necessário trabalhar com uma margem maior. Correu-se também o risco de conluio entre essas empresas, pois analisando as empresas candidatas e as aprovadas, qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento poderia apostar em quem seriam as vencedoras, algo que creio ter sido isso que o jornalista fez. Isso infelizmente dá margem para que as empresas façam acordos entre elas, mas isso foi um risco que “a outra gestão” assumiu ao fazer essa opção.
Mas como provar um provável conluio? Como o jornalista teve acesso a lista dos vencedores? Não teria sido um simples chute ou ele realmente teve informação privilegiada? Agora a principal pergunta. Porque o Ministério Público não questionou o formato da licitação ANTES, das entregas dos envelopes?
Analisando a forma da licitação, sabendo que apenas duas empresas poderiam ficar com os dois maiores lotes, fica fácil deduzir que os lotes seriam distribuídos entre os demais consórcios participantes.
Assim que a matéria foi publicada, o na época governador Alberto Goldman, mandou suspender a licitação para fazer uma averiguação detalhada e verificar se realmente houve fraude. Não se esqueçam das datas, estamos falando de 2010, quando o Sergio Avelleda ainda era presidente da CTPM e não do Metrô.
Quando ocorreu a mudança de gestão de Serra para Alckmin, Jurandir Fernandes assumiu a pasta da Secretaria de Transportes Metropolitanos e nomeou o Sérgio Avelleda para a presidência do Metro. Essa nova gestão novamente se debruçou sobre as propostas para uma análise criteriosa, na busca de provas de que realmente houve um conluio, pois sem uma prova cabal, é impossível fazer o cancelamento do processo licitatório, sem que o estado corresse riscos de prejuízos ainda maiores do que a suposta economia que o MP alega.
Mesmo assim o Ministério Público pediu explicações e lá foram o pessoal do Metro, obviamente capitaneado pelo seu presidente, apresentar toda a documentação que eles levantaram. O Ministério Público teve acesso a toda a documentação, como manda a lei e a transparência necessária para quem exerce uma função pública. Antes mesmo de levar as explicações ao Ministério Público, o Metro se reuniu e avaliou todas as conseqüências caso cancelassem a licitação sem provas. Se isso fosse feito, os consórcios vencedores poderiam exigir na justiça o pagamento dos valores devidos (obviamente ganhariam) e sem realizar a obra, já que ela seria suspensa. Com isso o Metrô (e o estado) teriam um prejuízo muito maior do que 326 milhões (numa obra de 4 Bi) valor da suposta economia que o estado poderia ter caso tivesse optado pela regra de um consórcio por lote.
Vale relembrar que se a regra que impede uma empresa vencedora de um lote participar de outro não existisse, com certeza a mesma empresa não colocaria um preço justo em todos os lotes como ocorreu. Portanto não é correto achar esses seriam os mesmos valores caso a regra fosse diferente.
Depois dessa conversa, onde levaram todas as explicações sobre as investigações que o Metro fez e mostrando que eles não tinham uma prova cabal de conluio, o MP sugeriu que eles cancelassem a licitação. Sugestão essa que o Metro, em nome do seu presidente (agora o Sergio Avelleda), não pode aceitar. Ocorre que a decisão não foi dele, mas sim tomada por toda a diretoria do Metro, pelo Secretário de Transportes e principalmente pelo Governador do estado.
Vale lembrar que o MP se baseia no parecer de uma perita que simplesmente pegou os valores dos envelopes e ignorou a regra de que uma empresa não poderia participar de dois lotes. Precisa de uma perita para isso?
Caso o MP realmente tivesse a fim de investigar, ele não deveria investigar o Metro, mas sim os consórcios participantes pois se existiu o conluio, é lá que as provas estão e não no Metro. Agora coloco novamente a pergunta, porque o MP não agiu durante o processo de licitação? E mais, porque o MP não indiciou os responsáveis pela licitação, as pessoas que estavam na direção do Metro naquela época?
Mas o que é mais fácil? Indiciar o Metro pela opção feita e para ficar ainda mais bonito na foto, claro que eles precisam de um bode espiatório, mas quem? O governador do estado? Não. O Secretário de Transportes Metropolitanos? Também não. Preferiram pedir o afastamento do Presidente do Metro, o Sérgio Avelleda, que sequer participou do processo de licitação, já que ele estava na CPTM a época.
Pior que a juíza aceitou o pedido do MP e pediu seu afastamento. E agora?
Se a Secretaria de Transportes Metropolitano perder o recurso que irá tentar para recorrer desse absurdo, teremos o afastamento do Sérgio Avelleda do cargo de presidente do Metrô. As investigações irão continuar, a justiça não encontrará nenhuma prova do conluio (até porque ela nem está procurando no lugar certo), as obras não irão parar, nada vai acontecer, mas o promotor já teve seus 15 minutos de fama, enquanto o nome do Sérgio vai para a lama. Legal né!
Aqui fica minha indignação, conheço o Sérgio tem uns 2 anos e estou envolvido com o poder público já tem quase 10 anos. Nunca conheci uma pessoa tão idônea e competente como ele. A frente da CPTM realizou um belíssimo trabalho de modernização da mesma, trazendo uma excelência de Metrô para os trens da CPTM. Nem vou falar no que ele trouxe de bom para as bicicletas, até porque isso chega a ser ridículo perto da sua importância. Mas é certo que perderemos um dos melhores técnicos e um dos poucos visionários na questão de mobilidade que essa cidade já teve.
Fico triste por ver a justiça fazer esse papel ridículo, já não confio na justiça e tenho os meus motivos, mas é complicado aceitar calado. Só me resta ficar imaginando a quais interesses esses promotores estão respondendo. A população? Desculpe mas não acredito.
Agora o Sérgio, que tem uma condição bem humilde para uma pessoa da sua importância, vai gastar suas economias para pagar um bom advogado. Ele até teria o direito de usar o Metro para defendê-lo, mas já viu, se fizer isso irão acusá-lo também de improbidade administrativa. Provavelmente será afastado, terá seu nome jogado aos leões, será inocentado lá na frente e NINGUÉM virá a público pedir desculpas pelas injustiças que ele sofreu.
Obviamente ele deverá ser recolocado no mercado privado, ganhando umas 10 vezes mais do que ele ganhava quando presidente do Metrô. Essa empresa ficará muito feliz, já a população perderá mais um excelente gestor público, algo que tanto precisamos, para a iniciativa privada. Mas enquanto isso nosso promotor estará todo contente dando entrevista para a Globo. Ah, mas tem um lado bom sim, provavelmente veremos um novo nome se candidatando a algum cargo eletivo nas próximas eleições mas tenham certeza que o sobrenome dessa pessoa não é Avelleda. E aí? Já tem um candidato?
Mais uma vez fujo do assunto bike e continuo usando esse blog como o meu espaço, onde eu escrevo meus pensamentos, algo que fiz diversas vezes, principalmente enquanto realizava a viagem do Projeto Biomas. Agora quero dar um recado ao meu filho, mas serve também para todas as pessoas que, infelizmente, ainda não tem a menor noção do que é ser pai.
Na natureza é assim, a preocupação do macho é espalhar seus genes pelo maior número de fêmeas possível. Já a fêmea, em geral, busca um macho que possa lhe dar segurança e uma prole saudável. Infelizmente esses instintos falam mais forte na grande maioria dos humanos (homens e mulheres), por isso inventaram essa máxima de que a mãe é tudo, uma pessoa indispensável, deixando o papel do pai como algo secundário e irrelevante. A mãe tem seu papel, mas achar que ela se basta é a maior “tiro no pé” que uma mãe pode cometer.
Soma-se isso a irresponsabilidade (as vezes por necessidade) de muitos pais que abandonam seus filhos para viver sua vida, ou mesmo aqueles que abandonam a família sem sair de casa. A preocupação de levar conforto a família é tão grande que muitos esquecem do quão é importante gastar aquele precioso tempo com nossos filhos. Pior é que a grande maioria dos homens cometem os mesmos erros que seus pais cometeram, erros que tanto condenaram quando crianças. Dar carinho, atenção, educar vivenciando e conhecendo nossos filhos é muito mais importante do que a gana de buscar o máximo de conforto para eles. Será que eles precisam assim de tanto conforto? Nós tivemos todo esse mesmo conforto? Será que a falta desse relativo conforto não nos fez a pessoa que somos hoje?
Infelizmente muitas mães se aproveitam dessa enganosa máxima de que são o centro do universo dos nossos filhos e da fraqueza da maioria dos homens, para cometerem essas atrocidades. Se dizem auto-suficientes, enxergam o pai como um inimigo e fazem de tudo para afastá-lo da vida dos seus filhos. Deixam de enxergar um pai e passam a ver um concorrente, ficam cegas por causa desse sentimento novo (que é o amor incondicional que temos por um filho) e destroem um casamento por causa dessa cegueira imbecil, achando que terão os filhos para sempre, sob suas asas. Além de serem tolas e egoístas, não tem a menor noção do mal que fazem para nossos filhos. A cegueira é tanta que a maioria delas coloca a vontade de punir o pai acima da dor que seu filho está sentindo, nessas horas até questiono se é realmente “amor” o que elas dizem sentir por eles.
Eu não apenas quis ser pai, mas sempre sonhei em ser pai. Tive um pai ausente, desses que sentia ausente mesmo o vendo todos os dias. No meu caso a culpa não foi da minha mãe, ela nada fez para afastá-lo de mim, a responsabilidade foi toda dele. Não quero aqui culpar meu pai, infelizmente ele não é uma pessoa com sensibilidade suficiente para perceber o que seus filhos queriam ou sentiam, aliás esse é o mal da maioria das pessoas, a dificuldade em compreender o sentimento dos seus filhos, melhor, a dificuldade de simplesmente compreender nossos filhos. Foram tantos problemas em sua vida, muitos devido a sua criação, que chega a ser covardia culpá-lo pelo meu sofrimento quando criança, adolescente e até agora na vida adulta.
Mas eu sempre fui uma pessoa observadora. Ao invés de guardar rancor pensava no que fazer para não cometer os mesmos erros com meu filho. E comigo foi assim, antes mesmo do meu filho nascer já planejava meu comportamento, como ser aquele super-herói que eu tanto esperei do meu pai (que em vários momentos ele foi), como me comportar para criar um vínculo indestrutível, para que mesmo quando o destino nos separar, ele continuasse me admirando, tendo orgulho de mim, que eu sempre fosse uma referência para ele. Uma das coisas que sempre senti falta foi do contato físico do meu pai, então jamais iria deixar de realizar demonstrações de carinho com meu filho.
Ele nasceu e minha vida mudou completamente. Todos os sentimentos que eu já tive em minha vida ficaram pequenos perto do que senti ao ver meu filho nascer. Lembro de que ele foi para o berçário e lá fui eu esperar, do outro lado da janela, para poder registrar seu primeiro banho. Lá se foi um bebe, depois outro, depois outro…
Todos haviam tomado banho menos o meu, então perguntei para a enfermeira o porquê da demora, ela venho até o lado de fora e disse:
“Ele está respirando com certa dificuldade, vou esperar ele chorar um pouco para limpar o pulmãozinho e depois dou banho. Melhor esperar lá no quarto que eu te chamo quando ele estiver pronto”
O que? Eu sair de lá? Nem em sonho! Fiquei encostado como um vegetal, com a cara colado no vidro, sem conseguir virar o rosto de forma que ele saísse do meu campo de visão. Nem percebi que fiquei na mesma posição por uma hora. Pela primeira vez em minha vida eu senti medo de verdade. A possibilidade de perder meu filho, dele ter algum problema, alguma dificuldade, a imobilidade que sentia pois não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-lo me aterrorizava. Lá ficamos nós, nos encarando e fortalecendo um aquele vínculo que já havia nascido quando ele ainda tinha menos de 2 mm e eu ouvia seu coraçãozinho bater a mais de 200 bpm.
O tempo foi passando quando, de repente, ele começa a chorar. Eu também chorei, aliás continuo chorando sempre que relembro aquela cena, aquele alívio de vê-lo lutando para descongestionar seu pulmãozinho, de vê-lo vencendo sua primeira batalha, nasceu um guerreiro…
Logo depois lá estava ele tomando seu primeiro banho e eu feliz, vendo meu guerreiro do outro lado do vidro, observando a única coisa na face dessa terra que me traz alegria de viver, aquela coisinha maravilhosa que faz a vida ter algum significado.
Sou filho e sei o papel que cada um tem em nossas vidas, nunca tive a pretensão de ser mais importante que a mãe, seria idiota em pensar assim. Cada um tem seu papel e jamais um irá substituir o outro. Mas sempre tive a preocupação de ser o pai que eu sempre quis ter. Nunca bati em meu filho e nunca irei bater, mas isso não quer dizer que não o ensinarei a respeitar as pessoas, principalmente seus pais. Como qualquer criança ele já me testou, tentou me enfrentar, mas eu segui minha filosofia a risca, agindo sempre com razão, aliás ele é a única pessoa que faz eu agir sempre com razão ante a emoção.
Sempre tive muito mais medo do meu pai do que respeito ou orgulho. Não queria isso para mim. Portanto adotei uma filosofia, um modo de educar meu filho de maneira que ele jamais queira me decepcionar e isso tem funcionado até então. Certo dia, minha mãe dava bronca em minha sobrinha, pedindo para ela guardar seus brinquedos, mas minha sobrinha não dava a mínima para sua avó. Foi quando meu filho intercedeu:
“Vó, faz que nem meu pai, olha feio para ela (franzindo a testa) que ela vai te obedecer…”
A minha felicidade é que, apesar ser forçado a ficar longe dele, de ter realizado aquela torturante viagem, nosso vínculo ainda está muito forte. Apesar dele ser pequeno, de tentarem enrolar meu filho quando ele demonstra minha falta, sei que eles terão uma tarefa muito difícil.
Mas preciso demais do meu filho e tenho certeza que ele também precisa de mim. Apesar do medo de que ele um dia pense que tentei abandoná-lo, confio na sua inteligência. Logo a idade irá chegar, uma melhor compreensão do mundo e das pessoas que o rodeiam chegará também, pois é difícil apagar a verdade. Ele irá perceber que, infelizmente, algumas pessoas que ele pensava querer o seu bem, não passam de pessoas fracas e egoístas, que ao invés de pensar nele, preferiram fazê-lo sofrer me tratando como um inimigo, lutando para tentar me apagar de sua vida, gastaram muita energia tentando destruir nosso vínculo. Tolos…
Eu luto contra tudo, me dôo, me entrego e mesmo com tudo conspirando contra, mesmo com a depressão querendo me dominar, mesmo com os súbitos desejos de dar fim a essa dor, meu filho sempre será minha âncora, meu norte. Diferente de muitas mães estúpidas, que tem a falsa pretensão de que terão seus filhos eternamente sob suas asas, sei exatamente qual meu papel em sua vida. Irei fazer o possível para prepará-lo para a vida, para ser uma pessoa boa, justa e pronta para os desafios que encontrará, ainda mais envolto nesse universo, onde ele irá descobrir que há ao seu redor diversos lobos vestindo peles de cordeiro.
Infelizmente ele terá uma vida muito dura, sofrerá para encontrar as respostas, mas as encontrará. Mesmo longe lutarei para transformá-lo num homem bom e preparado para fazer a diferença, que possa seguir seu rumo, lembrando da minha imagem, das minhas mensagens, enquanto estiver trilhando sua vida nesse planeta.
Filho, nunca te abandonei. Seu pai teve seus motivos para se afastar e não foi culpa sua, acredite sempre nisso. Se houve algum culpado foram algumas pessoas que, de forma desequilibrada, acharam que você era propriedade deles e de maneira covarde, utilizando a sua inocência, tentaram me afastar de você, chegando ao cúmulo de desejar a morte do seu pai só para você ser apenas “delas”.
Ninguém é dono de você, ninguém tem o direito te privar do contato das pessoas que você ama. Hoje você é muito novinho para entender essa mensagem, mas um dia você terá maturidade para compreender exatamente tudo que ocorreu ao seu redor. As mascaras cairão, você terá a inteligência e sabedoria para tirar suas próprias conclusões. Não só desejo como lutarei para um futuro onde não exista mais nenhuma barreira entre nós. NINGUÉM irá me substituir, idiotas aqueles que acham que isso pode acontecer.
Só peço desculpas por ter feito você sofrer com minha ausência e com toda essa situação. Mas o futuro também lhe mostrará que fiz tudo que estava ao meu alcance para poder evitar essa sua dor. Acredito muito nesse sentimento, nessa nossa ligação e confio no seu julgamento. Serei sempre aquele pai que canta para “meu anjo que venho do céu”, que tenta te levar paz, que quer estar ao seu lado nos piores momentos. Você saberá que sou a única pessoa que você poderá recorrer na certeza de ser compreendido, na certeza de ter a melhor orientação.
Tenho certeza que você irá me perdoar, que compreenderá todas as besteiras que cometi. A única pessoa nessa vida que irei batalhar pelo seu perdão é você. O resto… Que se exploda.
Sei que você irá lutar por nós da mesma maneira que eu luto por você. Hoje nossas armas são fracas, mas não imagina como fico forte ao ouvir seus apelos para me ver, isso só me fortalece para as batalhas que estão por vir. Te amo meu bebê, nossa luta para ficarmos juntos não termina aqui. Tenho certeza que ninguém irá conseguir me tirar do seu coração, nem que o desejo dessas pessoas (de me ver em outro plano) se realize, sei que não existe nada na face da terra com força para destruir nossa história, nossa ligação, nosso vínculo, nosso amor.
Hoje, dia 17 de novembro de 2011, minha amiga Márcia Regina de Andrade Prado completaria 43 anos. Abaixo um vídeo de uma descida que realizamos até Santos, partindo do Grajaú, no dia 11 de janeiro de 2008. Um trajeto muito parecido com o que batizaríamos anos mais tarde como Rota Márcia Prado.
Infelizmente, hoje que deveria ser um dia de festa, onde com certeza haveria dezenas de ciclistas em algum bar de São Paulo comemorando, não passa de um dia onde a tristeza e a saudades. Tudo isso só porque, no dia 14 de janeiro de 2008, um motorista de um ônibus qualquer “resolveu” que poderia tirar a vida de uma pessoa.
Que essa data sirva de reflexão e um pedido para que não me tirem mais nenhum amigo nessa guerra desnecessária que é o trânsito de nossas cidades.