Um Bicicreteiro em Poa

Terça foi o dia de descanso, da geral na magrela, nas malas e o de conhecer essa famosa cidade de Porto Alegre pedalando. Apesar de haver inúmeras possibilidades, fiz o básico que é pedalar as margens do Rio Guaíba. No Google Maps vi que lá pelo bairro de Ipanema, há uma praça com nome do Senador Alberto Pasqualini, muito conhecido no Rio Grande do Sul.

Minha família não tem nenhuma ligação direta com esse braço gaúcho, mas parece que meu Bisavô era irmão do pai desse Alberto. Na verdade eu só queria um motivo a mais para pedalar.

A cidade de Porto Alegre não é plana como imaginava, tem vários morros (ou lombas como dizem por aqui). Mas grande parte do seu relevo é plano. O clima frio favorece ainda mais o ato de pedalar, portanto o potencial de termos no Brasil uma Copenhagen é gigantesco.

Saí do bairro de Santana e segui rumo a Beira Rio, pode até haver ruas mais tranquilas, mas como não conheço a cidade procurei as avenidas de tráfego bem pesado, infelizmente é exatamente assim que age um ciclista iniciante. Peguei a Avenida João Pessoa e depois a Avenida Ipiranga e de cara deu para notar que se existe alguma dificuldade para o fomento da bike em Porto Alegre não é falta de espaço, pelo contrário. Calçada irregulares, mas largas, avenidas com canteiros centrais amplos, ou seja, é muito fácil investir em bicicleta na cidade.

Os motoristas, em geral, andam mais rápidos que os Paulistas, mas isso é compreensível, pois aqui não há congestionamentos. Um gargalo aqui, outro ali, mas nem 10% da realidade de São Paulo. Achei os taxistas em geral (aqui são carros vermelhos) pouco educados, a maioria das finas que levei foram de taxis. Os ônibus maiores até que não tive muitos problemas, mas os Micro-ônibus, que chamamos em Sampa de Vans ou Lotações, com eles o compartilhamento foi bem tenso.

Quando cheguei na Avenida Beira Rio havia um calçadão e não sabia se era uma ciclovia, calçada, só sei que vi vários ciclistas e segui por ali. Ele está em obras e deve ficar melhor perto da Copa, mas poderia haver o mínimo de ordem ali.

Segui beirando o Guaíba, passei em frente ao Estádio do Beira Rio e na beira do Rio Guaíba há várias escolinhas do Inter e do Grêmio. Encontrei uma ciclovia com tijolinhos e não consigo entender porque insistem nessas porcarias de tijolos e não asfaltam de vez. Com certeza, quem decidiu pelo tijolo não pedala. Esse trecho, provavelmente os tijolos foram retirados para alguma obra e o pedreiro não teve paciência para montar o quebra-cabeça.

Era fim de tarde e logo após o estádio do Beira Rio era esse meu visual.

Pedalei até o bairro de Ipanema, deixei de beirar o Rio Guaíba e encarei a primeira lomba, na avenida levei várias finas, principalmente das Vans, tentei cortar caminho por dentro de um bairro, mas encarei só ruas de paralelepípedos e muita subida, não foi uma boa ideia.

Cheguei até a praça do meu Tio-avô, não havia nada de especial nela e comecei a voltar, pois queria ver aquele pôr do sol na beira do rio. Era umas 17h15 e comecei meu retorno, mas logo um covarde de uma Van (número 161), buzinou e jogou seu carro contra mim, mesmo havendo muito espaço para me ultrapassar. Ele parou no ponto e parei ao lado dele para tentar descobrir porquê ele fez aquilo, mas ele começou a andar e mandou eu entrar na frente dele, num claro sinal de que se eu fizesse isso ele faria comigo o mesmo que o psicopata do Neis fez a Massa Critica.

Fiquei revoltado e comecei a chamá-lo de covarde, então ele jogou seu carro contra mim e acelerou. Pedalei forte, mas como disse lá no começo, aqui não tem congestionamento e não consegui alcançá-lo. Ah se isso houvesse ocorrido daqui a uns dois anos, prazo que eu dou para essa cidade ficar igual São Paulo se mantiverem essa política carrocrata absurda…

Voltei pela Beira Rio e fui até a Rua da República com a José do Patrocínio encontrar a Livia (@bikedrops) minha anfitriã na cidade, pois queria saber mais sobre o que ocorreu no dia em que o Ricardo Neis atirou seu carro contra a massa de ciclistas.

Fomos até a Praça Zumbi dos Palmares, ponto de concentração da Massa Crítica e ela contou os detalhes do que ocorreu no dia. Sempre que a massa saí da praça, ela entra nessa José do Patrocínio e naturalmente ocorre uma contenção dos carros que seguiam a rua, até toda a massa sair da praça, bem naquele dia, o primeiro carro da contenção era desse Neis.

Praça Zumbi dos Palmares – Concentração da Massa Crítica

Como já ocorreu comigo em algumas bicicletadas, alguns motoristas ficam inconformados por serem obrigados a esperar 1 minuto a massa passar e esse Neis, simplesmente forçou a passagem, derrubando e machucando uma ciclista que havia parado em frente ao seu carro.

Local da contenção e do primeiro contato com o Neis

Imediatamente, muitos ciclistas da massa foram conversar com ele para acalmá-lo, sem violência e isso é a prática, por motivos óbvios. Um motorista carrega uma arma de 1 tonelada e podemos até tentar bater nele (vontade muitas vezes não falta), mas procuramos acalmá-los, até para evitar que eles acelerem e avancem sobre os ciclistas a frente, principalmente quando ele esta atrás da massa.

O máximo que ocorreu, segundo a Livia, que estava no dia e viu tudo, desde o início, foram tapas no carro para ele não jogar o carro contra a garota que ele havia derrubado. Seu filho, a todo o momento pedia para seu pai ficar calmo, mas ele ignorou o garoto.

Quando a massa entrou na rua, o pessoal foi se afastando e deixando ele lá atrás, mas ao invés dele seguir a massa lentamente, ele ficou parado, deixando a massa ir embora. Mal a galera sabia que ele estava apenas, de forma covarde, tomando distância para acelerar. Apenas duas quadras após o primeiro atrito é que ele varreu a massa.

Ponto exato da tentativa de assassinato

Agora falando um pouco da cidade, é triste saber que tudo isso poderia ser evitado caso Porto Alegre tivesse implantado seu Plano Cicloviário que está pronto a uns 6 anos. Que eu saiba, apenas Porto Alegre e Brasília tem planos cicloviários, a base para qualquer investimento em mobilidade por bicicleta, mas porque Poa não implanta? Porque seus governantes não acreditam na bicicleta como uma opção e seguem o mesmo exemplo de São Paulo, endeusando os motoristas como se eles fossem os únicos com direto a se deslocarem com o mínimo de dignidade pela cidade.

Triste ver uma cidade tão bonita, com tanto potencial, ignorar de forma tão vergonhosa os cidadãos que querem se deslocar de bicicleta. E não apenas os ciclistas são tratados com essa repugnância, mas tanto os pedestres como os usuários de transporte público são colocados a margem da sociedade em Porto Alegre, não muito diferente do que ocorre na maioria das cidades brasileiras, infelizmente isso é regra e não exceção.

O transporte público é tão ruim como o de qualquer cidade brasileira, há alguns corredores de ônibus na cidade, parece que até há metro, mas sequer passei perto de alguma linha ou estação. Cidade com ônibus bons é onde a população prefira usá-los e não uma cidade que usa o transporte público como uma ferramenta de exclusão social.

Se eu fosse morador de Poa eu estaria acampado lá na prefeitura, até o prefeito assumir um compromisso, com reserva de dinheiro e prazos, para a implantação do Plano Cicloviário já existente. Dinheiro para pontes inúteis esses caras arrumam, mas para investir em bicicleta não?

Vi muitos ciclistas em Poa, mas grande parte deles se deslocando em calçadas, que apesar da maioria ser de péssima qualidade, são bastante largas. Com esse plano cicloviário implantado, esses ciclistas iriam para as ruas e um verdadeiro boom ocorreria na cidade. O prefeito que tivesse culhão para implantar esse plano cicloviário, poderia até receber uma pressão no começo, mas logo seria considerado um visionário e causaria uma verdadeira revolução na cidade. Não demoraria para ele viajar o mundo, dando palestras, como o Penalosa ou o Jaime Lener.

É  tanta semvegonhice a forma que tratam os ciclistas na cidade que beira a burrice. Se a cidade fosse caótica como São Paulo até daria para entender, mas há espaço, há dinheiro, só não há inteligência, pois uma simples canetada tiraria o Plano Cicloviário do papel.

Se eu fosse dar algum conselho aos ciclistas de Poa, diria que cobrem de todos os candidatos um compromisso com prazos para a implantação do Plano Cicloviário na íntegra. Se eles acham ruim (o que não é verdade) que executem e depois melhorem. Agora se continuarem tratando os ciclistas como idiotas, aí galera… Vocês sabem muito bem o que fazer.

Porto Alegre é linda, uma das capitais brasileiras mais belas que já pedalei, mas isso tem prazo para acabar se a cidade seguir essa linha, em breve será apenas uma mancha caótica como São Paulo e é isso que vocês querem? Sinceramente, não dá para aceitar uma cidade que tem um pôr do sol como esse, deixar ser dominada pela injusta carrocracia que domina esse país.

Mensagem para a Massa Crítica de Poa

Vou confessar, dei muitas risadas quando vi as matérias falando que o Ministério Público de Porto Alegre estava investigando a Massa Crítica da cidade. Para os desentendidos, Massa Critica, Critical Mass, Bicicletada é tudo a mesma coisa, não passa de uma coincidência organizada onde as pessoas se reúnem na última sexta feira do mês e se deslocam pelas ruas da cidade de forma não poluente.

Mas galera de Poa, será que vocês compreenderam realmente qual o significado da Massa Crítica? Quem entendeu, com certeza não está nada preocupado com a interferência do MP (que parece não ter muito o que fazer) e ainda esta rolando de rir com a tentativa do MP e da EPTC em tentar controlar a Massa Crítica. Agora os ciclistas que  aceitaram um encontro com o pessoal da EPTC e MP para conversar sobre a Massa Crítica, estão cometendo erros gravíssimos.

Primeiro que nesse momento NINGUÉM tem que falar em nome da Massa Crítica. Se eu fosse de Poa até criaria um email fake e divulgaria a senha nas listas de discussão de vocês. O email poderia ser liderdamassacriticapoa@gmail.com, por exemplo. Então qualquer pessoa poderia usar o email e mandar mensagens para os “órgãos competentes”. Qualquer mensagem mesmo, seja uma sugestão de como deveria ser a ação da EPTC durante a Massa Crítica, ou mesmo mandar umas receitas de bolo da Ana Maria Braga.

A partir do momento em que uma pessoa responde o poder público, já está cometendo uma cagada gigantesca. Se alguém resolve sentar numa mesa com EPTC e MP, essa pessoa esta cometendo uma burrice sem tamanho!

Lembro do WNBR de 2008 em São Paulo, na época era responsável pelo site CicloBR e publiquei nele uma chamada para a Pedalada Pelada. Como muitos canais de mídia divulgaram meu link, recebi centenas de mensagens como se eu fosse o organizador do evento e até um email da PM pedindo mais “informações” sobre o evento.

Na época lembro que “o trouxa aqui” jogou a mensagem na lista da Bicicletada(SP) pedindo conselhos sobre o que fazer. Muitos disseram que era pra eu responder o email, dizendo que não era o organizador, que era um movimento horizontal, bla, bla, bla. “O trouxa aqui” fez exatamente isso. Respondi, troquei vários emails com os PMs, mensagens sem ameaças, bem simpáticas, sentia até que dava para confiar nos PMs (tolinho). Lembro que dias depois, quando já havia respondido o email, outro amigo disse que se fosse ele, teria ignorado, dito que ficou preso no anti-spam, mas jamais responderia. Era isso que deveria ter feito.

O PM pediu até para eu passar meu número de celular para conversarmos melhor e na maior boa vontade do mundo passei meu número. No dia da pedalada, o Major da PM me ligou, viu minha cara, conversou comigo na praça, venho com aquele papinho de puta pra delegado (que estavam lá para nos proteger, blá, blá, blá…) e o trouxa aqui caindo na conversa como um patinho.

Quando iniciou a pedalada, todo mundo começou a tirar a roupa e nada da polícia fazer algo. Já estávamos na Brigadeiro, uns 2 quilômetros da Praça do Ciclista e deveria haver uns 50 pelados no meio da massa. Como percebi que a PM não fazia nada, achei que estávamos em Londres, onde a PM acompanha a pedalada para proteger os ciclistas, então tirei minha tanga ficando como vim ao mundo e o que aconteceu logo em seguida? Não demorou cinco minutos e o Major Tomada aparecer em minha frente dizendo que eu estava preso, mesmo rodeado por uns 20 ciclistas nus. A Falzoni até disse “Se ele está preso eu também estou” e a resposta do Major foi “Você não!” Vejam os vídeos abaixo para entender o que aconteceu.

WNBR Parte 1

WNBR Parte 2

Meses depois a CET de São Paulo ainda mandou uma multa de R$1.200,00 para minha casa, só porque eles consideraram que eu fui o organizador do evento “não autorizado”. Claro que a multa foi cancelada, minha prisão não deu em nada e até que no final das contas, todos esses acontecimentos serviram para a prefeitura se tocar de que o melhor é estar do nosso lado do que ser contra.

Houve também uma tentativa torpe, até com a ajuda de setores da mídia convencional de tentar desqualificar o movimento, mas nesse mundo conectado em que vivemos hoje, as mentiras não duram tanto tempo assim, portanto não vejo isso também como um grande problema. Agora não sei se vale a pena passar por um desgaste tão grande e desnecessário como eu passei. Antes eu seguisse a ferro e fogo a principal diretriz da Bicicletada, a de que NINGUÉM pode falar em nome dela.

Se eu pudesse deixar um conselho para a galera de Poa seria uma só. Tirem onda da cara das autoridades sem dó. Esse povo de mente hierarquizada tem uma dificuldade enorme para compreender como um movimento horizontal consegue funcionar. Eles realmente acreditam que há alguém manipulando os ciclistas. Sim, eles criam suas teorias da conspiração, acham que é coisa do PT (se o governo é do PT acham que é do PSDB) e por aí vai, então deixem eles aprenderem na marra.

Uma ideia é fazer como na Bicicletada Interplanetária, a galera imprimiu várias camisetas de “vice-líder” e distribuíram entre os ciclistas. Imaginem a cena de alguém perguntando “Quem é seu líder” e a galera respondendo “Não sei, mas eu sou o Vice-Lider”. Daí outro “Eu também, eu também”…

Outra sugestão, podem seguir o exemplo da galera de Sampa e vocês podem eleger um líder da Bicicletada, aqui todo mundo sabe que o Líder da Bicicletada é o Joaquim. Não conhecem o Joaquim? A foto abaixo foi tirada em um Pedal Verde especial, contra a retirada das árvores da Marginal Tietê para a criação de mais uma pista de carros. Mandei essa foto no meu Twitter e escrevi “Prenderam o Líder da Bicicletada”.

A Bicicletada ou Massa Crítica não precisa de autorização para acontecer, bicicletas são veículos e pela lei podem circular, inclusive em massa, da mesma forma que os outros veículos poluidores podem. Aliás o CTB diz, além que os veículos maiores tem que proteger os menores, diz também que eles não podem interromper uma aglomeração, seja de pessoas ou “veículos”.

Aproveitando façam essa pergunta a EPTC, os milhares de motoristas que se manifestam diariamente nas ruas de Poa, causando paralisação da cidade, precisam pedir autorização para circular? Porque a Massa Crítica precisa?

Tirem onda galera, se divirtam com a cegueira das autoridades, um dia eles vão aprender que é possível haver uma organização ante ao aparente caos. Em diversas Critical Mass ao redor do mundo, a polícia acompanha a massa e só interfere quando algum “Neis” da vida atenta contra a massa. Em São Paulo é comum termos acompanhamento da PM em vários trechos, tanto ajudando nos bloqueios, ou nos protegendo, mas nunca tentando interferir no comportamento da Massa, até porque eles já aprenderam que qualquer tentativa de “guiar” a massa jamais funcionará.

Evitem personalizar a Massa Crítica, converse com as pessoas que na boa vontade tentam fazer isso, o melhor caminho é deixar a massa acontecer naturalmente, acreditem, um dia as autoridades locais vão se tocar e ver que é impossível controlar o incontrolável.

Boa Massa Crítica a vocês.

André Pasqualini

Bonde Curitiba – O extenso relato…

Entre os dias 30 de julho e 01 de agosto ocorreu a 3ª edição do Bonde para Curitiba. Na primeira edição em 2008 lotamos um ônibus. Em 2009 foram dois e em 2010, novamente mais dois ônibus. A idéia do Bonde é participar da Bicicletada de São Paulo, entrar no ônibus que encosta as 23h00 na Praça do Ciclista e seguir até Curitiba, chegando lá por volta das 8h00 da manhã. De lá seguimos para o Pátio da Reitoria onde se concentra a Bicicletada de Curitiba, participando de duas Bicicletadas em menos de 14 horas.

Foto Uirá - DF

Como estava organizando o bonde, não pude participar da Bicicletada de São Paulo, já que tive que ficar na praça correndo atrás dos últimos preparativos, mas meus amigos Uirá e Zerbinato de Brasília e o Guilherme de Santos curtiram ao máximo a Bicicletada Paulistana que segundo alguns participantes, uma das melhores que já aconteceu.

Foto Uirá - DF

Quando a massa voltou a praça, os dois bondes já estavam a postos. Batizamos um como Bonde da Soneca, onde as luzes seriam apagadas e nada de zumzumzum. Já o outro foi carinhosamente batizado de “Bonde do Pancadão”. Luzes acesas o tempo inteiro e inspirados no vídeo (ou áudio) do Cap. Lacerdinha, nesse bonde “Não vai dormir ninguém”.

Foto Gola

A festa rolou solta e toda cerveja foi pouca para essa turma, na parada em Registro as 3h00 para troca de motorista, aproveitamos para passar o chapéu (melhor, o capacete) e comprar mais cerveja (achava que ciclista era tudo “atreta”?).

Chegando em Curitiba, tomamos café no hotel que ficaríamos hospedados e logo depois andamos um quarteirão para chegar no Pátio da Reitoria, local da concentração da Bicicletada Curitibana, De cara encontramos um famoso bicicreteiro Plá, cantor de “bikemusic” que estava lançando naquele dia o CD Biciclopédia. Inclusive nos próximos posts, vou deixar um esquema para a galera poder baixar os MP3 do Pla, já que infelizmente, não encontramos suas musicas nas “melhores casas do ramo” já que tudo é produzido de forma independente.

Foto Shadow - Outro clássico da MPB, "A Bêbada e o Vagabundo"

Falando da massa, mais uma vez estava enorme e pela terceira vez o tempo ajudou demais, um céu azul, impossível de se ver em São Paulo. Clima agradabilíssimo que só conspirou ao nosso favor, fazendo com que a massa tomasse as ruas de uma forma incrível. Adoro a Bicicletada de Curitiba, a galera agita demais, muitas alegorias, crianças, uma festa maravilhosa e com pouquíssimos motoristas estressados, como disse, tudo conspirando ao nosso favor.

Foto Uirá - DF

Era mandala nos cruzamentos, em uma rotatória que sempre passamos (desculpem os Curitibanos, ainda não sei o nome de tudo aí), crianças, test drive na bike do Gallo, e a invasão dos verdinhos de São Paulo no meio da massa. O término da Bicicletada, como sempre foi no lindo Museu do Olho, onde o Plá fez mais uma “session” para nós.

No sábado a noite, a galera de “Curita” agitou um Alleycat, uma corrida onde o ciclista tem que passar por vários pontos da cidade, fazer um “x” numa folha de papel e tomar um gole de alguma coisa que contenha álcool. Participei do Alleycat com minha City Tour de 60 quilos, só faltou eu levar meu caixote.

Concentração para o “Alicate”

Foi muito louco, tomei umas coisas que nem sei direito se era vodka ou zulu e como não conhecia os caminhos ia seguindo uns Curitibas. Estava até que bem, seguindo o cara que chegou em sexto, mas virei uma rua antes da rua do final e me ferrei. Beleza, quando eles vierem pra cá a gente dá o troco e mostra pra eles o que é uma ladeira de verdade… hehe

Na mesma noite fomos até a Pizzaria do pai do Curitiba Fixeiro Ivo, cerca de 50 ciclistas pedalando em ritmo mais forte pelas ruas de Curitiba, lembrou muito esse clipe do 30 Seconds To Mars (se ainda não viu veja, imperdível), até porque o Gallo com sua bike de dois andares fazia parte da massa. No caminho pedalamos pelas famosas “canaletas” os corredores de ônibus de lá, muito utilizada pelos ciclistas apesar de ser proibido.

Como as ciclovias de Curitiba foram planejadas praticamente sem a lógica de transportes, apenas de lazer, ligando parques, com certeza a melhor opção de trajeto casa trabalho dos ciclistas, coincide com o trajeto das canaletas. Como é praticamente inviável andar junto com os carros, muitos se arriscam nas canaletas já que a quantidade de “monstroristas” lá dentro é menor que fora dela. Mas segundo um ciclista de lá infelizmente alguns monstroristas querem “ensinar” aos ciclistas que ali não é o lugar deles com sua arma de 8 toneladas e daí já viu.

Londres e Paris costumam compartilhar as vias de ônibus e sinceramente, acho que com um pouco de boa vontade da prefeitura de Curitiba, somado a um treinamento dos motoristas, esse tipo de compartilhamento é mais que possível. Com um fator positivo a mais, já que diferente de Londres e Paris, onde as pistas de ônibus são estreitas e sem muitas possibilidades de ultrapassagem, em Curitiba ocorre o oposto, elas são largas, tornando bem mais fácil a negociação de uma ultrapassagem.

Depois da deliciosa pizza que custou “8 reais” pra cada um, uma galera voltou para o bar onde terminou o AlleyCat e outra turma (incluindo eu) voltou para o hotel, já que no dia seguinte teríamos a descida da Graciosa.

Foto - Shadow

As 7h30 da manhã de domingo, 50 ciclistas saíram em direção a Morretes, com o objetivo de conhecer a famosa e singular Serra da Graciosa e seus paralelepípedos. O trajeto é bem tranqüilo e bonito, cerca de 80 quilômetros onde misturamos paisagens urbanas e rurais, asfalto, terra, paralelepípedo, morros, trechos planos, tinha de tudo.

Vou dividir em 5 partes, primeiro o trecho urbano até a estrada da Graciosa ainda no trecho urbano (12km), o trecho até a cidade de 4 barras (14km), um trecho de terra (20km) sendo que metade já está asfaltado e outros ainda em obras, a descida da Graciosa (13km) e o retão até Morretes (13km).

Nosso objetivo é que todos chegassem a Morretes até as 15h00, mantendo o cronograma de saída de Curitiba as 17h00. Ah tá… Clique aqui para ver o trajeto exato.

Foto Uirá - DF

Na primeira parte do trajeto seguimos num grupo compacto e com poucos problemas. O céu nublado já mostrava o que iríamos encarar e ao final do primeiro trecho encontramos a “danada” que nos faria companhia por quase toda a viagem. A partir dali o grupo se fragmentou, cada um seguiu no seu ritmo com eu e o Gallo (o da bike de dois andares) fechando o grupo e resolvendo o problema da galera do fundão, funcionando como uma espécie de cata-prego.

Chuva, vento, capas, morros, pneus furados, joelhadas no queixo devido aos selins baixos, muito trabalho para nós do fundão. O Gallo se desdobrava e ainda bem que contamos com a ajuda providencial do pessoal das fixas. Se bem que às vezes eles mais abusavam do que ajudavam, conforme flagrei na foto abaixo.

No terceiro trecho, onde começaria a terra, tivemos uma surpresa pois não havia mais terra e sim um liso asfalto. No ano passado encontramos essa estrada em obras, sendo que o prefeito passou por nós de carro, dizendo que nesse ano ela já estaria totalmente asfaltada (tolinho). Seria uma maravilha se realmente fosse verdade, pois a chuva nos pegou pra valer bem nesse trecho. Quem sabe em 2011?

O grupo que acelerou no começo teve mais sorte e pegou a chuva no finzinho da terra, nem deu pra sujar a bike de lama, mas já a galera do fundão…

No meio da massa se destacava o Wagneta, esse cara aí em cima, com sua Fixa sem freios, não teve medo nem da lama, tão pouco da “assustadora” descida pelos paralelepípedos. Quando a chuva apertou na lama, só ouvia o barulho das pastilhas se dissolvendo na primeira descida mais leve. Comecei avisar “Vai gastando o pouco que vocês tem aqui e não sobrará nada na Graciosa”. Dito e feito, quando começou a descida de verdade ninguém mais tinha freios, o único que não teve problemas foi justamente o Wagneta e justamente o que melhor sabia se virar sem freio.

Começamos a descida a quase 1000 metros de altitude. Agora o problema era o frio, já que durante a descida, ninguém pedala para esquentar o corpo, congelando os despreparados, aqueles que deixaram a capa em casa, mas não esqueceram de trazer a U-lock. Mesmo assim TODOS conseguiram descer sem maiores problemas.

Vim fechando o bonde com o Fernando que havia furado seu pneu pela terceira vez. E bem no final dos paralelepípedos, encontro os 3 fixeiros, o Haase, a Larissa Fiona (explico daqui a pouco) e Wagneta, comendo um suculento pastel. Tive que tirar uma foto deles para mostrar pros fixeiros de Curitiba que esses caras não são nada fracos… Aliás, segundo eles, NINGUÉM, havia descido a Graciosa de Fixa e muito menos debaixo de chuva, portanto mais um desafio vencido pelos fixeiros de Sampa (se alguém já realizou tal proeza, mande aqui que eu publico)

Infelizmente a essa altura meu celular estava pifando e esse foi meu último registro fotográfico da viagem. O dia que alguma empresa inventar um Celular com Android, GPS, Camera Fotográfica e a prova d’água, serei o primeiro a comprar. Faltavam ainda 16 kms até Morretes, onde começamos a ultima parte da viagem. Trecho totalmente plano, que segue beirando um rio maravilhoso. Estávamos em cinco, eu o Gallo e 3 fixas, girando a uma média superior de 30 km/h. Com certeza iríamos vencer o trecho final em menos de meia hora caso não ocorresse mais nenhum problema…

Foto Uirá - DF

Boca santa, faltando menos de 5 km, quando já dava até para avistar a Igreja que fica na entrada da cidade de Morretes, encontramos mais uma vez o Fernando, novamente com um rombo na câmara. Para não perder mais tempo, começou uma operação de guerra. Primeiro tentamos colocar o Fernando no banco debaixo da bike do Gallo com o quadro. Quase que ocorre um desastre.

Foi quando a nossa amiga ogra, a Larissa Fiona, pede o quadro e tenta fazer um esquema para carregar nas costas, junto com sua mala. Não deu certo, então tentei colocar a bike no meu caixote e não deu certo também. Não contente, ela tirou as rodas da bike, colocou o quadro atravessado no seu peito e pedalou os 5 kms restantes daquele jeito. Eu levei as duas rodas no caixote e o Gallo levou o Fernando no banco inferior da sua bike.

Meu celular já havia ido para o espaço e não sei como ninguém tirou uma foto dessa bizarra situação. Pena pois seria uma imagem surreal da nossa chegada triunfal em Morretes, seguindo a risca nosso lema de que ninguém fica pra trás.

Essa é minha 3ª edição do Bonde que participo e consultando a lista de participantes, apenas eu e o Haase fizemos as 3 edições. Ele comentou algo sobre isso e vou na mesma linha. Apesar de cada edição ter sua peculiaridade, de todas essa teve um sabor muito especial. O clima entre os participantes também foi muito astral, muita união, comprometimento (estou parecendo o Dunga), caras novas, novos amigos, uma maravilhosa recepção por parte dos Curitibas e pra fechar esse desafio final na Graciosa, onde fiz com que muitos concordassem com o meu lema de “Quanto pior melhor”.

Ano que vem teremos outro Bonde para Curitiba, adoraria ir de passageiro, mas curto tanto essa coisa da organização, de poder proporcionar uma viagem maravilhosa as pessoas, que dificilmente irei cumprir minha promessa. De qualquer maneira, Curitiba já está consolidado e creio que está na hora de começarmos a expandir nossas fronteiras. Tá pintando aí um Bonde do Cerrado e se tudo der certo, ainda esse ano. Que vocês acham? Vamos começar já a fazer a lista desse bonde? Hehe…

Só digo uma coisa, o Gallo não é a Chantal, mas vai voando…

Mais Relatos, Fotos e Videos:

Outras vias – Parte 1
Outras vias – Parte 2
Uirá – DF
Golla
Shadow

Suas fotos e videos do Bonde não estão aqui? Demorô, compartilhe com a galera, jogue nos comentários que eu incluo aqui.

Invasão das Bicicletas

Invasão das Bicicletas

Conhecem o Plá? Cantor de Curitiba, famoso entre os ciclistas devido essa música aí em cima, Invasão das Bicicletas, que embala muitas bicicletadas pelo Brasil. Ele esteve aqui na Bici-balada em São Paulo fazendo um show para nós.

Moral – Novo som

Bati um super papo com o cara e sugeri que ele fizesse um CD só com músicas de bicicleta, já que ele está consolidado entre os ciclistas. Ontem recebi um email dizendo que ele fez um CD com 8 músicas que falam só de bike. O nome do CD é Biciclopédia e seu lançamento será no próximo sábado, quando o Bonde para Curitiba chegar na bicicletada de lá.

Clique aqui para baixar o MP3 da Invasão das Bicicletas e caso queira participar do Bonde para Curitiba e conhecer o Pla, ainda dá tempo.