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Janeiro de 1996, início de noite: surge a lua mais linda que já vi sobre o canal de Cananeia. Aquele prateado refletindo no canal, nunca mais me esqueci dessa imagem. Na semana passada, a lua cheia deu o ar de sua graça aqui em São Paulo. Apesar de bela, ela estava marrom, parecia até meio enferrujada. Para alguns a culpa foi do clima seco.

Quando é que vamos parar com essa falácia de culpar o clima seco? No deserto, o clima é mais seco, mas dá pra respirar! Ok, é culpa da poluição. Mas quem polui nosso ar? Os caminhões que foram para o Rodoanel? Os fretados que foram expulsos da cidade? Os 15 mil ônibus da nossa frota? Chega, né? A culpa é das seis milhões de pessoas que têm (e principalmente usam) carros nessa cidade.

Semana passada corri para o Hospital Infantil com meu filho. Lá chegando, via tudo com aperto no coração. Lotado de crianças chorando, sofrendo devido aos problemas causados pela “clima seco”. Sei que, diariamente, 20 pessoas (maioria idosos e crianças) morrem por causa da poluição. Já imaginou ver uma criança morrer e saber que colaborei graças ao escapamento do meu carro? Ontem, peguei um ônibus que fez em 50 minutos um trajeto que eu faria em 15 minutos de bicicleta. Em frente ao aeroporto, entrou um cadeirante. O ônibus deu a volta para entrar no Campo Belo e parou do outro lado da via para o cadeirante descer, bem embaixo da passarela. Detalhe, a passarela do Aeroporto de Congonhas só tem escadas.

Enquanto ninguém consegue atravessar uma ponte a pé ou de bicicleta, os motoristas ganharam uma linda Nova Marginal. Enquanto não temos calçadas para caminhar, as ruas dos Jardins estão recapeadas. Enquanto a passarela do Aeroporto não é acessível, os motoristas têm a “útil” Ponte Estaiada. Por isso que nunca mais quero dirigir um carro, não consigo compactuar com tanta injustiça.

Vou sofrer? Claro que sim, mas minha consciência estará tranquila, minha barriga controlada, meu pulmão igual ao de um fumante (mesmo sem fumar), mas não vou resolver o “meu problema” de mobilidade à custa da desgraça alheia. Por isso que já decidi: dia 22 de Setembro, em plena Praça do Ciclista, vou queimar aquilo que tantos sonham e pagam (quando não compram) como se estivessem “comprando a liberdade”. Será a última vez que minha carteira de motorista vai ajudar a poluir essa cidade.

Todas as terças escrevo para o Jornal Destak de São Paulo, na coluna “Seu Destak”. Clique e veja a coluna no site do Jornal.