Diario do Pantanal – dia 9 – Cansaço

O Pantanal é realmente lindo, mas pedalar aqui é desgastante demais, quando a areia esta mais batida você tem que fazer uma força danada para o pedal render.

Quando a areia tá demais e tem grama, o lance é colocar na coroinha e ir girando nos solavancos da grama, mas pior mesmo é ter que arrastar a bike no areião.

Minha papete com clip esta toda rasgada de ficar batendo uma na outra na hora de empurrar. Imaginem como está o meu tornozelo, esta em carne viva. Pra piorar levei um tombo e enfiei o pé na coroa, coisa linda.

Comecei o dia saindo da Fazenda São Cristovão e lá o capataz deu uma dica boa para chegar na fazenda Recreio, o que seria minha porta de saída do Pantanal. Mas ele pediu para eu pedalar até a Santa Luzia, depois para a Fortuna e lá pedir a indicação de como chegar na fazenda Rancho Alegre, uma reta até a Fazenda Recreio, a princípio o meu destino.

Foram cerca de 20 quilômetros até a Santa Luzia, alternando vazantes, cerrados, areiões e acabei chegando lá as 11h00. Conheci o senhor Augusto, capataz da fazenda que me convidou para almoçar. Uma delícia de almoço, com direito até a sobremesa.

Ali ele me deu a dica de, a partir da Fazenda São Pedro, sair da rota do meu GPS e seguir rumo a fazenda Carvalho, que tem um porto a 10 kms da sede, bem próximo ao Jofre, onde só precisaria atravessar o rio. Diferente da Fazenda Recreio, onde deveria subir de barco pelo menos 30 kms.

Ele deu essa dica também ao Yanko e seu amigo, os ciclistas que cruzaram o Pantanal por essa rota no meio do ano e me passaram as coordenadas, mas não sei porque pegaram outro caminho. Segui meu rumo até a fazenda Fortuna onde o seu Adão, antigo gerente de fazendas, que acabou juntando um dinheiro e comprando uma só pra ele. Com 30 anos de pantanal, me confirmou a dica e me deu uns toque de como chegar nessa Carvalho.

Mais 7 quilômetros de muito “push bike”, cheguei na fazenda São Pedro. Agora vou sair de vez da rota e ver no que dá. Se chegar bem na fazenda Carvalho, terei descoberto uma excelente rota para se cruzar o pantanal.

Diario do Pantanal – dia 8 – Maldito areião

Essa minha pedalada pelo Pantanal, de longe é o meu maior desafio, a mais desgastante, apesar de toda beleza que encontrei até agora.

Meu dia começou bem, estava tomando café da manhã e ouvindo a conversa. “Mas a peça do Caminhão não chegou e não consigo ligar”

Daí o outro responde, “Mas você usou a internet?”

(Internet? – pensei)

“Mandei um email mas não responderam ainda…”

(Email?) Então perguntei; “Vocês tem internet aqui?”

“Sim, internet via satélite, se quiser pode usar o micro”

Não pensei duas vezes, consegui subir as fotos desse meu celular mas não consegui subir as fotos do outro pois nem trouxe o cabo dele. Pior que nesse é que estão as melhores fotos.

Consegui ao menos subir um post para avisar que está tudo bem e logo encarei a estradeira. A partir daqui há fazendas num raio de 7 a 15 quilômetros, bem mais fácil e seguro de pedalar.

Saindo da São Sebastião Grande, só precisei cortar o pasto da fazenda para sair na Santa Cruz. Muita trilha com grama, pouco areião e cheguei na fazenda em pouco mais de uma hora, tudo bem trânquilo.

Chegando na fazenda Santa Cruz fui atrás de água, mas não havia ninguém. Fui entrando na fazenda e nada, então fui até o tanque e enchi meu galão de água.

O próximo destino seria a Fazenda Campo Alto, o trajeto foi novamente tranquilo, mais 10 quilômetros e cheguei na fazenda ao meio dia e meia da hora local.

Lá conheci o seu Nelson, capataz da fazenda que estava descansando na rede. Pedi na cara dura água e comida, pois minha comida esta acabando e não quero correr risco nesses dois dias que me restam.

O senhor foi muito gentil, me ofereceu um descanso na sombra e depois me convidou para almoçar uma feijoada maravilhosa feita pela sua senhora que, infelizmente não perguntei o nome.

Ficamos proseando enquanto comia, sua senhora ainda me trouxe água geladinha e até suco para acompanhar a comida que estava tão boa que eu repeti o prato.

E a sua casinha? Bem simples mas linda, me lembrou muito as casinhas tão bem cuidada do Vale Europeu em Santa Catarina. Quem disse que casa humilde não pode ser bonita?

Depois de muito comer, me despedi e fui encarar a estrada. Eram 13h40 no horário local, e como o sol não castigava tanto e, lá fui eu encarar o areião.

E que areião, são 10 kms até a fazenda São Cristovão e logo de cara foram 2 kms sem pedalar, só arrastando a bicicleta. Nem bicho gosta de areião, enquanto nas vazantes, campos e corixos encontro uma cacetada de animais, no areião, no máximo encontro são  buracos de tatu.

Desencanei, comecei a marcar no GPS o próximo ponto e quando chegava nele eu tomava mais água e descansava um pouco. Foi assim, ponto a ponto que cheguei na São Cristovão, com direito a areião até 500 metros da sede.

Aqui fui bem recebido, jantei, ganhei pouso e umas dicas de um caminho mais curto para chegar na Fazenda Recreio. Lá é que faria meu acesso ao rio para tentar um barco até o Jofre, onde começa a estrada Transpantaneira, já em Mato Grosso, que me levará a Cuiabá, encerrando minha saga pelo dificil Alto Pantanal.

Diario do Pantanal – dia 4 – Respeite o Deus Sol

Sempre fui muito tolerante ao sol, moleque aos 18 anos, parecia um índio, ficava o dia inteiro jogando bola, volei, sempre sem camisa, nada de protetor, morenasso.

Venho a bike e lá vou eu pedalar sem camiseta, só pra não ficar com a marca do “manguito” nos braços. Basta dar uma olhada nas galerias das minhas viagens antigas que me verá em várias fotos sem camiseta. Sinceramente não sei como eu aguentava pedalar com tanto sol.

Aqui no pantanal, procuro sair cedo, umas 5 da manhã horario daqui (7 de São Paulo e 6 de Campo Grande já que os pantaneiros ignoram o horário de verão) e pedalo até as 15h00, até mesmo para evitar encontrar uma onça no caminho, já que elas costumam sair para caçar no fim da tarde.

Saí da fazenda Campo Oliva as 5h00 da manhã, dia claro mas nublado. O Capataz disse que seria o dia inteiro assim, normal ficar nublado nos finais de semana. Primeiro só aí caiu a ficha que era sábado. Depois fiquei feliz pois poderia pedalar bem até durante o meio do dia, o que faria o pedal render.

Meu destino seria a fazenda Santa Cruz e depois a Mercedinha, já a 10 kms do Rio Taquari. Dependendo do horário tentaria esticar o pedal até o Retiro da Mercedez a 5 km do rio.

No caminho vi uma arvore repleta de urubus e senti um cheiro forte de carniça. Parei para ver o que era e descobri uma enorme anta morta. A carcaça estava fresca e não deu para saber o motivo da sua morte.

Depois descobri com o João Batista (João Carona, capataz da Mercedinha), que anta é muito dificil de se ver morta, nem onça ataca ela, devido a sua grossa pele. Pode ter sido morta por cobra, mas nem fiquei muito tempo para investigar.

Mais pra frente vi um grupo de veadinhos, pra variar todos correram, menos um. Me aproximei e vi que  ele estava com a perna quebrada, quando tentava correr ela dobrava pra frente. Então consegui chegar bem próximo dele e bati umas fotos. Dava para chegar mais perto ainda, mas fiquei com dó pois toda hora que me aproximava ele tentava correr e a perna dobrava pra frente, então tomei meu rumo. Esse logo irá virar comida de onça.

Chegando na Santa Cruz novamente um areião desgraçado, passei um corredor de boiadeiro empurrando a bike por uns 2 kms até chegar na Santa Cruz. Lá eu peguei um pouco mais de água. A minha estava gelada pois na Campo Oliva já tem freezer e energia elétrica. Já na Santa Cruz ainda é gerador e a água é só fresca.

Cometi dois erros aí, primeiro não ter enchido até a boca do garrafão e depois não ter parado para almoçar. Como cheguei tarde, perto do meio dia hora local, o povo já devia ter almoçado. Mesmo assim deveria ter comido um miojo, no mínimo.

Segui em direção da Mercedinha, nem mais pergunto se tem ou não areião pois o povo daqui nunca acerta dizer se tá bom ou não para bike.

Saindo da fazenda peguei um trecho ruim, com mato mas sem grama, o que segura demais a magrela, depois uns trechos curtos intercalando areião e lagos. Bem deixa explicar melhor os tipos de terrenos que temos no Pantanal.

Uma vazante é como um rio seco, mas com grama no seu leito. Ali sempre há trilhos simples ou duplos, feitos por carros. O melhor lugar para se pedalar.

Depois vem as pistas com pasto formado, trechos com trilhos de carro, cheio de areia. Locais difíceis para se pedalar, mas como tem grama ao lado, basta ir pela grama. Não dá para desenvolver mais que 10km/h, mas dá para pedalar.

Tem os areiões com cerrado baixo em volta. Ali você tem que sair da pista e andar no meio da mata. Precisa tomar cuidado para não se perder mas dá para seguir por lá.

Já a tristeza dos ciclistas são os areiões, trechos com areia pra todo lado, até mesmo no meio da mata. Aí a única solução é descer e empurrar. Mas no nosso caso não é apenas empurrar, mas sim arrastar a bike.

Peguei trechos curtos de areia, lagos secos com corixos (pequenos lagos que formam corixos, nome dado a esses poços, que ficam com água mesmo em época de seca) e num deles havia vários jacares. Como eles não são bobos, estavam todos dentro d’agua.

Meu relógio marcava 14h00, o que seria meio dia daqui, sol a pino castigava. Eu sempre pedalava (ou empurrava) até a próxima sombra onde bebia um pouco de água. Cheguei numa vazante grande, onde cruzei com facilidade, faltavam menos de 6 kms para o meu destino e achava que tudo correria bem.

Saí da vazante e peguei um areião lascado. A areia pelando de quente e enquanto arrastava a bike meu pé fritava. Nessa hora percebi que minha água havia acabado e faltavam 6 kms até a fazenda.

Comecei a empurrar a bike, até que teria uma longa e quente clareira para atravessar. Saí arrastando a bicicleta e meu pé fritava, faltava muito ainda e achei que iria queimar meu pé, quando cheguei numa sombra joguei a bike no chão e tirei minha papete. Ali percebi que se tivesse que empurrar até a fazenda poderia ter um sério problema.

Então calcei as sandalias da humildade, resolvi deixar a bike ali no mato e seguir a pé até a fazenda. Ali poderia pegar um pouco de água, esperar o sol baixar e voltar para pegar a bicicleta.

Caminhar naquele sol não foi fácil mas bem menos cansativo do que puxar a bike por 2 kms de areião. Levei o GPS e o rastreador, quase uma hora depois cheguei na fazenda. Lá estava apenas a Dona Mavi, senhora do João Carona, o capataz. Ela me deu água fresca e deixou comer umas mangas enquanto o sol baixava umm pouco.

Na fazenda eu mandei uma mensagem pelo rastreador dizendo que havia terminado o pedal do dia. Assim se houvesse alguém me acompanhando não os deixaria preocupados com minha ida e volta até a bike.

Então voltei bem mais disposto para a estrada para pegar minha bicicleta. No caminho de volta encontrei vários Quatis atravessando a estrada. Foi até fácil de fotografar pois não fiz barulho e estava bem perto deles. O problema foi ter que usar apenas a porcaria do meu celular.

Isso me lembrou que já começava a anoitecer e que era a hora dos bichos sairem das tocas. Isso vale para todos, desde cobras até onça. Então apertei o passo e cheguei no portão da fazenda. Ali já estava seguro, pois conseguia pedalar.

O dia me provou que não posso brincar com o sol, agora vou levar sempre duas das minhas garrafinhas com água numa mala térmica que tenho dentro do alforge. Assim se acabar de vez sei que tenho uma reserva que deverei racionar até o próximo ponto de abastecimento.

Depois de 6 dias pedalando direto, fiz uma pausa aqui na Mercedinha mesmo, dia de dar uma geral na bike, armar a rede e ficar de pernas para o ar.

Dores tenho no corpo inteiro, mas esse dia de descanso é fundamental para recompor um pouco os músculos e seguir a travessia o Pantanal.

Diario do Pantanal – dia 2 – O tamanho da encrenca

No primeiro dia pedalei 100 quilômetros sendo uns 80 de terra. Encarei o areião sem empurrar e dei risada, pensei que iria tirar os 400 kms de Pantanal de letra. Mas bastou sair da via principal (que é um aterro), começar a cortar pelas estradinhas que ligam as fazendas e os corredores de boi para ver o tamanho da encrenca.

Não dá e nem compensa pedalar na areia, é como tentar pedalar na areia fofa da praia. Quando chega o areião, tenho que ir na grama das beiradas ou entrar no meio do cerrado fazendo uma trilha paralela.

Saí bem cedo, dormi numa casa onde os peões dormem em redes. eles acordam as 4h00 da manhã e acordei as 5h00. Aproveitei o café da manhã deles e cai na estrada.

Detalhe, nada de “paozinho” com “manteiga”. Eles comem arroz, feijão e ovos no café. E aquilo serviu como uma bomba para me manter quase o dia inteiro.

Logo que saí da fazenda, fui seguindo as trilhas do GPS. Aliás, eu fiquei com o Yanko ligando os pontos e vendo o trajeto exato que ele fez para jogar o track da viagem no meu aparelho. Quando fui ver, quem disse que os tracks foram gravados?

Mas só com os pontos já ajuda, meu destino é sempre a fazenda mais próxima e tento chegar em uma por volta das 11h00 para abastecer de água (se rolar um convite para almoço melhor ainda) e as 16h00 para parar e descansar.

Ainda não vi nenhuma cobra nem uma Ararauna (arara azul), mas consegui ver uns bugios. Difícil é fotografar qualquer bicho com meu celular, esses bugios fugiram e não consegui fotografá-los, nem entrando no cerradão. Além de ter que olhar para o chão e para a árvore para evitar cobras, ainda tinha um corvo chato que ficava gritando e me dedurando.

Nessa de seguir até a próxima fazenda, passei pelo Retiro Pindorama e segui para a fazenda Marajoara. Depois de muito trabalho para conseguir entrar nela, não consegui um almoço, mas consegui àgua geladinha.

Resolvi ir direto sem almoço, um erro, tinha que ter parado e feito um miojão, esse almoço fez muita falta. A próxima fazenda era a dos Pimentas, o gps marcava 10 kms de distância, mas o terreno e as curvas da estrada só faziam aumentar .

Nessa hora achei um trilheiro apontando para a fazenda, não tive dúvidas, entrei na trilha e evitei alguns kms de areia.

Com muito custo e passando por vários areiões, cheguei na fazenda Pimenta, eram 15h00 e o retiro da Fazenda Piuva estava a 10 kms de mim.

O destino óbvio é fazer o trajeto que exatamente como o Yanko havia feito, mas sugeriram eu mudar o caminho indo por uma outra estrada com muita areia, mas que tinha várias fazendas sendo a mais perto a cerca de 3 kms e de lá ir para a Morrinhos, um trajeto mais curto. Como o início da estrada era um areião, decidi manter a rota ir para a fazenda Piuva mesmo.

No caminho encontrei uma comitiva com vários tourinhos que vieram da direção da fazenda.

Entrei na trilha e me ferrei, peguei um areião desgraçado, ainda mais detonado por causa da comitivas sofria para empurrar a bike. Como meu clip tá muito apertado, direto o clip travava e caía para o lado direito.

Perdi uma mão da luva e logo depois perdi a outra. Cheguei no retiro da fazenda Piuva as 17h00 hora daqui.

Descobri que esqueci minha toalha na fazenda Vitória estou me virando com uma toalha de rosto. De tanto cair e encher o guidão de areia, apareceu uma bolha na minha mão.

Também apareceu umas feridas na minha bunda por causa do banco novo. Descobri que jamais devemos amaciar um banco numa cicloviagem.

Depois que comer muito aqui na casa do Edinho, o capataz do retiro, armei minha rede e fui descansar. Foram 50 quilômetros nesse dia hoje e se mante-se essa média ficaria feliz. Mas numa cicloviagem, cada dia é uma viagem nova e é assim que temos que encarar pois nunca sabemos quais são as “merdas” que irão acontecer.